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terça-feira, 19 de setembro de 2017

OBSCURA AUTORIDADE

OBSCURA AUTORIDADE

A natureza é com certeza providencial, mas completamente indiferente à sobrevivência dos seres vivos. Cada ser vivo deve por si só promover a sua sobrevivência. A não-indiferença representa o início do "importar-se", o reconhecimento da imagem do outro, a importância de alguém que ocupa espaço físico, temporal, que faz diferença! 
Porém, é importante fazer uma distinção: enquanto as coisas são, os valores valem. Parafraseando Garcia Morente, podemos dizer que "os valores não são, mas valem. Quando dizemos de algo que vale, não dizemos nado do seu ser, mas dizemos que não é indiferente. A não-indiferença constitui esta variedade ontológica que contrapõe o valor ao ser. A não indiferença é a essência do valor".
Distinção entre juízos de realidade e juízos de valor. Os primeiros, enquanto constatação da realidade (ex.: isto é uma mesa) e os últimos, enquanto qualidade do conteúdo, podendo ser atrativa ou repulsiva, boa ou má e assim por diante.
No caso do ser humano o princípio da “não-indiferença é a essência do valer". Isso significa que não permanecemos indiferentes diante dos seres que constituem o nosso mundo familiar, pois constantemente atribuímos a eles valores bipolarizados: bom e mau, verdadeiro e falso, belo e feio, generoso e mesquinho, sublime e ridículo, e assim por diante.
Já no caso do ser humano o “principio da não-indiferença” já inicia até mesmo antes do Bebê nascer. Geralmente, há um ambiente  organizado para recebê-lo De fato, o ser humano faz parte de uma estrutura, uma vez que ninguém chega num vazio. Em relação aos pais, à família, à cultura, já existe certo lugar reservado para a criança que ainda não nasceu ela já tem o seu lugar marcado. Isso significa que a vida de um indivíduo tem suas determinações fora dele, determinações anteriores e fora dele, diferentemente dos animais. 
A essa estrutura na qual todo ser humano se insere, a essa estrutura externa ao sujeito e que o determina, é chamada pela psicanálise de Outro (Grande outro). Podemos, então, supor que surgirá o marco inicial do sentimento de apego e, em contra partida, a aquisição de um adimensional sentimento de auto-despossessão.
Destarte, nós seres humanos vivemos inseridos num mundo “estrangeiro” onde tudo que não sou eu é outro e tudo que não é meu é do outro. E mais, eu sou o outro do meu próximo e vice-versa. Tudo isso resulta numa obscura autoridade, repleta de crenças, de arquétipos, de egrégoras, religiões, mitos, lenda, fadas, etc. Nosso inconsciente anda repleto de falas, sugestões, opiniões dos outros. O que significa dizer que nossa mente (inconsciente) é estruturada como o discurso do Outro.
Torna-se importante entender que esse Outro não é uma pessoa, mas uma estrutura externa que gradativamente inscrever-se-á na estrutura psíquica do indivíduo. 
Assim, o sujeito, por definição, está determinado desde fora dele, e o Outro deve ser pensado como uma referência que são os parâmetros da vida desse sujeito, o que ele é.
Daí a pergunta: Que outro é esse que não sou eu ao qual sou mais apegado? Portanto, é importante salientar que o humano se trata de um ser de existência alienada, num desconhecimento crônico de si mesmo. Implica que o sujeito não sabe quem ele é. E, ainda: falta-lhe a inconsciência animal para poder viver em paz consigo mesmo e com a indiferença da natureza.
Significa que a diferença dos demais é que atribui valor a alguma coisa. Por exemplo, você ser diferente dos demais estudantes, é o que lhe dará valor, agora, se o valor é bom ou ruim aí é com você, ou com o que se está lidando.
O que é ser indiferente? É ser comum, qualquer, igual a todos. Quando é citado o "não", todos esses conceitos são invertidos. Reescrevendo, com o mesmo sentido, temos: "A diferença é a essência do valer". Significa que "O valer à pena" é marcado pela diferença. Ex: Para valer a pena, mostre o seu diferencial. Afinal, quem não quer ser reconhecido? Quem não quer ser distinguido?


CAIXA PRETA  Roberto Lanza

19/09/2017

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

OS BOICOTES DO EGO



O ser humano é uma realidade complexa bastante susceptível para o desequilíbrio emocional. Em matéria de psiquismo, todo ”beco sem saída” tem uma passagem secreta e, ao mesmo tempo um “esconderijo” à nossa disposição, no intimo da nossa consciência. . Em contrapartida, a saída secreta exige esforço, disposição e precisa de nossa licença.
Geralmente preferimos permanecer no joguete de meias verdade, num jogo de “faz de conta” inviabilizando modificar a nós mesmos para uma vida pessoal de menor qualidade. No esconderijo, para evitar o confronto com a nossa verdade traumática, refugiamo-nos no escapismo, afastando-nos da própria verdade. Tal fuga se faz recompensa ilusória e desastrosa.
O escapismo é uma forma de nos proteger de nós mesmos, que se torna uma recompensa ilusória e desastrosa. Quando o viver passa a ser doentio, depositamos na morte a promessa maior de vida e o que soçobra é o medo da vida, o qual camufla a morte como expressão da nossa recusa de sermos verdadeiros. Assim, falta-nos auto-possessão com sentido de vida.
Interessante é que, comprovadamente, existem casos de enfermidades graves com previsão de óbito e, no entanto, o paciente foi salvo ou se curou e proporcionou um processo de mudança de vida mais equilibrada. Em tais casos, a causa da cura foi a iminência da morte que a vida foi incapaz de suscitar..
Neste sentido, é importante ressaltar que a ameaça de morte faz valorizar o que realmente é importante – fruição nas relações. Portanto, podemos constatar que: na vida se consegue o que se busca, sobretudo uma doença.
Sentir dentro de nós uma plenitude de paz é estar de bem com a vida, consigo mesmo e com os outros, mas, primeiro, é preciso abandonar os velhos hábitos e pseudos-valores. 
É muito natural que, no decorrer da vida ocorram aberraçõescuja incerteza nos assusta. Mutações sempre acontecem e nos ameaçam, sobretudo quando nos falta um ponto focal firme que cimenta as partes do todo.
Se mal integrados, em razão de vivermos mais para fora que para dentro, fugimos para fora. Ficando mais vulneráveis, cultivamos o caos interior, deixando o essencial abandonado e. também, descartando os valores que nos servem de referenciais por onde navega a afetividade a serviço da integração.Toda enfermidade tem muito de distúrbio – caótico ou relacional – sendo que a saúde é sempre ordem, integração e equilíbrio.
Para falta de confiança, de compromisso, de fragilidade, de medo não faltam justificativas. Dai é só um passo para nos escravizar. E portas se fecham. A vida requer muita luta e, principalmente confiança. Mesmo sendo seres condicionados, podemos ser expert em criatividade, forjando nossa existência com o todo integrado. Sermos prisioneiro daquilo que nos cerca, somos instigados a nos libertar de prisões interiores e exteriores. Há uma capacidade decisiva que habita dentro de nós a qual permite que a vida possa acontecer.
Entretanto, não faltam motivos para nos desculpar diante da fragilidade, medo, desânimos decorrentes de problemas pessoais. O Ego é especialista em transferir tais sentimentos, de forma pretensiosa, para as situações, as coisas e as pessoas, alheias à nossa pessoa. Então, as oportunidades se fecham.
Como agentes do nosso destino passamos a ser vitimas, o resultado não pode ser outro senão tornarmos vitimas de nós mesmos, ficando mais difícil cuidar bem da vida. Urge voltar para dentro de nós e nos desmascarar, sendo o caminho mais correto. É preciso apostar em nossa força criativa. Nosso compromisso com a gratuidade é caminho seguro para uma vida de qualidade.
Compilado de Autor desconhecido

CAIXA PRETA Roberto Lanza
17/10/2016


quinta-feira, 29 de setembro de 2016

O DESPRAZER

Dependendo da estruturação do aparelho psíquico segue-se uma via simbólica ou anatômica para alívio dessa tensão. Pois, como disse Freud, “o aparelho psíquico não tolera o desprazer; tem de desviá-lo a todo o custo, e se a percepção da realidade acarreta desprazer, essa percepção – isto é, a verdade – deve ser sacrificada”. No entanto, para que se possa entender esse processo, a forma como as questões conflitivas ou de desprazer são processadas, faz-se necessário compreender um pouco da estrutura psíquica.

