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sexta-feira, 21 de agosto de 2015

APARELHO PSIQUICO


Freud durante suas pesquisas sobre a formação do aparelho psíquico, ele concluiu que o aparelho psíquico não é psíquico, ele é um aparelho de linguagem. Ele  não concebe um aparelho de linguagem como constituído na relação com o mundo, mas como construído na relação com outro aparelho de linguagem.

O aparelho de linguagem forma-se aos poucos, elemento por elemento, na relação com o outro aparelho de linguagem
, e é apenas por referência a esse outro que ele funciona. É importante que se entenda esse “outro” como sendo outro aparelho de linguagem e não como sendo o mundo. O mundo, por si só, não é capaz de produzir um aparelho de linguagem e é, apenas, no seio de uma pluralidade de aparelhos de linguagem que um novo aparelho de linguagem poderá surgir.

É, portanto na relação com outro semelhante, enquanto falante, que o aparelho de linguagem se forma, e não na relação enquanto objeto do mundo. Mesmo o outro, enquanto objeto do mundo, só se constitui como objeto a partir da linguagem, a qual cria o denominado "campo da realidade". Todos
nós nascemos totalmente analfabetos. 

Na realidade o mundo não tem cor, não tem cheiro, não tem sons e nem sequer sabores. São os nossos cinco sentidos que transformam as combinações químicas em sabores e cheiros, as vibrações sonoras em sons e ruídos e os espectros da luz o cenário físico do mundo exterior.


Portanto, não é a coisa que fornece a significação do objeto. Por exemplo: esse vinho é muito saboroso..Não se trata, pois, de uma auto-enunciação pela coisa. O que a coisa fornece são elementos sensíveis, impressões, que somente adquirirão unidade de objeto a partir da linguagem, mais especificamente da relação que esses elementos mantêm com a representação-palavra. Sem essa articulação representação-coisa e representação palavra não haverá apenas aparelho de linguagem, como também não haverá aparelho psíquico. O animais se comunicam mediante uma linguagem apropriada fornecida plea natureza.

A representação-objeto não é, uma representação icônica da coisa, não é semelhante à coisa, mas apenas
índice da coisa. Seu significado é dado pela representação-palavra e não pela coisa. Isto quer dizer que as representações, sejam elas representação-palavra ou representação-objeto, remetem-se umas às outras de tal maneira que formam entre si uma trama ou uma rede de articulações, de signos / signos que na função significante remetem a signos e não a coisas.

É impossível, portanto, imaginarmos o aparelho psíquico como algo que se esgota em si mesmo. Não se trata de um aparelho já pronto que, em seguida, entra em relação com o outro e com o mundo. O aparelho psíquico não é em-si, é para-si, e é nessa relação ao outro que se constitui consciência de si.

A verdade porém é que sua concepção do aparato psíquico encaixa-se perfeitamente com a tese fundamental de Hegel de que o desejo do homem é o desejo do outro, ou, se preferirmos, que o desejo humano é desejo de desejo. Essa dependência fundamental do aparato psíquico para com a linguagem coloca uma questão: a do próprio estatuto do aparelho psíquico. Assim o aparelho psíquico é um aparelho simbólico e não um aparelho psicológico.

Por outro lado, não há aparelho psíquico sem memória, não sendo entendida como uma faculdade ou uma propriedade deste aparato, não é algo que surge depois do aparato já constituído, mas algo que é formador do próprio aparato. Não é o aparelho psíquico que é pré-condição para que se forme o aparato psíquico e sim a linguagem Sem a linguagem a pessoa desaparece e o mundo também.

As opiniões e desejos de outras pessoas fluem para dentro de nós através do discurso. Nesse sentido, podemos interpretar o enunciado de Lacan de que o inconsciente é o 
discurso do OUTRO (Grande outro - pais, família, parentes, instituições, Deus, religião, etc...) ou melhor dizendo: inconsciente está repleto da fala de outras pessoas, das conversas de outras pessoas, e dos objetos, aspirações e fantasias de outras pessoas (na medida em que estes são expressos em palavras). Assim, vivemos num mundo bastante enigmático

CAIXA PRETA Roberto Lanza
21/08/2015

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

O LUGAR DO SER


Desenho de Roberto Lanza

Existem pessoas que percorrem o mundo Inteiro  na procura de si mesmo (André Luiz). 

