De início podemos citar o texto do famoso Psicanalista Erich Fromm (Bouddbisme Zen et Psychanalyse, Paris, PUF, 1971, p.97):
“O próprio fato de nascer cria um
problema.. No momento do nascimento, a vida coloca uma questão ao homem. Esta
questão deve ser respondida. Ele deve respondê-la a cada instante de sua vida.
Não é seu espírito, nem seu corpo, que devem respondê-la. È ele, o individuo
que pensa e sonha, que come e bebe, chora e ri – o homem em sua totalidade –
que deve responder. E a questão é a seguinte: Como superar aquilo que cria
experiência de separação, aprisionamento, sofrimento, vergonha?”.
Nossa verdadeira natureza é a paz; a verdade; o amor; a
felicidade. São as crenças cegas que fazem nossa vida infeliz.
As crenças são ilusões que
sequestram a nossa identidade e a coloca fora de nós mesmos. Segundo a
Filosofia, vivemos a “esperança milagrosa” de felicidade,
da felicidade que “existe, sim”, mas que não a alcançamos porque “nunca a pomos onde nós estamos”, embora
“esteja sempre e apenas onde a pomos”
(convite à filosofia – Marilene Chaui).
Freud, considerado como um dos
maiores gênios do século XX, criou a Psicanálise, denominada Ciência do
Inconsciente, revolucionando as Ciências Médicas com seu surpreendente moto: “o
Eu (Ego) não é senhor em sua própria casa” e, ainda, Eu sei que Eu sou Eu,
mas Eu não sei que Eu sou Sujeito do
desejo inconsciente”.
No
entanto, nada é
tão antigo e atual do que tentar entender a existência humana. Assim, o que se pretende
abordar neste texto, são algumas reflexões sobre questões que se manifestam
na nossa vida cotidiana, relacionadas com a própria existência de cada um, bem como o fato de sermos forçados a tomar
consciência de nós mesmos.
O ser humano, na sua angústia vital, necessita de um
modelo exemplar para sair do vazio que sente em seu coração e na sua mente.
Apesar de ter abundantes meios de vida, faltam-lhes os motivos para existir,
bem como um sentido para a vida, dolorosamente vazia, submersa na angustia e na
depressão. Um ser despatriados encontra-se perdido dentro de sim mesmo, desde que que não tenha um representante inconsciente que o represente, como exemplo o Hino ou a Bandeira Nacional.
Para melhor reflexão de cada leitor que se interessar, repasso literalmente e na íntegra o capítulo Introdução do Livro "A NEUROSE DO PARAÍSO PERDIDO" de autoria do Famoso Psicanalista Pierre Weill. Editora CEPA, edição de 1987:
"O homem se
caracteriza, em seu comportamento cotidiano, por uma busca constante de felicidade,
de alegria de viver, de paz interior; ele procura o prazer e foge da dor.
Isto mostra que existe profundamente enraizada no âmago de seu ser, a memória
de um estado de plenitude sem obstáculos e de êxtase permanente.
Esta memória enterrada no âmago de sua existência constitui a motivação
fundamental de todas as suas ações, quer sejam elas, julgadas como positivas ou
como negativas.
A busca da felicidade permanente leva-o, no plano físico, a procurar sensações
agradáveis de toda a espécie: ver e contemplar formas humanas ou cênicas
agradáveis, saborear iguarias deliciosas, trocar carícias sensuais que conduzam
ou não ao orgasmo, cantar ou ouvir a música da natureza ou a sinfonia de uma
orquestra, sentir o perfume de uma rosa. No plano afetivo, sua busca de amor e
de troca de ternura e de alegria não tem fim. No plano cognitivo, uma
curiosidade, muito freqüente insaciável, fá-lo apreciar as alegrias da
descoberta, assim como a euforia da criatividade literária e artística.
Existe, pois, uma espécie de lei inscrita em cada ser: é feito para a
alegria e não para o sofrimento.