Existe, pois, uma espécie de lei inscrita em cada ser: é feito para a alegria e não para o sofrimento.
No plano afetivo, sua busca de amor e de troca de ternura e de alegria não tem fim. No plano cognitivo, uma curiosidade, muito frequentemente insaciável, fá-lo apreciar as alegrias da descoberta, assim como a euforia da criatividade literária e artística.

CAIXA PRETA Roberto Lanza
29/09/2016

A INCOMPLETUDE HUMANA

A incompletude, mesmo não constituída em assunto empolgante para conversas tanto populares quanto eruditas, é, todavia, sentida, todos os dias, como experiência na condição humana. Querendo ou não, sentem-se os humanos obrigados a lidar com constatações que mostram, ao lado das suas grandes capacidades, um antagonismo de extraordinária fragilidade, e que em todos os dias os interpela para preencher a falta de algo, seja na mediação dos recursos técnicos, eletrônicos e midiáticos, ou na procura de reagentes somáticos para diminuir dores, suprir fomes, expectativas, ansiedades e tantos outros limites.

O termo “incompletude” decorre do adjetivo derivado da palavra latina “incompletu” que significa imperfeito, não acabado ou não completo. Assim, a palavra incompletude é usada para expressar a característica muito peculiar e específica da condição humana, que é a da constante necessidade de se completar com serviços, obras, ações e valores que lhe deem significado. É nesta perspectiva antropológica que vamos alargar uma das muitas dimensões da cultura humana e que, por isto mesmo, nos distingue radicalmente da vida de outros seres neste planeta.

Texto compilado de:
João Inácio Kolling1

1 É professor da Faculdade La Salle de Lucas do Rio Verde-MT, Mestre em Antropologia e Doutor em Filosofia e Ciências da Educação. Endereço: joaoik@bol.com.br ou João@unilasallelucas.edu.br

CAIXA PRETA Roberto Lanza
29/09/2016

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

O ENIGMA FUNDAMENTAL

    

Na nossa mais remota existência, como pequenos perversos e habitantes de um mundo de pensamentos imperfeitos e de vastas emoções, tramamos cometer dois terríveis crimes, que permaneceram registrados em nosso inconsciente, não porque eram importantes, mas são importantes porque permaneceram.
Tratam-se de desejos relacionados com o parricídio e com o incesto, cientificamente comprovados  pela práxis da clinica psicanalítica  e da ciência do inconsciente.
Essas experiências vividas inconscientemente pela criança, certamente não foram concretizada por impossibilidade de um frágil SER totalmente impotente. Por isso mesmo, não passaram de desejos de amor e ódio que devotamos aos nossos pais (não necessariamente aos pais biológicos), mas que determinam os nossos desígnios conscientes, bem como a força motriz que balizam os nossos destinos.
A nossa verdade, ou melhor, a verdade do desejo inconsciente é sempre um enigma a ser decifrado. No enigma, a verdade e o engano são complementares e não excludentes. A questão fundamental, na ótica da psicanálise, reside no fato de que somos dois sujeitos um dos quais nos é inteiramente desconhecido. Os nossos desígnios conscientes não são capazes de elucidar os enigmas presentes em nosso inconsciente, portador de uma forte carga afetiva muito poderosa e indelével, que norteiam os nossos destinos. 
Na clinica psicanalítica quem descobre os crimes é o próprio paciente, necessariamente pela relação transferencial com o analista. É fato que ninguém transforma ninguém, mas consegue transformar a si mesmo com a ajuda de outros, especialmente os profissionais da área da saúde mental..
Mas, trata-se de um processo longo e sinuoso na relação entre paciente e analista, denominada função transferencial,ao mesmo tempo em que revela a verdade do sujeito também a produz. Uma das propriedades de tal relação é a impressão de que o desejo do paciente é uma crença equivocada de que há um suposto saber do analista, não se tratando de algo já pronto e acabado, mas ela é, também, produtora do desejo.
Os especialistas da área consideram que só pode existir desejo do paciente a partir da clínica analítica e que não há desejo inconsciente antes do inicio da analise demandada pelo analisando. Isso pode patentear a condição humana de dependência de um Outro (Grande Outro) que garantiu a nossa sobrevivência e nos salvou do desamparo fundamental.
Nós, humanos, nascemos biologicamente incompletos e desprovidos dos instintos naturais, que guiam os outros animais. De início, nada dependeu de nós para depois tudo depender de nós.
Essa verdade fundamental que se manifesta no nosso cotidiano, não nos remete diretamente a ela, pois não se trata de uma verdade desvelada, mas dissimulada e distorcida. Trata-se, pois, de um enigma a ser decifrado. A teoria e prática da decifração constitui o objetivo da psicanálise. Claro que existem outras teorias e metodologias com tal objetivo.
Agora, cabe uma importante questão que deve ser formulada: por que nos sentimos culpados daquilo que não cometemos? E ainda mais: para esses crimes imaginários: por que a existência de tantas teorias e práticas voltadas para a decifração da nossa verdade inconsciente?
Interessante é que em nossa consciência não há traços desses desejos mencionados, mas seus efeitos perduram por toda vida. Por essa razão, o inconsciente é a nossa verdade, que funciona como indícios de algo desconhecido por nós mesmos.
No percurso de uma análise clínica não há receituário para a cura. É o próprio paciente que apresenta indicações equivocadas, daí as intervenções do analista na busca de desfazer as ambiguidades, não para eliminá-las, por ser impossível, mas no sentido de aliviar os sintomas e facilitar a continuidade do processo de cura do paciente. Interessante é que a ambiguidade está ligada à verdade do sujeito de forma necessária e não no sentido oposto. Somos nós que construímos e desatamos nós.
O caráter indicial de nossa historia oculta aponta para um passado arcaico e pelo que são em si mesmo. Essa persistência, por se manifestar mascarada pelos sintomas, não é devido a importância desses registros, mas possivelmente pela sua desimportância. Os fatos minúsculos é que são portadores dos desejos inconscientes e não os grandes acontecimentos de nossas vidas. Não devemos tentar simplificar as questões complexas e sim lidar com as complexidades de forma simples. Assim, o psicanalista opera como suspeito e não com boa fé.
Como a verdade resiste à significação, mas não cessa de insinuar sua emergência, o inconsciente teima em se ocultar e só se oferece dissimuladamente em nossos sonhos e nas lacunas do nosso discurso consciente. Um dos pontos fundamentais da verdade psicanalítica é que ela só pode ser obtida recorrentemente, a partir do lugar definido pela relação transferencial analista / analisando que a verdade do desejo pode emergir. O inconsciente não se oferece nitidamente à escuta do psicanalista, considerado um suposto saber, suspeitando que nosso relato seja um enigma a ser decifrado, mas que sabe também que na fala do paciente há uma verdade embutida com o proposito de ser dita.
A verdade do desejo inconsciente é sempre sexual, no entanto é uma cobiça interditada. São Paulo nos revela que as leis sagradas existem porque existe o pecado. A partir da Lei “não cobices” nos remete ao pecado.
Na clinica não temos de um lado o analista-investigador” decifrando a verdade paralelamente com o “paciente-culpado”oferecendo pistas falsas ao analista na tentativa de sanar os indícios do seu crime. Quem descobre o crime é o próprio paciente, desde que haja uma relação com o analista. Parece que se trata de uma condição necessária, segundo Freud. .
De nada adiantaria ao analista desvelar essa verdade já pronta, porque ela não é externa ao paciente, mas sim na relação que mantêm com o analista. Essa verdade não é algo externo com um dado que poderia ser encontrado, mas ela não cessa de se manifestar através dos sintomas e queixas do paciente. Expulsar para fora os conflitos inconscientes é uma das funções do ego.
No tratamento psicanalítico, a experiência dialógica levada até as suas ultimas consequências, nos alça de mundo subterrâneo de repetição paralisante de morte para a saída criativa da vida.
Para tanto, é importante que o paciente tenha coragem de se rever, respeitando um dos maiores preceitos da psicanalise que é: “a recusa em tamponar a brecha que existe entre o sujeito e a sua verdade”.
A verdade do desejo inconsciente só pode ser desvelada para viabilizar o desenvolvimento do sujeito humano através da linguagem. A psicanalise, como ciência do inconsciente, indica que somos seres de linguagem e é somente através dela que se viabiliza a verdade do desejo humano, dai o poder das palavras.
Texto extraído do livro A INTERPRETAÇÃO DOS SONHOS de autoria de Luiz Alfredo Garcia-Roza, Editora Jorge Zahar.
CAIXA PRETA - Roberto Lanza 
28/09/2016 