O homem é um animal, consciente de si mesmo, que transcende toda outra forma de vida, mesmo estando na natureza, sendo obrigado a aceitar seus mandamentos e contingências. Ele transcende a natureza porque lhe falta a inconsciência que torna o animal uma parte uno com a natureza,  residência de o próprio SER.
Como na natureza tudo se repete sem qualquer deliberação, o homem se rebela e se defronta com o assustador conflito de ser prisioneiro da natureza e, no entanto, ser livre em seus pensamentos e, ao mesmo tempo, ser uma “curiosidade” da natureza, não estando cá e nem lá. A consciência de si mesmo tornou-o um estranho no mundo em que vive. Sendo um ser apartado da natureza, ele busca fora de si mesmo o resgate da sua própria essência. .   .
Dentro do enfoque antropológico, ao fazer uma ponderação  sobre constatações e sentimentos de uma grande massa delirante da população humana terrena, podemos extratar um profundo sentimento de incompletude. Desta forma, o ser humano é profundamente afetado pela sensação de incompletude. 
O desejo de livrar-se do desconforto provocado por tal extrato, sempre direcionado para o atraente campo da plenitude, pode tornar-se um estado mórbido, diante de uma tentativa de querer evadir-se da incompletude. 
Tal tentativa induz o indivíduo a buscar fora de si mesmo uma nova roupagem para sua alienação existencial, de forma egoística, na busca da almejada plenitude. Estamos constantemente em busca de uma nova versão de nós mesmos. Afinal, como podemos ter uma vida plena, criativa e dinâmica que desejamos?
Eu, pessoalmente, já fui acometido, inúmeras vezes, por uma sensação de existirem duas pessoas habitando dentro de mim, uma parte em oposição à outra. Pior ainda, mesmo em oposição,, uma parte permanecia procurando outra parte perdida para reconciliação. Mas, tal procura era sempre em vão.  Por essa razão, sempre procurei encontrar, dentro de mim mesmo, algo faltante. Nunca havia pensado que dentro de mim existiria outro de mim mesmo, ao qual eu era mais apegado sem o saber. 
Esse algo me parecia uma espécie de vazio que precisava ser preenchido pela pluralidade de bens e valores agregados no mundo exterior. Existia em mim um pressentimento de que era muito temerário pesquisar o desconhecido e, ao mesmo tempo, colocar em duvida o já sabido e ainda não conhecido.  
Enquanto mais procurava explicação para tal estranheza, mais ampliava a dimensão  do desconhecido. No entanto, sempre manifestava-se dentro de mim algo que eu buscava incessantemente, mas não encontrável. Algo que parecia não ter princípio e nem fim, semelhante ao "trem da esperança" que anda viajando sem estação de chegada. Permanecer na ignorância sempre era a solução. mais cômoda.   
A Filósofa Marilena Chauí, em Convite à Filosofia, revela-nos que: 
  • "Ignorar é não saber alguma coisa. A ignorância pode ser tão profunda que sequer a percebemos ou a sentimos, isto é, não sabemos que não sabemos, não sabemos que ignoramos. Em geral, o estado de ignorância se mantém em nós enquanto as crenças e opiniões que possuímos para viver e agir no mundo se conservam como eficazes e úteis, de modo que não temos nenhum motivo para duvidar delas, nenhum motivo para desconfiar delas e, consequentemente, achamos que sabemos tudo o que há para saber [...]. A incerteza é diferente da ignorância porque, na incerteza, descobrimos que somos ignorantes, que nossas crenças e opiniões parecem não dar conta da realidade, que há falhas naquilo em que acreditamos e que, durante muito tempo, nos serviu como referência para pensar e agir. Na incerteza não sabemos o que pensar, o que dizer ou o que fazer em certas situações ou diante de certas coisas, pessoas, fatos, etc. Temos dúvidas, ficamos cheios de perplexidade e somos tomados pela insegurança"..
Por outro lado, eu era dominado por um chamamento compulsivo para o escapismo ou quietismo para permanecer na zona de conforto sem nada querer arriscar na direção do desconhecido. Para tanto, era necessário negar a realidade, evitando o confronto com a minha própria verdade inconsciente que ,  por estrutura, sempre resistia à significação.
  • "Quando digo o que eu sou, de alguma forma, eu o faço para também dizer o que não sou. O não ser está no avesso do ser, assim como o tecido só é tecido porque há um avesso que o nega, não sendo outro, mas complementando-o. O que não sou também é uma forma de ser. Eu sou eu e meus avessos [..]. Eu procuro por mim tal qual o artesão procura sua arte escondida nos excessos da matéria bruta de seu mármore. [...].Que mundo é este que facilita os encontros e nos torna estranhos a nós mesmos”. (Padre Fábio de Melo) 
Realmente, eu nem sequer imaginava que existia dentro de mim uma instância inconsciente que sequestrava o meu SER e me colocava numa masmorra psicológica, cobrando-me um doloroso resgate. Como prisioneiro, eu era subordinado aos caprichos do sequestrador que comandava os meus sentimentos, as  minhas condutas, e o meu  modo autônomo de viver. Jamais poderia imaginar a supremacia dessa obscura autoridade, com tamanho poder de ingerência e de intrusão na minha condição existencial.Tudo me conduzia para uma intrigante estranheza. 
De acordo com Lacan, os seres  humanos não passam de meros epifenômenos nas sociedades em que pertencem, em razão de ser determinado por um processador  cerebral de informações recebidas dos órgãos sensoriais. de forma aleatória e autônoma..
Em contrapartida, as emoções tais como: angústia, ansiedade, nostalgia de escolhas perdidas, sentimentos de culpa, medos, frustrações, privações. etc. Enfim, perturbações e conflitos intrapsíquicos de toda ordem, que se manifestavam sob a forma de sintomas psicossomáticos, com intensidades e frequências variáveis,situacionais no tempo. 
No entanto, eram os sintomas que bancavam a minha aparente segurança existencial num contexto de normalidade, comum aos  meus relacionamentos familiares, profissionais e sociais. 
Tais sintomas, de acordo com a minha estruturação psíquica seguia-se pela via simbólica ou anatômica para alívio dessas tensões emocionais, pois, como disse Freud, “o aparelho psíquico não tolera o desprazer; tem de desviá-lo a todo o custo, e se a percepção da realidade acarreta desprazer, essa percepção – isto é, a verdade – deve ser sacrificada”. 
No entanto, para que se possa entender esse processo, a forma como as questões conflitivas de desprazer são processadas, faz-se necessário a busca do autoconhecimento, incluindo-se ajuda de profissionais da área da saúde mental. 
Quando, pela primeira vez há 20 anos, procurei um Psicólogo para tratamento psicanalítico, inicialmente, numa lógica matemática eu levava para cada sessão uma série de textos, argumentos escritos, desenhos mirabolantes, esquemas mágicos, explicações em cima e de outras explicações, aporias de definições, etc. O analista sempre me dizia: nada disso me interessa. Eu quero que você  traga-me, apenas, o seu inconsciente. Na verdade, eu já tinha noção  da existência do inconsciente,  como conteúdo mental e  anatômico, mas desconhecia que ele era a minha verdade.
A causa primeira de qualquer pessoa é a sua condição de filho, fruto do desejo de seus pais. Isso ele irá carregar para o resto de sua vida. De início, o filho é objeto de desejo dos pais. O desejo é necessariamente carência. A relação com o mundo é de escolhas e perdas de objetos, ou seja, relação objetal, o que significa que para se constituir como “eu”, a consciência precisa da alteridade com o que está fora e do exterior que está introjetado dentro de si, pela linguagem.  
De acordo com Lacan, o corpo é sobrescrito//superado pela linguagem. O corpo é subjugado; “a letra mata” o corpo. O vivente – nossa natureza animal – morre e a linguagem surge em seu lugar, revivendo-nos. As diferentes partes do corpo tomam sentidos determinados pela sociedade e pelas figuras paternas. A coisa real precisa  desaparecer para poder ser representada. Dai o escritura mental passa a representar o corpo e o mundo para cada indivíduo. O homem desprovido da linguagem desaparece e o mundo exterior também;
Segundo Freud, de início o homem só tem de homem o status de animal vivo. Como tal não passa de um ser de necessidades. Para conquistar a sua identidade, será preciso que se torne ser de desejo, isto é consciência desejante ou consciência de si.
Essa relação, apesar de imaginária, é necessária para que os desejos se inscrevam, melhor dizendo: o desejo dos pais e o próprio desejo do filho, pois não há possibilidade da existência da criança sem o olhar desejante da mãe. Mas a criança pode ver os olhos dela e, no entanto não consegue entender o seu olhar e nem sequer qual o seu desejo, o que se torna enigmático, uma vez que se trata de consciência de objeto, mas não é consciência de si mesma. Absorvida na contemplação do objeto, ela nele se perde e nele se aliena. Ela é, literalmente, uma consciência sem eu.
Como o desejo humano é não natural, ele só pode desejar outro desejo que também é não natural. O desejo humano é, pois desejo de outro desejo.
É o desejo que vai operar a oposição entre consciência-de-outra-coisa e consciência-de-si, entre o não eu e o eu. Só há eu no e pelo desejo. O desejo se revela sempre como meu desejo, enquanto o conhecimento revela o objeto, o desejo revela o eu.
Por isso mesmo o ser humano é indubitavelmente um ser de desejo que deseja o desejo do outro, mas sem ter o controle do outro desejo. Tudo isso torna o desejo do sujeito enigmático e sem controle. Querer satisfação plena todo mundo quer. Mas abrir mão de si pelo outro é impossível e pouco recomendável. O justo seria tentar ser fiel ao próprio desejo, mas tomando um certo cuidado com a forma de lidar com isso. Afinal orientar por uma ética mais solidária talvez seja a saída. Tentar levar as coisas de tal modo que, sendo fiéis ao próprio desejo, não esqueçamos de  que o outro existe e que esta alteridade deve ser considerada e respeitada. Isso é difícil, mas não impossível. Afinal, que graça teria se na vida fosse tudo muito fácil?
Finalizando, o que o sujeito do desejo inconsciente é levado a descobrir? Inicialmente, como diz Lacan, que “não existe outro bem a não ser o que pode servir para pagar o preço pelo acesso ao desejo”. (Dicionário Psicanalítico Larousse – Artes Médicas).