Entretanto, parece que um obstáculo fundamental impede a maioria dos seres de
viver plenamente esta felicidade para a qual parece existir, ela lhes escapa,
sem que tenham consciência da causa deste fracasso constante.
Nenhum destes prazeres ou alegrias que acabamos de descrever dura. E lá onde
havia felicidade sobrevém a frustração de seu desaparecimento. O homem busca um
estado permanente, alguma coisa nele lhe dá a certeza da existência de tal
estado; no entanto, encontra apenas a impermanência.
Feito para a felicidade, sua existência toma a cor da insatisfação.
Existe dentro de cada um de nós um sentimento muito profundo de insatisfação;
este, muito freqüentemente, está oculto, sobretudo entre as pessoas que se
acham felizes, por estados provisórios
de descarga de tensões, devido à satisfação de certas necessidades; mas esta
satisfação é transitória e é justamente o caráter impermanente do prazer a ela
ligado, que provoca um apego à memória do prazer cujo caráter fantasmático
abastece a natureza do desejo.
E, damo-nos conta, cedo ou tarde, conforme o caso, que a satisfação completa
não existe, pois apenas passamos alternativamente da tensão à descarga, e da
satisfação à tensão; constatamos, por vezes amargamente, que passamos nosso
tempo em busca de uma felicidade permanente que não se encontra nem na
abundância de alimento, nem no conforto, nem na segurança relativa de nossas
casas, nem em nosso conhecimento das posições eróticas daquilo que pensamos ser
o amor, nem na embriagues que nos proporcionam os poderes de qualquer tipo.
Nosso sistema socioeconômico de consumo exagerado de segurança, de sensações e
de poder, embora tenha diminuído em grande parte a miséria da insuficiência de
satisfação de necessidades vitais, não forneceu a felicidade que os regimes
políticos nos prometem, sobretudo no caso daqueles que já atingiram o nível de
conforto de um rei ou de um imperador, como existiram antigamente, e em nome do
qual foram feitas e continuam a serem feitas revoluções sangrentas. E, não é a
revolução da informática que vai resolver este problema, especialmente quando
entrevemos o que se está fazendo com ela.
E quanto mais temos mais queremos, basta comparar as reivindicações
populares nos países economicamente desenvolvidos e no terceiro mundo... Tem se
confundido a felicidade com o bem-estar do conforto e da abundância.
Sem dúvida alguma, torna-se indispensável que se terminassem com a miséria e
que se escolhessem os sistemas socioeconômicos mais eficientes para isso. Mas
convém também, e paralelamente, ou melhor, ainda mostrar a todos de uma maneira
integrada, através de uma nova abordagem da existência, como sair do círculo
vicioso da insatisfação e reencontrar este paraíso perdido, o qual certamente
não se situa lá onde a propaganda dos meios de comunicação o coloca.
O conforto e a abundância são importantes, mas não dão automaticamente a paz de
espírito e a alegria no coração.
Ainda é necessário aprender como se relacionar com todos estes “benefícios” de
nossa civilização tecnológica.
Basta observar o que acontece com aqueles que atingiram, enfim, este nível socioeconômico
e este conforto tão ambicionado. No plano físico, as doenças de carência
desapareceram, felizmente. Mas são substituídas por novos males: a coluna
vertebral se deforma e tensões musculares se desenvolvem sob o efeito de
poltronas e camas macias, terminam por sentar-se no chão e dormir sobre
colchões pomposamente chamados “ortopédicos”. Em suma, dormem sobre o duro,
como o índio e o pobre.
Comem demais, empanturram-se de doces e confeitos, e para evitar o “diabetes” e
as doenças do fígado, submetem-se àquilo também pomposamente chamado de
orientação "dietética”. E acabam por comer a mesma coisa ou até menos que
o índio e o pobre, a menos que se internem em uma clínica de jejum... Paga-se
caro, muito caro, para aprender a não comer! E à custa de refinar nossa alimentação,
recaímos em novas doenças de carência, sem contar as intoxicações químicas de
todos os tipos; então, oferecem-nos um novo tipo de alimento o qual chamamos
pomposamente de biológico, orgânico e integral; em suma, fazem-nos ingerir o
pão preto do pobre e o arroz integral do índio.