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

OS BOICOTES DO EGO

Para nós chegarmos ao ser, “eu sou”, esse sou ganha autenticidade quando ele é energizado com um constante estar. O estar é a mola mestra, é a mola essencial, central para um legítimo ser. Nós temos que ter essa ótica bem definida, com identificação plena com os objetivos bem situados e bem selecionados, sempre reciclados e observados. Todas as vezes que nós queremos transformar o estar num ser, entramos em frustração.

É necessário aprender a sair da frente do espelho e ver o outro semelhante com os olhos da alma. Quem não “sabe dizer eu”,   nunca saberá dizer “você”. Infeliz daquele que não sabe que não sabe e nem sequer quer saber. Assim, ele nunca saberá se responsabilizar pela sua vida. Ora! Não se vive da vida, vive-se a vida. 

A visão do mundo com os olhos do ego é cheia de equívocos e um depósito de mal entendidos, uma vez que o ego  é uma criação do imaginário humano e não é senhor em sua própria casa, como disse Freud. Além disso, ele é um excelente especialista em boicotar a realidade com muita habilidade. 

O estar no mundo de cada um, é apenas uma forma de perceber a realidade de acordo com  sua realidade psíquica. Quantos engodos! Quantos equívocos!

        A fantasia é que é responsável pelo enquadramento da relação do sujeito com a realidade: sua janela para o mundo. É dela que o sujeito tira, ilusoriamente, a segurança do que fazer diante das situações que a vida se lhe apresenta. O sofrimento leva o sujeito a “pro – curar”  tratamento apropriado, visando tirá-lo da sua naturalidade inconsciente e da sua  artificialidade consciente, para a assertividade existencial, o que exige um percurso longo e sinuoso.

CAIXA PRETA Roberto Lanza
01/09/2015

domingo, 17 de maio de 2015

ILUSÃO DE COMPLETUDE


Desenho de Roberto Lanza
ATÉ ONDE PODEMOS FICAR OU AVANÇAR? 





No Evangelho de Marcos 8.34-35 ele escreve o que Jesus Cristo disse: "E chamando a si a multidão, com os seus discípulos, disse-lhes: Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me" [...} Porque qualquer que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, mas, qualquer que perder a sua vida por amor de mim e do evangelho, esse a salvará.

Permanecer sobre a ponte é o lugar do "porto seguro";  das certezas, da procrastinação; da "esperança milagrosa" e do "espera - ser". Seguir para o outro lado da ponte é lançar-se para a vida, é arriscar-se nas alturas e nas incertezas: é ter coragem de se rever para defrontar com a sua própria verdade de SE  fundamentalmente desamparado. Nesse sentido, torna-se necessário lançar-se na angústia existencial.

Querer satisfação plena todo mundo quer. Mas abrir mão de si pelo outro é impossível e pouco recomendável. O justo seria tentar ser fiel ao próprio desejo, mas deixando entretanto de ter um certo cuidado com a forma de lidar com isso. Afinal orientar por uma ética mais solidária talvez seja a saída. Tentar levar as coisas de tal modo que, sendo fiéis ao próprio desejo, não esqueçamos que o outro existe e que esta alteridade deve ser considerada. Isso é difícil, mas não impossível. Afinal, que graça teria se na vida fosse tudo muito fácil?

Amarga realidade é a de quem fecha os olhos para os riscos e as possibilidades de encontrar pela vida alguém, acreditando que haverá plenitude desse encontro. Haverá sim um encontro, mas será de duas faltas. A sua e a do outro. E se não se pode ver isso, o perigo é maior porque da ilusão vem logo a desilusão, lógico. Eis aí o horizonte da incompletude. 

A vida é a arte das escolhas, dos sonhos, dos desafios e da ação. Em toda perda há um ganho. Em todo ganho há uma perda. Quem escolhe o que perder, perderá o que não escolheu. Não apague a sua estrela para ficar se exibindo para ser notado pelo brilho do olhar dos outros.

Se a pessoa se sente “escolhida” (veja COMPLACÊNCIA EXCESSIVA neste Blog) permanece insatisfeita, por não ter feito a escolha que desejaria, ficando engessada na sua capacidade de dizer “não” para aquela posição existencial.  Como a vida é uma metáfora de quem você aparenta que é, a negação da sua verdade  inconsciente se manifesta sob a forma de decepção e de insatisfação através dos sintomas. Assim, a pessoa permanece no cativeiro sequestrada por si mesma. Acontece que o sequestrador (o outro de si mesmo) cobra o resgate (na natureza ninguém fica impune por não querer ser a si mesmo) colocando a pessoa angustiada e frustrada, que vai crescendo cada vez mais como uma bola de neve, em razão do desconhecimento crônico de si mesma. .É ai que reside a alienação existencial.

Pior ainda, a pessoa fica na expectativa de uma solução mágica, gerando ansiedade e frequentemente imobilizada diante dos desafios da vida cotidiana, em razão do estado de assujeitamento a quase tudo, por ignorar a sua própria verdade e o próprio ser. Nunca fique na “esperança milagrosa” de que o mundo vai mudar para melhorar a sua vida. O outro lado da ponte é lugar onde se localiza o vazio existencial, o qual cabe a cada um preenchê-lo mediante a contabilização das suas realizações pessoais. Ninguém nasce com receituário e bula para orientar o seu destino. Conquistar o seu estar no mundo é tarefa penosa de cada um.

O que todo mundo precisa é do resgate do próprio SER mediante a libertação das amarras de sua alienação existencial na linguagem e, inconscientemente, nos fortes laços afetivos indestrutíveis e profundamente enraizados que mapearam a sua realidade psíquica..Somos "plugados" demais ao nosso romance familiar vivenciados na pequena infância.

Vejamos a seguinte poesia:

Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
E quando o navio larga do cais
E se repara de repente que se abriu um espaço
Entre o cais e o navio,
Vem-me, não sei por que, uma angústia recente.
Uma névoa de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira janela onde a madrugada bate,
E me envolve como uma recordação duma outra pessoa
Que fosse misteriosamente minha.

PESSOA, Fernando. Ode MARÍTIMA. O eu profundo e os outros eus. Rio de Janeiro; Nova Fronteira.
  
