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segunda-feira, 17 de outubro de 2016

OS BOICOTES DO EGO



O ser humano é uma realidade complexa bastante susceptível para o desequilíbrio emocional. Em matéria de psiquismo, todo ”beco sem saída” tem uma passagem secreta e, ao mesmo tempo um “esconderijo” à nossa disposição, no intimo da nossa consciência. . Em contrapartida, a saída secreta exige esforço, disposição e precisa de nossa licença.
Geralmente preferimos permanecer no joguete de meias verdade, num jogo de “faz de conta” inviabilizando modificar a nós mesmos para uma vida pessoal de menor qualidade. No esconderijo, para evitar o confronto com a nossa verdade traumática, refugiamo-nos no escapismo, afastando-nos da própria verdade. Tal fuga se faz recompensa ilusória e desastrosa.
O escapismo é uma forma de nos proteger de nós mesmos, que se torna uma recompensa ilusória e desastrosa. Quando o viver passa a ser doentio, depositamos na morte a promessa maior de vida e o que soçobra é o medo da vida, o qual camufla a morte como expressão da nossa recusa de sermos verdadeiros. Assim, falta-nos auto-possessão com sentido de vida.
Interessante é que, comprovadamente, existem casos de enfermidades graves com previsão de óbito e, no entanto, o paciente foi salvo ou se curou e proporcionou um processo de mudança de vida mais equilibrada. Em tais casos, a causa da cura foi a iminência da morte que a vida foi incapaz de suscitar..
Neste sentido, é importante ressaltar que a ameaça de morte faz valorizar o que realmente é importante – fruição nas relações. Portanto, podemos constatar que: na vida se consegue o que se busca, sobretudo uma doença.
Sentir dentro de nós uma plenitude de paz é estar de bem com a vida, consigo mesmo e com os outros, mas, primeiro, é preciso abandonar os velhos hábitos e pseudos-valores. 
É muito natural que, no decorrer da vida ocorram aberraçõescuja incerteza nos assusta. Mutações sempre acontecem e nos ameaçam, sobretudo quando nos falta um ponto focal firme que cimenta as partes do todo.
Se mal integrados, em razão de vivermos mais para fora que para dentro, fugimos para fora. Ficando mais vulneráveis, cultivamos o caos interior, deixando o essencial abandonado e. também, descartando os valores que nos servem de referenciais por onde navega a afetividade a serviço da integração.Toda enfermidade tem muito de distúrbio – caótico ou relacional – sendo que a saúde é sempre ordem, integração e equilíbrio.
Para falta de confiança, de compromisso, de fragilidade, de medo não faltam justificativas. Dai é só um passo para nos escravizar. E portas se fecham. A vida requer muita luta e, principalmente confiança. Mesmo sendo seres condicionados, podemos ser expert em criatividade, forjando nossa existência com o todo integrado. Sermos prisioneiro daquilo que nos cerca, somos instigados a nos libertar de prisões interiores e exteriores. Há uma capacidade decisiva que habita dentro de nós a qual permite que a vida possa acontecer.
Entretanto, não faltam motivos para nos desculpar diante da fragilidade, medo, desânimos decorrentes de problemas pessoais. O Ego é especialista em transferir tais sentimentos, de forma pretensiosa, para as situações, as coisas e as pessoas, alheias à nossa pessoa. Então, as oportunidades se fecham.
Como agentes do nosso destino passamos a ser vitimas, o resultado não pode ser outro senão tornarmos vitimas de nós mesmos, ficando mais difícil cuidar bem da vida. Urge voltar para dentro de nós e nos desmascarar, sendo o caminho mais correto. É preciso apostar em nossa força criativa. Nosso compromisso com a gratuidade é caminho seguro para uma vida de qualidade.
Compilado de Autor desconhecido

CAIXA PRETA Roberto Lanza
17/10/2016


sábado, 2 de maio de 2015

NATUREZA E CULTURA


Ao nascer, o homem só tem de homem o status de animal vivo. Como tal, não passa de um ser de necessidades. Para conquistar sua identidade, será preciso que se torne ser de desejo, isto é, consciência desejante ou consciência de si (Freud).