CAIXA PRETA Roberto Lanza
13/08/2015




domingo, 17 de maio de 2015

ILUSÃO DE COMPLETUDE


Desenho de Roberto Lanza
ATÉ ONDE PODEMOS FICAR OU AVANÇAR? 





No Evangelho de Marcos 8.34-35 ele escreve o que Jesus Cristo disse: "E chamando a si a multidão, com os seus discípulos, disse-lhes: Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me" [...} Porque qualquer que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, mas, qualquer que perder a sua vida por amor de mim e do evangelho, esse a salvará.

Permanecer sobre a ponte é o lugar do "porto seguro";  das certezas, da procrastinação; da "esperança milagrosa" e do "espera - ser". Seguir para o outro lado da ponte é lançar-se para a vida, é arriscar-se nas alturas e nas incertezas: é ter coragem de se rever para defrontar com a sua própria verdade de SE  fundamentalmente desamparado. Nesse sentido, torna-se necessário lançar-se na angústia existencial.

Querer satisfação plena todo mundo quer. Mas abrir mão de si pelo outro é impossível e pouco recomendável. O justo seria tentar ser fiel ao próprio desejo, mas deixando entretanto de ter um certo cuidado com a forma de lidar com isso. Afinal orientar por uma ética mais solidária talvez seja a saída. Tentar levar as coisas de tal modo que, sendo fiéis ao próprio desejo, não esqueçamos que o outro existe e que esta alteridade deve ser considerada. Isso é difícil, mas não impossível. Afinal, que graça teria se na vida fosse tudo muito fácil?

Amarga realidade é a de quem fecha os olhos para os riscos e as possibilidades de encontrar pela vida alguém, acreditando que haverá plenitude desse encontro. Haverá sim um encontro, mas será de duas faltas. A sua e a do outro. E se não se pode ver isso, o perigo é maior porque da ilusão vem logo a desilusão, lógico. Eis aí o horizonte da incompletude. 

A vida é a arte das escolhas, dos sonhos, dos desafios e da ação. Em toda perda há um ganho. Em todo ganho há uma perda. Quem escolhe o que perder, perderá o que não escolheu. Não apague a sua estrela para ficar se exibindo para ser notado pelo brilho do olhar dos outros.

Se a pessoa se sente “escolhida” (veja COMPLACÊNCIA EXCESSIVA neste Blog) permanece insatisfeita, por não ter feito a escolha que desejaria, ficando engessada na sua capacidade de dizer “não” para aquela posição existencial.  Como a vida é uma metáfora de quem você aparenta que é, a negação da sua verdade  inconsciente se manifesta sob a forma de decepção e de insatisfação através dos sintomas. Assim, a pessoa permanece no cativeiro sequestrada por si mesma. Acontece que o sequestrador (o outro de si mesmo) cobra o resgate (na natureza ninguém fica impune por não querer ser a si mesmo) colocando a pessoa angustiada e frustrada, que vai crescendo cada vez mais como uma bola de neve, em razão do desconhecimento crônico de si mesma. .É ai que reside a alienação existencial.

Pior ainda, a pessoa fica na expectativa de uma solução mágica, gerando ansiedade e frequentemente imobilizada diante dos desafios da vida cotidiana, em razão do estado de assujeitamento a quase tudo, por ignorar a sua própria verdade e o próprio ser. Nunca fique na “esperança milagrosa” de que o mundo vai mudar para melhorar a sua vida. O outro lado da ponte é lugar onde se localiza o vazio existencial, o qual cabe a cada um preenchê-lo mediante a contabilização das suas realizações pessoais. Ninguém nasce com receituário e bula para orientar o seu destino. Conquistar o seu estar no mundo é tarefa penosa de cada um.

O que todo mundo precisa é do resgate do próprio SER mediante a libertação das amarras de sua alienação existencial na linguagem e, inconscientemente, nos fortes laços afetivos indestrutíveis e profundamente enraizados que mapearam a sua realidade psíquica..Somos "plugados" demais ao nosso romance familiar vivenciados na pequena infância.

Vejamos a seguinte poesia:

Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
E quando o navio larga do cais
E se repara de repente que se abriu um espaço
Entre o cais e o navio,
Vem-me, não sei por que, uma angústia recente.
Uma névoa de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira janela onde a madrugada bate,
E me envolve como uma recordação duma outra pessoa
Que fosse misteriosamente minha.

PESSOA, Fernando. Ode MARÍTIMA. O eu profundo e os outros eus. Rio de Janeiro; Nova Fronteira.
  