Essa pessoa misteriosamente minha é na verdade uma falta primordial, protótipo da angústia e da saudade: falta que não é do outro, mas do próprio ser, segundo o Psicanalista Lacan. Quer você entenda quer não,  o ser humano é estruturalmente um SER de falta de presença constante. Enquanto viver sempre estará faltando-lhe alguma coisa. Somos seres recorrentes à nossa originalidade. 

Como falta e desejo são coexistentes, no lugar da falta surge o desejo. Desejo que, é caracterizado por uma "presença de uma ausência”; é a “nostalgia de algo perdido”, segundo Lacan.


Aqui cabe a seguinte citação: O desejo é a própria essência do homem, ou seja, o esforço pelo qual o homem se esforça por perseverar no seu ser". (Baruch Spinoza).

“Esse algo ou objeto perdido” quer dizer, segundo Lacan: Outro (Grande outro primordial). Primeiro objeto de amor da criança, ou seja – quem exerceu a função materna (geralmente a mãe biológica). No entanto, quem tem tudo a tempo e a hora nada tem a desejar. Se esse elo não for rompido nada faltará ao sujeito e em contrapartida não haverá desejo. A falta é uma condição essencial para o surgimento do desejo. Caso contrário, seremos  um ser desprovido de motivação para viver

Eis que o desejo torna-se a grande aventura humana! Mas, para vivermos na civilização torna-se necessário suportar a sua insatisfação (sublimação), como o preço que ele próprio se impõe. É o preço que se paga por uma realização possível. Da onipotência da satisfação, o sujeito passa para a possibilidade da realização.(Ver artigo publicado neste Blog denominado “UMA QUESTÃO DE VIDA OU MORTE”).

Na busca do elo perdido, o homem se aventura a relacionar-se. Tudo que encontra, porém, é a incerteza, a falta de garantias. De nada adiante reeditar o Grande Outro, pois ele não pode oferecer o Bem Supremo. Entregar-se a esse Outro é o que ele tenta fazer, sustentando ainda a ilusão de que se tudo lhe der, correspondendo ao que imagina ser esperado dele, do Outro tudo terá. Ou seja, sendo ele tudo o que o Outro espera só para ele o Outro existirá também. Não é preciso ter horror da falta e nem da obscura autoridade do Outro, porque o Outro doa amor e não requer prova de amor do filho, Mas ele permanece na condição de que ele é que é o agente responsável para garantir tal reciprocidade, que não passa de uma fantasia. para suprir o desejo do Outro..Tal suposição torna-o o objeto que complementa o Outro. 

Pura repetição infantil, em que o sujeito ansiava pelo puro reconhecimento de seu desejo, para ser o objeto único de desejo do Outro. 

Mas quem não quer ser reconhecido? Entretanto, será apenas no suporte da insatisfação que certo reconhecimento será possível ao desejo e ao sujeito: Se antes via apenas o Outro, e, portanto a si mesmo, agora deve ver o outro, aquele que desvia os olhares do Outro e dele mesmo, fazendo-se conhecedor de uma falta que não se completa nunca. Ao abrir Mão do reconhecimento absoluto, o sujeito ingressa numa outra via: a da possibilidade de existir, pois de modo diverso, o reconhecimento de um implicaria na morte do outro.

Assim, o ser humano é um ser dividido numa busca constante da sua outra metade supostamente perdida. Pura ilusão! Não há possibilidade de sobrevivência sem o todo, sem o uno. Conviver com a dualidade é uma condição de vida ou morte.Eu sou eu mesmo e nada me falta.O que existe na realidade é a Fantasia da Separatividade

CAIXA PRETA Roberto Lanza
17/05/2015

  

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

UMA QUESTÃO DE VIDA OU MORTE

Gostaria de repassar-lhes, literalmente, um artigo de autoria da Psicóloga Deborah Maria Michielini, publicado na revista CENÁRIO - Psicanálise e Cultura, edição 05/1996, do GREP - Grupo de Estudos Psicanalíticos de Belo Horizonte. O assunto é um pouco longo, mas vale a pena ler por se tratar de uma questão fundamental para quem se interessa em conhecer-se melhor. .

        DESEJO HUMANO 

 Quando as pessoas procuram por uma psicoterapia, é comum que se descubra por trás de seu sofrimento uma dificuldade em relação, a saber, sobre o próprio desejo: até onde agem de acordo com o seu desejo, e até onde o fazem de acordo com o desejo do outro?
 A angústia por não se saber mais a distância entre o próprio desejo e o desejo do outro é um dos pivôs na análise do sujeito, que anseia por seguir um caminho no qual não se encontre tão à mercê do outro.
         Mas onde se inicia esta história do desejo? Qual o seu papel na história do sujeito? E qual é, exatamente, o fator de angústia que essa questão desencadeia?

O início

Para Freud, a porta para a emergência do desejo se abre a partir da primeira experiência de satisfação do infans: após a primeira mamada, uma imagem perceptiva do objeto provedor do alimento (no caso o seio) permanece gravada na memória do recém-nascido. Quando da segunda emergência da necessidade, ainda incapaz de realizar uma ação específica que lhe resolva a tensão interna, o bebê investirá nessa imagem mnêmica (memória), alucinando o seio e a satisfação da necessidade. No reaparecimento da percepção, estabelece-se o desejo.

O que se pode pensar a partir daí é que o desejo surge de uma falta, apoiada numa experiência de satisfação. Fosse apenas uma necessidade nesse momento, um objeto alucinado não resolveria a questão. Trata-se de desejo porque se realiza através de uma fantasia.
Vemos que o desejo não é algo natural; afasta-se da necessidade, impondo-se por uma falta numa relação com o outro. E se por um lado ele busca um objeto, o faz diferentemente da necessidade, orientando-se por sinais que constitui o fantasma (“encenação imaginária em que o indivíduo está presente e que figura, de modo mais ou menos deformado na realização de um desejo”).
Numa referência à noção de desejo na filosofia de Hegel, Garcia Rosa (1988) vai dizer que o desejo, por ser não natural, e que só outro desejo teria essa característica. O desejo, portanto, seria desejo de desejo; desejo do desejo do outro, nas palavras de Lacan, também citado por Garcia Roza.
A relação é sempre com o outro...
A cria é indigente, incapaz de se bastar. Para que sobreviva, carece de um OUTRO Materno (Grande OUTRO). É ele que atende o seu apelo urgente, preenchendo lhe a falta.

Quão onipotente não é esse Outro...
A criança chora, a mãe tem para dar.
No seu dar, a compreensão de um apelo.
Na interpretação do apelo, a introdução na linguagem.
Na introdução da linguagem, a criação da demanda.
Na criação da demanda, a viabilização do desejo.