No plano emocional, o progresso que nos é oferecido resulta de uma
interpretação simplista da obra de Freud, de uma extrapolação apressada da
psicanálise, a qual, originalmente, é uma pesquisa sobre a natureza da neurose,
extrapolação acerca do homem sadio, de uma compreensão errônea de conclusões
tiradas da patologia; ela leva a um reducionismo grosseiro cujas consequências
desastrosas começam a se fazer sentir em todos os domínios, mais especialmente
na educação onde a confusão e a desorientação atingiram um grau máximo. Pais e
educadores não sabem mais o que fazer. O raciocínio oferecido ao público é
muito simples: uma vez que a neurose resulta de uma repressão dos instintos, de
um recalque, para evitar a doença psicossomática, libe remos os instintos,
satisfaçamos todas as necessidades; e, sobretudo, permitamos às crianças toda a
liberdade; para evitar os complexos, façamos aquilo que elas queiram! Os
resultados saltam aos olhos: a dissolução do superego no adulto e sua má
estruturação na criança provocaram uma liberação dos aspectos egóticos do id:
agressão e violência em todas as formas, possessividade, competição sem
limites, indiferença à miséria física e moral. E, como veremos adiante,
aparece uma nova repressão, a repressão dos valores relacionados à beleza, à
verdade, ao amor universal, à criatividade, valores que, quando recalcados,
provocam também doenças de carência, a começar pelo mal estar e o sentimento
difuso de insatisfação próprio daqueles que têm tudo para estarem satisfeitos e
que se encontram, no âmago de si mesmos, profundamente infelizes.
Terminamos, então, por buscar estes valores que existem ainda, principalmente
nas pessoas de vida simples, nos pobres e, como mostram as pesquisas não
sociocêntricas, nos índios, naqueles que chamamos de “selvagens” e que se
tornaram hostis em relação ao branco dito civilizado, porque este invadiu seu
habitat, violou suas mulheres, impôs sua maneira egocêntrica e selvagem de
viver e fomentou lutas fraticidas entre as tribos para poder aniquilá-los e
apoderar-se de suas terras.
No plano mental instala-se a instabilidade: passamos de um assunto a outro sem
mais nenhuma direção definida, reina uma incoerência completa entre opiniões,
atitudes e comportamentos; a pessoa é democrata, anti-racista e socialista,
desde que não se aumentem os seus impostos para se fazerem empréstimos ao
terceiro-mundo; e principalmente que a filha não se case com um negro ou um
judeu...
Somos dominados pelo pensamento, cuja natureza é contraditória; como não temos,
atualmente, tempo de pensar, somos arrebatados pelo devaneio que nos deixa em
uma atitude de estupor mental, diante desta dialética sem saída. Alguns,
causados pelos conflitos permanentes refugiam-se no álcool e na droga; a perda
do sentido da vida aumenta a porcentagem de suicídios, como ocorre nos países
economicamente muito desenvolvidos; o cinema, a televisão, o jogo, não são mais
suficientes para atordoar-nos; no plano sexual, estamos entediados, impotentes
ou frígidos.
A preguiça se instala: para que se esforçar? Temos botões para tudo e máquinas
para calcular, pensar, traduzir, raciocinar, organizar e logo, talvez, criar,
como já querem alguns.
É verdade que alguns reagem contra este estado de coisas: “retornam à terra”,
praticam alpinismo, caçam na África, arriscam a vida, um pouco como o pobre e o
índio...
De fato, o ser humano procura a fonte da felicidade fora de si mesmo,
não mais percebe que é vítima de uma ilusão de ótica, de uma fantasia
fundamental; esta fantasia constitui a fonte desta busca compulsiva e
repetitiva deste paraíso que no fundo jamais perdeu, mas que apenas está
velado. Este véu é a fantasia da
separatividade".
CAIXA PRETA Roberto Lanza
* Grifos meus.