Essa pessoa misteriosamente minha é na verdade uma falta primordial, protótipo da angústia e da saudade: falta que não é do outro, mas do próprio ser, segundo o Psicanalista Lacan. Quer você entenda quer não,  o ser humano é estruturalmente um SER de falta de presença constante. Enquanto viver sempre estará faltando-lhe alguma coisa. Somos seres recorrentes à nossa originalidade. 

Como falta e desejo são coexistentes, no lugar da falta surge o desejo. Desejo que, é caracterizado por uma "presença de uma ausência”; é a “nostalgia de algo perdido”, segundo Lacan.


Aqui cabe a seguinte citação: O desejo é a própria essência do homem, ou seja, o esforço pelo qual o homem se esforça por perseverar no seu ser". (Baruch Spinoza).

“Esse algo ou objeto perdido” quer dizer, segundo Lacan: Outro (Grande outro primordial). Primeiro objeto de amor da criança, ou seja – quem exerceu a função materna (geralmente a mãe biológica). No entanto, quem tem tudo a tempo e a hora nada tem a desejar. Se esse elo não for rompido nada faltará ao sujeito e em contrapartida não haverá desejo. A falta é uma condição essencial para o surgimento do desejo. Caso contrário, seremos  um ser desprovido de motivação para viver

Eis que o desejo torna-se a grande aventura humana! Mas, para vivermos na civilização torna-se necessário suportar a sua insatisfação (sublimação), como o preço que ele próprio se impõe. É o preço que se paga por uma realização possível. Da onipotência da satisfação, o sujeito passa para a possibilidade da realização.(Ver artigo publicado neste Blog denominado “UMA QUESTÃO DE VIDA OU MORTE”).

Na busca do elo perdido, o homem se aventura a relacionar-se. Tudo que encontra, porém, é a incerteza, a falta de garantias. De nada adiante reeditar o Grande Outro, pois ele não pode oferecer o Bem Supremo. Entregar-se a esse Outro é o que ele tenta fazer, sustentando ainda a ilusão de que se tudo lhe der, correspondendo ao que imagina ser esperado dele, do Outro tudo terá. Ou seja, sendo ele tudo o que o Outro espera só para ele o Outro existirá também. Não é preciso ter horror da falta e nem da obscura autoridade do Outro, porque o Outro doa amor e não requer prova de amor do filho, Mas ele permanece na condição de que ele é que é o agente responsável para garantir tal reciprocidade, que não passa de uma fantasia. para suprir o desejo do Outro..Tal suposição torna-o o objeto que complementa o Outro. 

Pura repetição infantil, em que o sujeito ansiava pelo puro reconhecimento de seu desejo, para ser o objeto único de desejo do Outro. 

Mas quem não quer ser reconhecido? Entretanto, será apenas no suporte da insatisfação que certo reconhecimento será possível ao desejo e ao sujeito: Se antes via apenas o Outro, e, portanto a si mesmo, agora deve ver o outro, aquele que desvia os olhares do Outro e dele mesmo, fazendo-se conhecedor de uma falta que não se completa nunca. Ao abrir Mão do reconhecimento absoluto, o sujeito ingressa numa outra via: a da possibilidade de existir, pois de modo diverso, o reconhecimento de um implicaria na morte do outro.

Assim, o ser humano é um ser dividido numa busca constante da sua outra metade supostamente perdida. Pura ilusão! Não há possibilidade de sobrevivência sem o todo, sem o uno. Conviver com a dualidade é uma condição de vida ou morte.Eu sou eu mesmo e nada me falta.O que existe na realidade é a Fantasia da Separatividade

CAIXA PRETA Roberto Lanza
17/05/2015

  

sábado, 2 de maio de 2015

NATUREZA E CULTURA


Ao nascer, o homem só tem de homem o status de animal vivo. Como tal, não passa de um ser de necessidades. Para conquistar sua identidade, será preciso que se torne ser de desejo, isto é, consciência desejante ou consciência de si (Freud).

Esse desejo provém da falha, da impossibilidade de que o outro o entenda plenamente ou mesmo que atenda totalmente sua demanda de amor inesgotável, portanto, impossível de ser atendida (retorno ao estado originário).

Na verdade, o "desejo humano, por não ser natural, é fundamente estruturado como desejo de desejo do outro" (Lacan). Assim, o que o sujeito deseja é possuir o desejo do outro o que é impossível, já que desejar é atestar que se está em falta, que é uma condição própria de todo ser humano. Falta, porque ele se julga incompleto.

A ilusão de completude é uma fantasia que nos leva a crer que possuímos o desejo do outro, mas na realidade, quer queiramos ou não, o desejo do outro sempre nos escapa, em função da singularidade de cada indivíduo. Eu consigo ver os olhos do outro semelhante, mas jamais consigo entender o seu olhar, bem cono o seu desejo e qual o seu julgamento sobre mim. Em razão disso, quando dois humanos se encontram há sempre uma interpelação e uma necessidade de reconhecimento recíproco, para a autenticação de cada  existência, Coisas são coisas e pessoas são pessoas. Estamos sempre inseridos numa espécie de "aquário". Segundo Freud, as relações humanas não se dão de ser para ser, mas sim  de ser de falta para ser de falta.

Desse modo, o sujeito está desde sua origem referida ao outro, que pela via da palavra, único meio de intercâmbio, presentifica a cultura.


Lidar com a questão da natureza e da  cultura é muito antagônico e paradoxal: 
"Não há possibilidade de sobrevivência sem o todo, sem o uno. Conviver com a dualidade é uma condição de vida ou morte. Se a mente se caracteriza por ser dual, por separar, dividir, confrontar, julgar, destacar, essa mesma mente jamais poderá apreender a realidade se esta for molar, global, una ou se pelo menos for ´´não-dual``. Sendo a mente dual , e sendo a dialética  um processo puramente mental e que consiste em analisar ou procurar apreender a realidade através da mente, a própria dialética  está condenada, pela natureza do instrumento mental que escolheu, a oscilar constantemente entre um homogêneo e um heterogêneo, impossíveis de absolutizar pelo fato de o próprio instrumento, autor desta oposição, ser, ele mesmo, feito de energia" (Pierre Weill)

         Há na sociedade um grupo determinado de fenômenos com caracteres nítidos que se distinguem daqueles estudados pelas outras ciências da natureza. O que quer dizer que se todos os fatos fossem sociais, a Sociologia não teria objeto próprio e seu domínio confundiria com o da Biologia e da Psicologia.