Mas... Quando a criança chora, quem saberá exatamente do que se trata? Pois digo que é só no imaginário (Registro do engodo e da identificação) que essa relação pode-se dar. Somente no imaginário materno corresponde ao lugar onipotente de saber do desejo do outro. Ao choro do infans, a mãe responde: “É de fome? É de frio? É de dor?”, porque assim espera que seja. A sua falta torna-se, então, a fala do filho, o seu desejo, o desejo do filho.
Neste momento, mãe e filho formam uma mônada, uma célula só, na fusão, o desejo confuso do bebê é espelhado no outro e só assim pode ser reconhecido e atendido. Uma sintonia perfeita (?) mãe-bebê, num mundo onde nada mais além parece existir. Cada um ocupa o lugar daquilo que completa o outro, preenchendo o vazio deixado pela falta original.
Essa relação, apesar de imaginária, é necessária para que os desejos se inscrevam, pois não há possibilidade da existência da criança sem o olhar desejante da mãe.
É no reconhecimento da cria enquanto FILHO, o qual carece do outro enquanto MÃE, que é possível a estruturação de um sujeito humano. É o olhar estruturante, se sobrepondo ao puro instinto materno (Elizabeth Badinter, em seu livro o Mito do Amor Materno mostra como o instinto materno não é algo que parte do ser humano, mas que se constrói durante a própria história da humanidade. Trata-se de um amor conquistado e não dado pela espécie, como no caso dos outros animais). Aquele que é FILHO, ele precisa ser investido libidinalmente, ou seja, ele demanda amor. Mas, a demanda só é de amor porque a mãe assim reconhece.                                                                                                                      Na falta desse olhar apaixonado, não se estrutura um homem cria-se apenas um ser biológico. A cria carece de um envoltório libidinal. Garcia Roza (1985), citando Lacan, diz que, tal como o pinto rompe a casca do ovo e perde, não somente a mãe, mas a membrana que o protegia, a criança também, na hora do parto, não perde a mãe, mas uma parte de si mesma. E diz ainda Lacan: “Rompendo a casca, faz-se o homem, mas também a omelete”, ou seja, se este ser que nasce não for investido por um envoltório erógeno imaginário, ele será só um ovo e se esparramará, movido pelo puro instinto, sem uma forma humana.
Os limites corporais que a mãe designa à criança impedem que ela sucumba a um Real cruento o qual não pode ser simbolizado totalmente. Penso o Real como um registro da ordem do inominável, no qual o sujeito encontraria saída para a vivência do desamparo. Como bem observou R. Spitz (1988) nos casos de crianças institucionalizadas, sem essa moldura libidinal, mesmo supridas todas as necessidades, essas crianças entravam num estado de marasmo, o qual denominou Síndrome do Hospitalismo. Do que elas careciam? Do desejo do outro, do olhar, do toque sedutor que erotiza e livra o ser humano do puro estado natural, animal, biólogo.
O desejo desse primeiro momento imaginário, entretanto, não reconhece ainda como tal. Aquela citação Lacaniana, “O desejo é desejo de desejo do outro”, indica que é numa relação especular, por oposição ao outro, que o sujeito saberá do seu desejo, ou seja, a partir do desejo do outro que se lhe impõe. O outro funciona como um espelho, que lhe devolve a própria imagem. A partir dessa relação espelhada, a criança não é mais só uma massa esparramada, como diz G. Gabas (1980), explicando a fórmula do momento narcísico no qual a criança se encontra:

 DESEJO / SUPORTE

A criança toma a si mesma como suporte, mas é uma estrutura mediata: o outro modela o seu desejo. G. Gabas explica que esse duplo narcísico exige do infans ser dois para ser único. Tem que ser ele mesmo e o objeto. Neste momento, o sujeito e o desejo ainda não existem como tais. Terá de haver uma clivagem para que se possa sair dessa relação onde o sujeito se alterna no outro se perdendo de si mesmo e do seu desejo. Tem-se que sair, pois tal como no mito de narciso, que se precipitou nas águas apaixonado pela própria imagem refletida, o destino do sujeito apaixonado pelo Outro de si mesmo é a morte. E essa díade só se poderá romper com a entrada de um terceiro elemento que intervém desviando os olhares da contemplação. Sem isso não se torna possível a saída da relação imaginária e a célula narcísica se fecha, abortando um SUJEITO QUE AINDA NÃO É sendo ele ainda um esboço do EU. E é pela via do Simbólico (´”O simbólico faz do homem um animal fundamentalmente regido, subvertido pela linguagem, o que determina as formas de seu vínculo social e suas escolhas sexuadas”) que a célula há de se abrir, seguindo a trilha da linguagem.
Esse simbólico, entretanto, não é algo que só agora aparecerá. Ele já está presente desde sempre, sendo que somente por este tempo é que a criança se dá conta dele. É que na célula narcísica há um furo, localizado na mãe e no seu desejo. Na falta, o prenúncio do simbólico. (Observação minha: Segundo Lacan a palavra mata a coisa e coloca em seu lugar o símbolo, criando o fantasma da ilusão de completude na sexualidade humana).
Vejamos: No idílio da completude que a relação imaginária oferecia, a falta insistia em se inscrever. Aquele filho do desejo nasceu de um ideal dos pais. Nascido de um ideal, ele será sempre o filho da desilusão, pois nunca corresponderá à expectativa nele projetada. Exatamente por isso, o universo da mãe não será preenchido só pelo filho, havendo algo mais que ela buscará alhures. A falta se inscreve, então, também para a criança, pois nem ela tem o outro a tempo e a hora de sua necessidade, como esse outro também não a tem como objeto exclusivo de desejo; o que é uma só coisa: Só se pode atender a tempo e a hora se não se tem mais nada a desejar.
Assim, a criança só tem sua demanda atendida parcialmente: em algum momento a mãe falha na interpretação de seu choro. É como se um ruído, de repente, penetrasse na sintonia perfeita das estações “Mãe-Bebê”, uma espécie de linha cruzada, uma interferência externa que prejudica a comunicação: Mesmo que um insista em ser ouvido, ou o outro insista em atender, uma terceira voz se sobrepõe, impedindo a compreensão. Com o ruído, algo se perde.
O seio alucinado daquele primeiro momento de emergência do desejo seria o representante desse algo perdido, um elo perdido, que para a criança é como um objeto que ela na verdade nunca teve, mas pensa ter perdido. Uma falta primordial, protótipo da angústia e da saudade 
É apresentado a seguir o poema "O eu profundo e os outros eus" , de Fernando Pessoa,  Rio de Janeiro, Editora Nova Fontreira.

Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
E quando o navio larga o cais
E se repara de repente que se abriu um espaço
Entre o cais e o navio,
Vem-me, não sei por que, uma angústia recente
Uma névoa de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira  janela onde a madrugada bate,
E me envolve como uma recordação duma outra pessoa
Que fosse misteriosamente minha.
                          
Essa “Pessoa misteriosamente minha” é na verdade o que Lacan chama de objeto causa do desejo: objeto que é uma falta, falta que não é do outro, mas do próprio ser. Falta a partir da qual emergirá o desejo. Desejo que, caracterizado pela “presença de uma ausência” é a “nostalgia do objeto perdido”, nas palavras de Garcia Roza (1988).
Uma ausência e uma perda instaurada definitivamente por aquele ruído que é o simbólico, ou seja, tanto a falta da mãe, a qual a impede de “ouvir” com perfeição o apelo da criança, quanto à interferência da voz do pai, efetivada justamente pela mãe que o busca para além do filho.
O pai funcionará como aquele que é a razão da exclusão do sujeito no desejo da mãe. (Tal como a MÃE é função de maternagem, PAI também deve ser entendido como função). Esse pai causará o desequilíbrio na homeostase da díade, o qual terá de ser inscrito para a criança, simbolizado. G. Gabas (1980) nos diz que, neste momento, o pai intervém no desejo incestuoso, e a sua morte é desejada. Mas o pai desejado morto é o pai do desejo da mãe, e o pai real; entretanto, o pai independe da cria para existir ou não no desejo da mãe, e o sujeito acaba tendo que se encontrar com dois pais: o pai real do desejo materno, e o pai morto do desejo do sujeito. Será a distância entre o dois que permitirá que o sujeito se inscreva no simbólico: o desejo do pai morto terá de ser recalcado, guardado no inconsciente, para que possa se inscrever sem que o sujeito tenha que realizá-lo no ato real. Assim, o pai funciona como uma Lei. Lei que se apóia no papel do pai, mas que também difere de sua pessoa. Essa lei é chamada, então, de NOME-DO-PAI: NOME porque não é a pessoa em si; PAI, porque é autoridade, lei que rompe com o absoluto do Outro da criança. A mãe, que era para a criança outro onipotente (OUTRO – Grande Outro), deixará de sê-lo, para se apresentar para a criança como um a quem falta. Este Grande Outro, a criança ainda buscará, mas em outro lugar. Em princípio neste pai, que de início pensa SER a lei, e depois nos objetos da cultura, quando percebe que também este pai é regido por uma ordem que lhe é alheia.
A articulação dessa Lei com o desejo é feita pela linguagem. Num primeiro momento de inserção na linguagem, Freud descreve o jogo de uma criança, o qual chamou de “Fort-Da”: Ela brincava com um carretel, que fazia aparecer e desaparecer, simbolizando a falta da mãe. Ao jogar, ela nomeava a ausência (Da) e presença (Fort) da mãe, tomando no simbólico o controle da ausência e presença do outro (ver conceito de frustração), o que aliviava a angústia do abandono. G. Roza explica:

A partir do momento no qual a criança formou o seu eu segundo a imagem do outro, ela vai, pelo ingresso na ordem simbólica, produzir uma transformação no objeto através da linguagem. O Fort-Da é a descrição que Freud nos oferece desse momento. O objeto é desnaturalizado e adquire a função de signo; em seguida ela passa para o plano da linguagem e a partir de então a palavra passa a ser mais importante que o objeto.