Quando o homem nasce é lançado fora de uma situação que era definida, tão definida como os seus instintos, para uma situação indefinida, incerta e exposta. Somente há certeza com relação ao passado – e, quanto ao futuro, apenas com relação à morte. O homem é dotado de razão: é a vida consciente de si mesma: tem consciência de si mesmo como entidade separada, a consciência do seu curto período de vida, do fato de haver nascido sem ser por vontade própria e de ter de morrer contra sua vontade. Somos condenados  a "sermos dois para sermos um só".

O mundo simbólico já pré-existe antes do nascimento de qualquer ser humano, dotados de padrões de comportamentos, sistema financeiro, mundo jurídico, religião, estabelecimentos de ensino e conhecimentos de ordem empírica, científica, filosófica, teológica, etc., bem como de uma infinidade de outros condicionamentos. Esse mundo simbólico também denominado “O cosmo humano” rege a sua conduta e, sobretudo a sua submissão e a sua subversão. 

Ao ter que se adaptar nesse chamado “cosmo humano” produto do mundo exterior, dentro de um contexto aleatório e impositivo e formando uma espécie de “computador singular”,  a maneira de agir e de pensar do homem torna-o uma consciência diferenciada das demais consciências individuais. É preciso entender que a subjetividade, sendo uma condição de singularidade de cada um, não permite comunhão de idéias e tudo mais, somos obrigados a acatar as diferenças e suportá-las mesmo.

Se não me submeto às convenções e tradições culturais existentes violando as leis do direito, a consciência pública, pela vigilância que exerce sobre os cidadãos e pelas penas que tem legitimadas ao seu dispor, reprime todo ato que a ofende, até mesmo aqueles de efeitos menos danosos como, por exemplo, sair nu pelas ruas da cidade, apesar da coerção ser menos violenta, não deixa de existir.

 O comportamento humano está definitivamente inscrito na cultura que o gerou. Desta forma, seu modo de agir e de pensar é dotado de um poder imperativo e coercitivo, quer ele queira quer não. Os atributos da singularidade de cada um fazem com que o indivíduo adote comportamentos peculiares com tendências compulsivas de repetição, em sintonia com a cultura que o gerou, incluindo-se os princípios éticos e a força do caráter introjetado.          Esses atributos impõem ao indivíduo uma conduta que pode ser adaptativa por aceitação ou rejeição, forçando-o a respeitá-los ou transgredi-los, constituindo-se atos lícitos ou ilícitos em coerência com os ditames dos costumes e dos padrões aceitos pela sociedade. A cidadania exercida pelo indivíduo está inserida na consciência pública num contexto de liberdade ou de submissão, cabendo a cada um decidir o que mais lhe convém, de conformidade com o seu livre arbítrio. Mas, qualquer que seja a sua conduta, a vigilância da consciência social coletiva pertinente, não deixa de existir. 

       Assim, o homem desnaturou-se e colocou a sua identidade na linguagem tornando-se um eterno insatisfeito, sempre em busca de sua reintegração existencial.. 


CAIXA PRETA Roberto Lanza
02/05/2015



terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

UMA QUESTÃO DE VIDA OU MORTE

Gostaria de repassar-lhes, literalmente, um artigo de autoria da Psicóloga Deborah Maria Michielini, publicado na revista CENÁRIO - Psicanálise e Cultura, edição 05/1996, do GREP - Grupo de Estudos Psicanalíticos de Belo Horizonte. O assunto é um pouco longo, mas vale a pena ler por se tratar de uma questão fundamental para quem se interessa em conhecer-se melhor. .

        DESEJO HUMANO 

 Quando as pessoas procuram por uma psicoterapia, é comum que se descubra por trás de seu sofrimento uma dificuldade em relação, a saber, sobre o próprio desejo: até onde agem de acordo com o seu desejo, e até onde o fazem de acordo com o desejo do outro?
 A angústia por não se saber mais a distância entre o próprio desejo e o desejo do outro é um dos pivôs na análise do sujeito, que anseia por seguir um caminho no qual não se encontre tão à mercê do outro.
         Mas onde se inicia esta história do desejo? Qual o seu papel na história do sujeito? E qual é, exatamente, o fator de angústia que essa questão desencadeia?

O início

Para Freud, a porta para a emergência do desejo se abre a partir da primeira experiência de satisfação do infans: após a primeira mamada, uma imagem perceptiva do objeto provedor do alimento (no caso o seio) permanece gravada na memória do recém-nascido. Quando da segunda emergência da necessidade, ainda incapaz de realizar uma ação específica que lhe resolva a tensão interna, o bebê investirá nessa imagem mnêmica (memória), alucinando o seio e a satisfação da necessidade. No reaparecimento da percepção, estabelece-se o desejo.

O que se pode pensar a partir daí é que o desejo surge de uma falta, apoiada numa experiência de satisfação. Fosse apenas uma necessidade nesse momento, um objeto alucinado não resolveria a questão. Trata-se de desejo porque se realiza através de uma fantasia.
Vemos que o desejo não é algo natural; afasta-se da necessidade, impondo-se por uma falta numa relação com o outro. E se por um lado ele busca um objeto, o faz diferentemente da necessidade, orientando-se por sinais que constitui o fantasma (“encenação imaginária em que o indivíduo está presente e que figura, de modo mais ou menos deformado na realização de um desejo”).
Numa referência à noção de desejo na filosofia de Hegel, Garcia Rosa (1988) vai dizer que o desejo, por ser não natural, e que só outro desejo teria essa característica. O desejo, portanto, seria desejo de desejo; desejo do desejo do outro, nas palavras de Lacan, também citado por Garcia Roza.
A relação é sempre com o outro...
A cria é indigente, incapaz de se bastar. Para que sobreviva, carece de um OUTRO Materno (Grande OUTRO). É ele que atende o seu apelo urgente, preenchendo lhe a falta.

Quão onipotente não é esse Outro...
A criança chora, a mãe tem para dar.
No seu dar, a compreensão de um apelo.
Na interpretação do apelo, a introdução na linguagem.
Na introdução da linguagem, a criação da demanda.
Na criação da demanda, a viabilização do desejo.