E citando Lacan:

A palavra é essa roda de moinho por onde incessantemente o desejo humano se mediatiza, entrando no sistema de linguagem.

Mas, quando é só da falta da mãe que se trata, a linguagem é apenas uma oposição de significantes (Fort x Da). É no momento da entrada do PAI, e com o recalque do desejo de morte dele, que o sujeito ingressará na ordem simbólica definitivamente.
O gozo incestuoso (Gozo Incestuoso com o Grande Outro: é incestuoso porque é com o Grande Outro e é gozo porque é desejo de união absoluta, desejo do bem supremo, mítico e impossível de se realizar) será interdito e no lugar do desejo aparecerá o símbolo.
O que este recalque provoca é uma clivagem do sujeito. A partir daí ele será dois: um consciente, o EU e um Inconsciente, o SUJEITO. O desejo pertencerá a essa ordem inconsciente, pois sendo absoluto e incestuoso, é proibido ao sujeito consciente. A esse inconsciente o sujeito é submisso, sendo regido pelo seu desejo sem que o saiba. Garcia Rosa fala disso muito bem, contando a história do escravo que levava gravado no seu couro cabeludo uma mensagem, a qual desconhecia e que anunciava a própria morte. Tal como o escravo, o EU desconhece os desejos do sujeito, os quais determinam o seu destino.
Com a clivagem da subjetividade, o desejo inconsciente falará na voz do Outro, alheio àquele EU consciente. O Outro será o lugar do código, por cuja voz o desejo proibido poderá ser veiculado. Porém, fará isso atropelando a voz cotidiana do EU (Freud mostra como os atos falhos, os sintomas e os sonhos são as verdadeiras manifestações do desejo inconsciente, os quais, ao serem expressos na forma da linguagem, encontram sua realização). De modo que, a palavra diária, que serve para tamponar a falta e ocultar o desejo proibido, servirá ao mesmo tempo para fazê-lo aparecer.
Por não ser TODA, a palavra falha no seu intento tamponador. E quando falha, o SUJEITO fala, o DESEJO fala. Mas ao falar, fica para sempre insatisfeito. Por quê? Porque é linguagem, e se a palavra fala o desejo, ele fala também a falta. J. D. Nasio explica bem isso:

O desejo nunca será satisfeito, pela simples razão de que falamos. E, enquanto falamos, enquanto estivermos imersos no mundo simbólico, enquanto pertencermos a esse universo em que tudo assume mil e um sentidos, jamais chegaremos à plena satisfação do desejo, porque, daqui até a satisfação plena, estende-se um campo infinito, constituído de mil e um labirintos. Já que falo, basta que, no caminho de meu desejo, eu enuncie uma palavra ou execute um ato, inclusive o mais autêntico, para esbarrar imediatamente numa multidão de equívocos, na origem de todos os males entendidos possíveis. Uma vez dita a palavra, ou executado o ato, o caminho para a satisfação torna a se abrir. Aproximamo-nos do objetivo, praticamos um ato na vida, e um outro caminho volta a se abrir.

Mas, Nasio também diz:

          Onde o desejo não alcança seu objetivo, isto é, onde o desejo fracassa, surge uma criação positiva, coloca-se um ato criador. Eis que o desejo torna-se a grande aventura humana! Suportar a sua insatisfação é o preço que ele próprio se impõe. Suportar a sua insatisfação é o preço que se paga por uma realização possível.
Da onipotência da satisfação, o sujeito passa para a possibilidade da realização.
Na busca do elo perdido, o homem se aventura a relacionar-se. Tudo que encontra, porém, é a incerteza, a falta de garantias. De nada adiante reeditar o Grande Outro, pois ele não pode oferecer o Bem Supremo. Entregar-se a esse Outro é o que ele tenta fazer, sustentando ainda a ilusão de que se tudo lhe der, correspondendo ao que imagina ser esperado dele, do Outro tudo terá. Ou seja, sendo ele tudo o que o Outro espera, só para ele o Outro existirá também.
Pura repetição infantil, em que o sujeito ansiava pelo puro reconhecimento de seu desejo.
Mas quem não quer ser reconhecido? Entretanto, será apenas no suporte da insatisfação que certo reconhecimento será possível ao desejo e ao sujeito: se antes via apenas o Outro, e, portanto a si mesmo, agora deve ver o outro, aquele que desvia os olhares do Outro e dele mesmo, fazendo-se conhecedor de uma falta que não se completa nunca. Ao abrir Mão do reconhecimento absoluto, o sujeito ingressa numa outra via: a da possibilidade de existir, pois de modo diverso, o reconhecimento de um implicaria a morte do outro. Agora não. Desfaz-se a equação:

ONIPOTÊNCIA (OUTRO) / IMPOTÊNCIA (EU)

E constrói-se a fórmula:

IMPOSSIBILIDADE / POSSIBILIDADE

           De ambas as partes serem reconhecidas. É a viabilização de certa realização, de certo reconhecimento, não exclusivo, não todo, não sempre, mas nem por isso fadado ao nunca.
Essa aventura: no encontro com o outro (semelhante) o encontro dos olhares. Olhares que ora se apaixonam, ora se desiludem. Olhares de desejo, mas olhares de falta.
E é assim que, aventurando-se na falta, o sujeito parte em busca de algo além. E para além, é o mundo que se descortina, são os horizontes que se ampliam, é a vida que se abre para a criação.

CAIXA PRETA Roberto Lanza
17/02/2015

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

HORIZONTE DA INCOMPLETUDE

Pintura de ROBERTO LANZA 

Será que há alguém que se julga um ser completo, acabado e pleno?  Então ele já pode morrer em paz! Seu lugar está no final da ponte acima na expectativa de uma "esperança milagrosa".. Todos querem o céu, mas ninguém quer morrer e nem sequer plantar o jardim para colher flores. 

Pelo senso comum:
“Beco sem saída só existe para quem não aprendeu a olhar para dentro de si mesmo”.
“De nada adianta quebrar a parede com a cabeça e sair na cela do vizinho. A saída será sempre pelo teto”.

A ilusão de completude é fator determinante para sermos um peregrino em busca do nosso complemento, uma vez que somos seres de falta. Segundo a Psicanálise, a falta é estrutural e constante em nossa vida psíquica. Isto significa que portamos certa medida de ausência de algo que atesta a nossa condição de imensa procura por algo não encontrável. Todos buscam incessantemente na vida uma realidade que os possa completar.

Acontece que o que o homem busca não é encontrável, porque não existe no mundo real, pois se trata de uma falta do próprio ser. O agravamento está exatamente no fato de se buscar a completude em fontes erradas no mundo exterior, num contingente abundante de prazeres, posses, dinheiro, amores, etc. Tudo isso tornará a nossa incompletude cada vez maior, dentro de um ciclo vicioso, cada vez mais frustrante.