Mas... Quando a criança chora, quem saberá exatamente do que se trata? Pois digo que é só no imaginário (Registro do engodo e da identificação) que essa relação pode-se dar. Somente no imaginário materno corresponde ao lugar onipotente de saber do desejo do outro. Ao choro do infans, a mãe responde: “É de fome? É de frio? É de dor?”, porque assim espera que seja. A sua falta torna-se, então, a fala do filho, o seu desejo, o desejo do filho.
Neste momento, mãe e filho formam uma mônada, uma célula só, na fusão, o desejo confuso do bebê é espelhado no outro e só assim pode ser reconhecido e atendido. Uma sintonia perfeita (?) mãe-bebê, num mundo onde nada mais além parece existir. Cada um ocupa o lugar daquilo que completa o outro, preenchendo o vazio deixado pela falta original.
Essa relação, apesar de imaginária, é necessária para que os desejos se inscrevam, pois não há possibilidade da existência da criança sem o olhar desejante da mãe.
É no reconhecimento da cria enquanto FILHO, o qual carece do outro enquanto MÃE, que é possível a estruturação de um sujeito humano. É o olhar estruturante, se sobrepondo ao puro instinto materno (Elizabeth Badinter, em seu livro o Mito do Amor Materno mostra como o instinto materno não é algo que parte do ser humano, mas que se constrói durante a própria história da humanidade. Trata-se de um amor conquistado e não dado pela espécie, como no caso dos outros animais). Aquele que é FILHO, ele precisa ser investido libidinalmente, ou seja, ele demanda amor. Mas, a demanda só é de amor porque a mãe assim reconhece.                                                                                                                      Na falta desse olhar apaixonado, não se estrutura um homem cria-se apenas um ser biológico. A cria carece de um envoltório libidinal. Garcia Roza (1985), citando Lacan, diz que, tal como o pinto rompe a casca do ovo e perde, não somente a mãe, mas a membrana que o protegia, a criança também, na hora do parto, não perde a mãe, mas uma parte de si mesma. E diz ainda Lacan: “Rompendo a casca, faz-se o homem, mas também a omelete”, ou seja, se este ser que nasce não for investido por um envoltório erógeno imaginário, ele será só um ovo e se esparramará, movido pelo puro instinto, sem uma forma humana.
Os limites corporais que a mãe designa à criança impedem que ela sucumba a um Real cruento o qual não pode ser simbolizado totalmente. Penso o Real como um registro da ordem do inominável, no qual o sujeito encontraria saída para a vivência do desamparo. Como bem observou R. Spitz (1988) nos casos de crianças institucionalizadas, sem essa moldura libidinal, mesmo supridas todas as necessidades, essas crianças entravam num estado de marasmo, o qual denominou Síndrome do Hospitalismo. Do que elas careciam? Do desejo do outro, do olhar, do toque sedutor que erotiza e livra o ser humano do puro estado natural, animal, biólogo.
O desejo desse primeiro momento imaginário, entretanto, não reconhece ainda como tal. Aquela citação Lacaniana, “O desejo é desejo de desejo do outro”, indica que é numa relação especular, por oposição ao outro, que o sujeito saberá do seu desejo, ou seja, a partir do desejo do outro que se lhe impõe. O outro funciona como um espelho, que lhe devolve a própria imagem. A partir dessa relação espelhada, a criança não é mais só uma massa esparramada, como diz G. Gabas (1980), explicando a fórmula do momento narcísico no qual a criança se encontra:

 DESEJO / SUPORTE

A criança toma a si mesma como suporte, mas é uma estrutura mediata: o outro modela o seu desejo. G. Gabas explica que esse duplo narcísico exige do infans ser dois para ser único. Tem que ser ele mesmo e o objeto. Neste momento, o sujeito e o desejo ainda não existem como tais. Terá de haver uma clivagem para que se possa sair dessa relação onde o sujeito se alterna no outro se perdendo de si mesmo e do seu desejo. Tem-se que sair, pois tal como no mito de narciso, que se precipitou nas águas apaixonado pela própria imagem refletida, o destino do sujeito apaixonado pelo Outro de si mesmo é a morte. E essa díade só se poderá romper com a entrada de um terceiro elemento que intervém desviando os olhares da contemplação. Sem isso não se torna possível a saída da relação imaginária e a célula narcísica se fecha, abortando um SUJEITO QUE AINDA NÃO É sendo ele ainda um esboço do EU. E é pela via do Simbólico (´”O simbólico faz do homem um animal fundamentalmente regido, subvertido pela linguagem, o que determina as formas de seu vínculo social e suas escolhas sexuadas”) que a célula há de se abrir, seguindo a trilha da linguagem.
Esse simbólico, entretanto, não é algo que só agora aparecerá. Ele já está presente desde sempre, sendo que somente por este tempo é que a criança se dá conta dele. É que na célula narcísica há um furo, localizado na mãe e no seu desejo. Na falta, o prenúncio do simbólico. (Observação minha: Segundo Lacan a palavra mata a coisa e coloca em seu lugar o símbolo, criando o fantasma da ilusão de completude na sexualidade humana).
Vejamos: No idílio da completude que a relação imaginária oferecia, a falta insistia em se inscrever. Aquele filho do desejo nasceu de um ideal dos pais. Nascido de um ideal, ele será sempre o filho da desilusão, pois nunca corresponderá à expectativa nele projetada. Exatamente por isso, o universo da mãe não será preenchido só pelo filho, havendo algo mais que ela buscará alhures. A falta se inscreve, então, também para a criança, pois nem ela tem o outro a tempo e a hora de sua necessidade, como esse outro também não a tem como objeto exclusivo de desejo; o que é uma só coisa: Só se pode atender a tempo e a hora se não se tem mais nada a desejar.
Assim, a criança só tem sua demanda atendida parcialmente: em algum momento a mãe falha na interpretação de seu choro. É como se um ruído, de repente, penetrasse na sintonia perfeita das estações “Mãe-Bebê”, uma espécie de linha cruzada, uma interferência externa que prejudica a comunicação: Mesmo que um insista em ser ouvido, ou o outro insista em atender, uma terceira voz se sobrepõe, impedindo a compreensão. Com o ruído, algo se perde.
O seio alucinado daquele primeiro momento de emergência do desejo seria o representante desse algo perdido, um elo perdido, que para a criança é como um objeto que ela na verdade nunca teve, mas pensa ter perdido. Uma falta primordial, protótipo da angústia e da saudade 
É apresentado a seguir o poema "O eu profundo e os outros eus" , de Fernando Pessoa,  Rio de Janeiro, Editora Nova Fontreira.

Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
E quando o navio larga o cais
E se repara de repente que se abriu um espaço
Entre o cais e o navio,
Vem-me, não sei por que, uma angústia recente
Uma névoa de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira  janela onde a madrugada bate,
E me envolve como uma recordação duma outra pessoa
Que fosse misteriosamente minha.
                          
Essa “Pessoa misteriosamente minha” é na verdade o que Lacan chama de objeto causa do desejo: objeto que é uma falta, falta que não é do outro, mas do próprio ser. Falta a partir da qual emergirá o desejo. Desejo que, caracterizado pela “presença de uma ausência” é a “nostalgia do objeto perdido”, nas palavras de Garcia Roza (1988).
Uma ausência e uma perda instaurada definitivamente por aquele ruído que é o simbólico, ou seja, tanto a falta da mãe, a qual a impede de “ouvir” com perfeição o apelo da criança, quanto à interferência da voz do pai, efetivada justamente pela mãe que o busca para além do filho.
O pai funcionará como aquele que é a razão da exclusão do sujeito no desejo da mãe. (Tal como a MÃE é função de maternagem, PAI também deve ser entendido como função). Esse pai causará o desequilíbrio na homeostase da díade, o qual terá de ser inscrito para a criança, simbolizado. G. Gabas (1980) nos diz que, neste momento, o pai intervém no desejo incestuoso, e a sua morte é desejada. Mas o pai desejado morto é o pai do desejo da mãe, e o pai real; entretanto, o pai independe da cria para existir ou não no desejo da mãe, e o sujeito acaba tendo que se encontrar com dois pais: o pai real do desejo materno, e o pai morto do desejo do sujeito. Será a distância entre o dois que permitirá que o sujeito se inscreva no simbólico: o desejo do pai morto terá de ser recalcado, guardado no inconsciente, para que possa se inscrever sem que o sujeito tenha que realizá-lo no ato real. Assim, o pai funciona como uma Lei. Lei que se apóia no papel do pai, mas que também difere de sua pessoa. Essa lei é chamada, então, de NOME-DO-PAI: NOME porque não é a pessoa em si; PAI, porque é autoridade, lei que rompe com o absoluto do Outro da criança. A mãe, que era para a criança outro onipotente (OUTRO – Grande Outro), deixará de sê-lo, para se apresentar para a criança como um a quem falta. Este Grande Outro, a criança ainda buscará, mas em outro lugar. Em princípio neste pai, que de início pensa SER a lei, e depois nos objetos da cultura, quando percebe que também este pai é regido por uma ordem que lhe é alheia.
A articulação dessa Lei com o desejo é feita pela linguagem. Num primeiro momento de inserção na linguagem, Freud descreve o jogo de uma criança, o qual chamou de “Fort-Da”: Ela brincava com um carretel, que fazia aparecer e desaparecer, simbolizando a falta da mãe. Ao jogar, ela nomeava a ausência (Da) e presença (Fort) da mãe, tomando no simbólico o controle da ausência e presença do outro (ver conceito de frustração), o que aliviava a angústia do abandono. G. Roza explica:

A partir do momento no qual a criança formou o seu eu segundo a imagem do outro, ela vai, pelo ingresso na ordem simbólica, produzir uma transformação no objeto através da linguagem. O Fort-Da é a descrição que Freud nos oferece desse momento. O objeto é desnaturalizado e adquire a função de signo; em seguida ela passa para o plano da linguagem e a partir de então a palavra passa a ser mais importante que o objeto.

E citando Lacan:

A palavra é essa roda de moinho por onde incessantemente o desejo humano se mediatiza, entrando no sistema de linguagem.

Mas, quando é só da falta da mãe que se trata, a linguagem é apenas uma oposição de significantes (Fort x Da). É no momento da entrada do PAI, e com o recalque do desejo de morte dele, que o sujeito ingressará na ordem simbólica definitivamente.
O gozo incestuoso (Gozo Incestuoso com o Grande Outro: é incestuoso porque é com o Grande Outro e é gozo porque é desejo de união absoluta, desejo do bem supremo, mítico e impossível de se realizar) será interdito e no lugar do desejo aparecerá o símbolo.
O que este recalque provoca é uma clivagem do sujeito. A partir daí ele será dois: um consciente, o EU e um Inconsciente, o SUJEITO. O desejo pertencerá a essa ordem inconsciente, pois sendo absoluto e incestuoso, é proibido ao sujeito consciente. A esse inconsciente o sujeito é submisso, sendo regido pelo seu desejo sem que o saiba. Garcia Rosa fala disso muito bem, contando a história do escravo que levava gravado no seu couro cabeludo uma mensagem, a qual desconhecia e que anunciava a própria morte. Tal como o escravo, o EU desconhece os desejos do sujeito, os quais determinam o seu destino.
Com a clivagem da subjetividade, o desejo inconsciente falará na voz do Outro, alheio àquele EU consciente. O Outro será o lugar do código, por cuja voz o desejo proibido poderá ser veiculado. Porém, fará isso atropelando a voz cotidiana do EU (Freud mostra como os atos falhos, os sintomas e os sonhos são as verdadeiras manifestações do desejo inconsciente, os quais, ao serem expressos na forma da linguagem, encontram sua realização). De modo que, a palavra diária, que serve para tamponar a falta e ocultar o desejo proibido, servirá ao mesmo tempo para fazê-lo aparecer.
Por não ser TODA, a palavra falha no seu intento tamponador. E quando falha, o SUJEITO fala, o DESEJO fala. Mas ao falar, fica para sempre insatisfeito. Por quê? Porque é linguagem, e se a palavra fala o desejo, ele fala também a falta. J. D. Nasio explica bem isso:

O desejo nunca será satisfeito, pela simples razão de que falamos. E, enquanto falamos, enquanto estivermos imersos no mundo simbólico, enquanto pertencermos a esse universo em que tudo assume mil e um sentidos, jamais chegaremos à plena satisfação do desejo, porque, daqui até a satisfação plena, estende-se um campo infinito, constituído de mil e um labirintos. Já que falo, basta que, no caminho de meu desejo, eu enuncie uma palavra ou execute um ato, inclusive o mais autêntico, para esbarrar imediatamente numa multidão de equívocos, na origem de todos os males entendidos possíveis. Uma vez dita a palavra, ou executado o ato, o caminho para a satisfação torna a se abrir. Aproximamo-nos do objetivo, praticamos um ato na vida, e um outro caminho volta a se abrir.