As ilusões sequestram a nossa realidade e a coloca fora de nós mesmos. Segundo a Filosofa Marilene Chauí: “vivemos a esperança milagrosa de felicidade. Da felicidade que existe, sim, mas que não alcançamos porque nunca a pomos onde nós estamos, embora esteja sempre apenas onde a pomos”.
CAIXA PRETA
29/01/2015



quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

O PODER DA PALAVRA

A linguagem, na época em que vivemos, era da tecnologia de ponta, está a serviço da  imagem e é por ela sustentada. O predomínio da imagem sobre a palavra não poderia ocorrer sem a explosão da técnica que passou a ocupar todos os recantos da vida cotidiana. O seu símbolo é o “outdoor”, máximo de exposição no mínimo de espessura. A era da técnica sustenta-se no seu descomunal sucesso.            
A tecnologia é vista como o bem mais precioso. Sem o qual a vida de uma nação pode perigar. A devoção ao culto do imaginário, diante da televisão ou computador, torna o homem exilado da palavra, portanto da impossibilidade da simbolização que viabiliza o verdadeiro sentido de vida.
Por outro lado, em sociedade de consumo, vivemos hoje em uma espécie de evidência do consumo e da abundância, criada pela multiplicação de objetos, na qual os homens da opulência não se cercam mais de outros homens e sim de objetos (Tv´s, carros, computadores, telefones...). Suas relações sociais não estão centradas com outros homens, mas na recepção e manipulação de bens e mensagens. Essa deterioração dos laços sociais e o empuxo ao prazer solitário só estimulam a ilusão da completude não mais com um par, mas com parceiro conectável ao alcance da mão. O resultado não pode ser outro senão a decepção e a tristeza, o tédio e a nostalgia do Um em vão prometido.
A imagem é completa, indicadora imediata de ações cuja função é o domínio da realidade. Mas ao mesmo tempo esvazia a palavra de seu poder nomeador e assim esvazia o homem do seu poder de inter-relacionamento. A evasão do real de uma região obscura para o despertar da realidade da vida, somente pode ser viabilizado pela palavra, através do caminho da simbolização, mas pelo discurso pleno, em contraposição à tagarelice, o discurso vazio.
O homem desprovido de sou poder de ser, isto é, de se expandir a partir do que é, infla-se na acumulação do que não é, no inessencial. Dessa forma, ele instalou-se no falatório no qual tenta, em vão, preencher o vazio sem fundo, ao mesmo tempo em que seu ego infla-se.
A palavra que nada diz, depaupera a própria palavra. O homem sem a palavra é, na verdade um ruído. Fica irremediavelmente aprisionado em sua subjetividade, como acontece com os pichadores das paredes das escolas, quanto mais se exprimem, menos há a dizer.
Isso é precisamente o narcisismo, a expressão a todo custo, o primado do ato de comunicação sobre a natureza do que é comunicado, a indiferença dos conteúdos, comunicação sem finalidade nem público, o destinador tornado o seu principal destinatário.
Domado pela palavra etiqueta, o novo objeto de passageira curiosidade e, rapidamente, é lançado no esquecimento. A transparência total é a linguagem do pragmatismo virulento, linguagem única, exclusiva da era técnica, onde imagem é critério de verdade. Ela eliminou a possibilidade de existência do invisível. As palavras já não trazem mais a “carga e o poder de evocar”, novas possibilidades.
Escutar exige esforço maior do que ver. Escuta-se por partes, que devem ser interpretadas à medida que são recebidas. A imagem aparece à vista como algo completo, que pouco exige do expectador. O que ocorre hoje, é que vivemos na era da exclusividade da imagem. A primeira consequência desse fato é o desaparecimento da linguagem como lugar da verdade.
Na palavra diz-se possibilidade, o que ainda não é pode vir a ser. Ser da possibilidade, no encontro consigo mesmo. Sem as palavras os conflitos permanecem ocultos.
CAIXA PRETA Roberto Lanza
08/01/2015


Nota: Texto compilado do original do Dr. Djalma Teixeira de Oliveira, publicação nº 3, MAIO/1999/2000,  revista VORSTELLUNG do GREP (Grupo de Estudos Psicanalíticos de Belo Horizonte).

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

O PARAÍSO PERDIDO

De início podemos citar o texto do famoso Psicanalista Erich Fromm (Bouddbisme Zen et  Psychanalyse, Paris, PUF, 1971, p.97): 
                          “O próprio fato de nascer cria um problema.. No momento do nascimento, a vida coloca uma questão ao homem. Esta questão deve ser respondida. Ele deve respondê-la a cada instante de sua vida. Não é seu espírito, nem seu corpo, que devem respondê-la. È ele, o individuo que pensa e sonha, que come e bebe, chora e ri – o homem em sua totalidade – que deve responder. E a questão é a seguinte: Como superar aquilo que cria experiência de separação, aprisionamento, sofrimento, vergonha?”.  
Nossa verdadeira natureza é a paz; a verdade; o amor; a felicidade. São as crenças cegas que fazem nossa vida infeliz.
            As crenças são ilusões que sequestram a nossa identidade e a coloca fora de nós mesmos. Segundo a Filosofia, vivemos a “esperança milagrosa” de felicidade, da felicidade que existe, sim”, mas que não a alcançamos porque “nunca a pomos onde nós estamos”, embora “esteja sempre e apenas onde a pomos” (convite à filosofia – Marilene Chaui).
            Freud, considerado como um dos maiores gênios do século XX, criou a Psicanálise, denominada Ciência do Inconsciente, revolucionando as Ciências Médicas com seu surpreendente moto: “o Eu (Ego) não é senhor em sua própria casa” e, ainda, Eu sei que Eu sou Eu, mas Eu não sei que Eu  sou Sujeito do desejo inconsciente”.            
     No entanto, nada é tão antigo e atual do que tentar entender a existência humana. Assim, o que se pretende abordar neste texto, são algumas reflexões sobre questões que se manifestam na nossa vida cotidiana, relacionadas com a própria existência de cada um, bem como o fato de sermos forçados a tomar consciência de nós mesmos. 
O ser humano, na sua angústia vital, necessita de um modelo exemplar para sair do vazio que sente em seu coração e na sua mente. Apesar de ter abundantes meios de vida, faltam-lhes os motivos para existir, bem como um sentido para a vida, dolorosamente vazia, submersa na angustia e na depressão. Um ser despatriados encontra-se perdido dentro de sim mesmo, desde que que não tenha um representante inconsciente que o represente, como exemplo o Hino ou a Bandeira Nacional.  
Para melhor reflexão de cada leitor que se interessar, repasso literalmente e na íntegra o capítulo Introdução do Livro "A NEUROSE DO PARAÍSO PERDIDO" de autoria do Famoso Psicanalista Pierre Weill. Editora CEPA, edição de 1987:

"O homem se caracteriza, em seu comportamento cotidiano, por uma busca constante de felicidade, de alegria de viver, de paz interior; ele procura o prazer e foge da dor.

Isto mostra que existe profundamente enraizada no âmago de seu ser, a memória de um estado de plenitude sem obstáculos e de êxtase permanente.

Esta memória enterrada no âmago de sua existência constitui a motivação fundamental de todas as suas ações, quer sejam elas, julgadas como positivas ou como negativas.

A busca da felicidade permanente leva-o, no plano físico, a procurar sensações agradáveis de toda a espécie: ver e contemplar formas humanas ou cênicas agradáveis, saborear iguarias deliciosas, trocar carícias sensuais que conduzam ou não ao orgasmo, cantar ou ouvir a música da natureza ou a sinfonia de uma orquestra, sentir o perfume de uma rosa. No plano afetivo, sua busca de amor e de troca de ternura e de alegria não tem fim. No plano cognitivo, uma curiosidade, muito freqüente insaciável, fá-lo apreciar as alegrias da descoberta, assim como a euforia da criatividade literária e artística.