Mas, Nasio também diz:

          Onde o desejo não alcança seu objetivo, isto é, onde o desejo fracassa, surge uma criação positiva, coloca-se um ato criador. Eis que o desejo torna-se a grande aventura humana! Suportar a sua insatisfação é o preço que ele próprio se impõe. Suportar a sua insatisfação é o preço que se paga por uma realização possível.
Da onipotência da satisfação, o sujeito passa para a possibilidade da realização.
Na busca do elo perdido, o homem se aventura a relacionar-se. Tudo que encontra, porém, é a incerteza, a falta de garantias. De nada adiante reeditar o Grande Outro, pois ele não pode oferecer o Bem Supremo. Entregar-se a esse Outro é o que ele tenta fazer, sustentando ainda a ilusão de que se tudo lhe der, correspondendo ao que imagina ser esperado dele, do Outro tudo terá. Ou seja, sendo ele tudo o que o Outro espera, só para ele o Outro existirá também.
Pura repetição infantil, em que o sujeito ansiava pelo puro reconhecimento de seu desejo.
Mas quem não quer ser reconhecido? Entretanto, será apenas no suporte da insatisfação que certo reconhecimento será possível ao desejo e ao sujeito: se antes via apenas o Outro, e, portanto a si mesmo, agora deve ver o outro, aquele que desvia os olhares do Outro e dele mesmo, fazendo-se conhecedor de uma falta que não se completa nunca. Ao abrir Mão do reconhecimento absoluto, o sujeito ingressa numa outra via: a da possibilidade de existir, pois de modo diverso, o reconhecimento de um implicaria a morte do outro. Agora não. Desfaz-se a equação:

ONIPOTÊNCIA (OUTRO) / IMPOTÊNCIA (EU)

E constrói-se a fórmula:

IMPOSSIBILIDADE / POSSIBILIDADE

           De ambas as partes serem reconhecidas. É a viabilização de certa realização, de certo reconhecimento, não exclusivo, não todo, não sempre, mas nem por isso fadado ao nunca.
Essa aventura: no encontro com o outro (semelhante) o encontro dos olhares. Olhares que ora se apaixonam, ora se desiludem. Olhares de desejo, mas olhares de falta.
E é assim que, aventurando-se na falta, o sujeito parte em busca de algo além. E para além, é o mundo que se descortina, são os horizontes que se ampliam, é a vida que se abre para a criação.

CAIXA PRETA Roberto Lanza
17/02/2015

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

SOFRIMENTO E PAZ


As características peculiares da espécie humana são tributárias da ordem simbólica, constituinte da cultura, na qual o homem se encontra radicalmente inserido. Da mesma forma que o peixe é o último a perceber a existência da água o homem, de modo geral, é alienado na linguagem, num desconhecimento crônico de si mesmo.

A sombra do sofrimento é pão que nunca falta na mesa do humano, exatamente porque ele não sabe quem ele é.
Tanto o corpo como o mapa mental de cada indivíduo (um-dividido) é escrito pela linguagem. Como disse Lacan: “a letra mata a coisa e coloca em seu lugar o símbolo”. Assim, a anatomia do corpo, da mente, da diversidade de coisas e de fenômenos do mundo exterior, ao serem nomeados, transforma-se em conhecimentos e escrituras.

Somos, portanto, seres históricos e simbólicos. De acordo com os linguistas, a função da linguagem é reproduzir a realidade, sendo que o termo reprodução deve ser entendido, literalmente, como produzir novamente. Assim sendo: a cada fala as coisas e os acontecimentos são recriados pela linguagem. Como não há pensamento e nem objetos do mundo sem a linguagem, tudo parece ser criado ou recriado num contexto de temporalidade.

A capacidade que o homem possui de estabelecer uma relação entre o real e o signo, este último deve ser entendido como um representante do real, conhecido como significação, o mundo passa a ter significado. Tudo aquilo que é, por natureza, indiferente para todos os outros seres vivos, torna-se significativo para a humanidade.

Vejamos o que diz o apólogo chinês:

Disse um amigo ao outro, sobre a ponte:
“Olha como os peixes estão alegres no rio”.

O outro replicou:
“Como é que tu, que não és peixe,
sabes que os peixes estão alegres no rio?”

O primeiro respondeu:
“Por minha alegria em cima da ponte”.  

CAIXA PRETA
26/01/2015
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domingo, 18 de janeiro de 2015

PARA SABER


De acordo com os estudos de Lacan::
“‘Tudo que vem à luz pelo simbólico perde-se no saber. Mas, tudo que não vem à luz pelo simbólico retorna no sintoma”.
O saber está em constante devir. Para que não pereça, temos que alimentá-lo. Como? Apreciando e valorizando os grandes feitos que o homem já realizou; sentindo curiosidade pelo desconhecido;  tomando consciência de que o muito que o homem já conhece é muito pouco comparado com as infinitas possibilidades de conhecimentos.
Vejamos ainda, entre muitas outras coisas, como o meio em que vivemos nos influencia bastante:
·        Tudo que não é você é outro.
·        Tudo que não é seu é do outro.
Nós humanos possuímos registros profundamente enraizados em nossos corações, que precisam ser revelados para viabilização do processo de edificação de nossa vida,
Nada está irremediavelmente perdido, tudo está irrevogavelmente inscrito e selado. Os registros sejam hereditários, filogenéticos, ontogenéticos, culturais, etc., são soberanamente singulares á cada pessoa, inscritos de forma codificada, constituindo-se num enigma a ser decifrado. O percurso de decodificação é longo, árduo e sinuoso, não havendo qualquer receituário prévio e nem um método de ouro que valha para todos.
O ser humano está constantemente fazendo opção diante da massa de potencialidades presentes; quais delas serão condenadas a não ser, e quais serão concretizadas? Qual opção se tornará realidade de uma vez para sempre, imortal?  A todo e qualquer momento, a pessoa precisa se decidir, para o bem ou para o mal, qual será o momento de sua existência?
A liberdade é um dom pessoal que coloca cada um na abertura da escolha do seu próprio destino. A libertação não é simplesmente uma dádiva divina, trata-se de uma penosa conquista humana. O mundo não é dado como consumado, mas um constante afazer... Só os livres acham seu lugar nestas mudanças, a maioria apenas se acomoda.       
CAIXA PRETA,

17/01/2015.