Existe, pois, uma espécie de lei inscrita em cada ser: é feito para a alegria e não para o sofrimento.
Entretanto, parece que um obstáculo fundamental impede a maioria dos seres de viver plenamente esta felicidade para a qual parece existir, ela lhes escapa, sem que tenham consciência da causa deste fracasso constante.

Nenhum destes prazeres ou alegrias que acabamos de descrever dura. E lá onde havia felicidade sobrevém a frustração de seu desaparecimento. O homem busca um estado permanente, alguma coisa nele lhe dá a certeza da existência de tal estado; no entanto, encontra apenas a impermanência.

Feito para a felicidade, sua existência toma a cor da insatisfação.

Existe dentro de cada um de nós um sentimento muito profundo de insatisfação; este, muito freqüentemente, está oculto, sobretudo entre as pessoas que se acham felizes,  por estados provisórios de descarga de tensões, devido à satisfação de certas necessidades; mas esta satisfação é transitória e é justamente o caráter impermanente do prazer a ela ligado, que provoca um apego à memória do prazer cujo caráter fantasmático abastece a natureza do desejo.

E, damo-nos conta, cedo ou tarde, conforme o caso, que a satisfação completa não existe, pois apenas passamos alternativamente da tensão à descarga, e da satisfação à tensão; constatamos, por vezes amargamente, que passamos nosso tempo em busca de uma felicidade permanente que não se encontra nem na abundância de alimento, nem no conforto, nem na segurança relativa de nossas casas, nem em nosso conhecimento das posições eróticas daquilo que pensamos ser o amor, nem na embriagues que nos proporcionam os poderes de qualquer tipo. Nosso sistema socioeconômico de consumo exagerado de segurança, de sensações e de poder, embora tenha diminuído em grande parte a miséria da insuficiência de satisfação de necessidades vitais, não forneceu a felicidade que os regimes políticos nos prometem, sobretudo no caso daqueles que já atingiram o nível de conforto de um rei ou de um imperador, como existiram antigamente, e em nome do qual foram feitas e continuam a serem feitas revoluções sangrentas. E, não é a revolução da informática que vai resolver este problema, especialmente quando entrevemos o que se está fazendo com ela.

E quanto mais temos mais queremos, basta comparar as reivindicações populares nos países economicamente desenvolvidos e no terceiro mundo... Tem se confundido a felicidade com o bem-estar do conforto e da abundância.

Sem dúvida alguma, torna-se indispensável que se terminassem com a miséria e que se escolhessem os sistemas socioeconômicos mais eficientes para isso. Mas convém também, e paralelamente, ou melhor, ainda mostrar a todos de uma maneira integrada, através de uma nova abordagem da existência, como sair do círculo vicioso da insatisfação e reencontrar este paraíso perdido, o qual certamente não se situa lá onde a propaganda dos meios de comunicação o coloca.

O conforto e a abundância são importantes, mas não dão automaticamente a paz de espírito e a alegria no coração.

Ainda é necessário aprender como se relacionar com todos estes “benefícios” de nossa civilização tecnológica.

Basta observar o que acontece com aqueles que atingiram, enfim, este nível socioeconômico e este conforto tão ambicionado. No plano físico, as doenças de carência desapareceram, felizmente. Mas são substituídas por novos males: a coluna vertebral se deforma e tensões musculares se desenvolvem sob o efeito de poltronas e camas macias, terminam por sentar-se no chão e dormir sobre colchões pomposamente chamados “ortopédicos”. Em suma, dormem sobre o duro, como o índio e o pobre.

Comem demais, empanturram-se de doces e confeitos, e para evitar o “diabetes” e as doenças do fígado, submetem-se àquilo também pomposamente chamado de orientação "dietética”. E acabam por comer a mesma coisa ou até menos que o índio e o pobre, a menos que se internem em uma clínica de jejum... Paga-se caro, muito caro, para aprender a não comer! E à custa de refinar nossa alimentação, recaímos em novas doenças de carência, sem contar as intoxicações químicas de todos os tipos; então, oferecem-nos um novo tipo de alimento o qual chamamos pomposamente de biológico, orgânico e integral; em suma, fazem-nos ingerir o pão preto do pobre e o arroz integral do índio.

No plano emocional, o progresso que nos é oferecido resulta de uma interpretação simplista da obra de Freud, de uma extrapolação apressada da psicanálise, a qual, originalmente, é uma pesquisa sobre a natureza da neurose, extrapolação acerca do homem sadio, de uma compreensão errônea de conclusões tiradas da patologia; ela leva a um reducionismo grosseiro cujas consequências desastrosas começam a se fazer sentir em todos os domínios, mais especialmente na educação onde a confusão e a desorientação atingiram um grau máximo. Pais e educadores não sabem mais o que fazer. O raciocínio oferecido ao público é muito simples: uma vez que a neurose resulta de uma repressão dos instintos, de um recalque, para evitar a doença psicossomática, libe remos os instintos, satisfaçamos todas as necessidades; e, sobretudo, permitamos às crianças toda a liberdade; para evitar os complexos, façamos aquilo que elas queiram! Os resultados saltam aos olhos: a dissolução do superego no adulto e sua má estruturação na criança provocaram uma liberação dos aspectos egóticos do id: agressão e violência em todas as formas, possessividade, competição sem limites, indiferença à miséria física e moral. E, como veremos adiante, aparece uma nova repressão, a repressão dos valores relacionados à beleza, à verdade, ao amor universal, à criatividade, valores que, quando recalcados, provocam também doenças de carência, a começar pelo mal estar e o sentimento difuso de insatisfação próprio daqueles que têm tudo para estarem satisfeitos e que se encontram, no âmago de si mesmos, profundamente infelizes.

Terminamos, então, por buscar estes valores que existem ainda, principalmente nas pessoas de vida simples, nos pobres e, como mostram as pesquisas não sociocêntricas, nos índios, naqueles que chamamos de “selvagens” e que se tornaram hostis em relação ao branco dito civilizado, porque este invadiu seu habitat, violou suas mulheres, impôs sua maneira egocêntrica e selvagem de viver e fomentou lutas fraticidas entre as tribos para poder aniquilá-los e apoderar-se de suas terras.

No plano mental instala-se a instabilidade: passamos de um assunto a outro sem mais nenhuma direção definida, reina uma incoerência completa entre opiniões, atitudes e comportamentos; a pessoa é democrata, anti-racista e socialista, desde que não se aumentem os seus impostos para se fazerem empréstimos ao terceiro-mundo; e principalmente que a filha não se case com um negro ou um judeu...

Somos dominados pelo pensamento, cuja natureza é contraditória; como não temos, atualmente, tempo de pensar, somos arrebatados pelo devaneio que nos deixa em uma atitude de estupor mental, diante desta dialética sem saída. Alguns, causados pelos conflitos permanentes refugiam-se no álcool e na droga; a perda do sentido da vida aumenta a porcentagem de suicídios, como ocorre nos países economicamente muito desenvolvidos; o cinema, a televisão, o jogo, não são mais suficientes para atordoar-nos; no plano sexual, estamos entediados, impotentes ou frígidos.

A preguiça se instala: para que se esforçar? Temos botões para tudo e máquinas para calcular, pensar, traduzir, raciocinar, organizar e logo, talvez, criar, como já querem alguns.

É verdade que alguns reagem contra este estado de coisas: “retornam à terra”, praticam alpinismo, caçam na África, arriscam a vida, um pouco como o pobre e o índio...

De fato, o ser humano procura a fonte da felicidade fora de si mesmo, não mais percebe que é vítima de uma ilusão de ótica, de uma fantasia fundamental; esta fantasia constitui a fonte desta busca compulsiva e repetitiva deste paraíso que no fundo jamais perdeu, mas que apenas está velado. Este véu é a fantasia da separatividade"
.


CAIXA PRETA Roberto Lanza
* Grifos meus.