Esse desejo provém da falha, da impossibilidade de que o outro o entenda plenamente ou mesmo que atenda totalmente sua demanda de amor inesgotável, portanto, impossível de ser atendida (retorno ao estado originário).

Na verdade, o "desejo humano, por não ser natural, é fundamente estruturado como desejo de desejo do outro" (Lacan). Assim, o que o sujeito deseja é possuir o desejo do outro o que é impossível, já que desejar é atestar que se está em falta, que é uma condição própria de todo ser humano. Falta, porque ele se julga incompleto.

A ilusão de completude é uma fantasia que nos leva a crer que possuímos o desejo do outro, mas na realidade, quer queiramos ou não, o desejo do outro sempre nos escapa, em função da singularidade de cada indivíduo. Eu consigo ver os olhos do outro semelhante, mas jamais consigo entender o seu olhar, bem cono o seu desejo e qual o seu julgamento sobre mim. Em razão disso, quando dois humanos se encontram há sempre uma interpelação e uma necessidade de reconhecimento recíproco, para a autenticação de cada  existência, Coisas são coisas e pessoas são pessoas. Estamos sempre inseridos numa espécie de "aquário". Segundo Freud, as relações humanas não se dão de ser para ser, mas sim  de ser de falta para ser de falta.

Desse modo, o sujeito está desde sua origem referida ao outro, que pela via da palavra, único meio de intercâmbio, presentifica a cultura.


Lidar com a questão da natureza e da  cultura é muito antagônico e paradoxal: 
"Não há possibilidade de sobrevivência sem o todo, sem o uno. Conviver com a dualidade é uma condição de vida ou morte. Se a mente se caracteriza por ser dual, por separar, dividir, confrontar, julgar, destacar, essa mesma mente jamais poderá apreender a realidade se esta for molar, global, una ou se pelo menos for ´´não-dual``. Sendo a mente dual , e sendo a dialética  um processo puramente mental e que consiste em analisar ou procurar apreender a realidade através da mente, a própria dialética  está condenada, pela natureza do instrumento mental que escolheu, a oscilar constantemente entre um homogêneo e um heterogêneo, impossíveis de absolutizar pelo fato de o próprio instrumento, autor desta oposição, ser, ele mesmo, feito de energia" (Pierre Weill)

         Há na sociedade um grupo determinado de fenômenos com caracteres nítidos que se distinguem daqueles estudados pelas outras ciências da natureza. O que quer dizer que se todos os fatos fossem sociais, a Sociologia não teria objeto próprio e seu domínio confundiria com o da Biologia e da Psicologia.

Quando o homem nasce é lançado fora de uma situação que era definida, tão definida como os seus instintos, para uma situação indefinida, incerta e exposta. Somente há certeza com relação ao passado – e, quanto ao futuro, apenas com relação à morte. O homem é dotado de razão: é a vida consciente de si mesma: tem consciência de si mesmo como entidade separada, a consciência do seu curto período de vida, do fato de haver nascido sem ser por vontade própria e de ter de morrer contra sua vontade. Somos condenados  a "sermos dois para sermos um só".

O mundo simbólico já pré-existe antes do nascimento de qualquer ser humano, dotados de padrões de comportamentos, sistema financeiro, mundo jurídico, religião, estabelecimentos de ensino e conhecimentos de ordem empírica, científica, filosófica, teológica, etc., bem como de uma infinidade de outros condicionamentos. Esse mundo simbólico também denominado “O cosmo humano” rege a sua conduta e, sobretudo a sua submissão e a sua subversão. 

Ao ter que se adaptar nesse chamado “cosmo humano” produto do mundo exterior, dentro de um contexto aleatório e impositivo e formando uma espécie de “computador singular”,  a maneira de agir e de pensar do homem torna-o uma consciência diferenciada das demais consciências individuais. É preciso entender que a subjetividade, sendo uma condição de singularidade de cada um, não permite comunhão de idéias e tudo mais, somos obrigados a acatar as diferenças e suportá-las mesmo.

Se não me submeto às convenções e tradições culturais existentes violando as leis do direito, a consciência pública, pela vigilância que exerce sobre os cidadãos e pelas penas que tem legitimadas ao seu dispor, reprime todo ato que a ofende, até mesmo aqueles de efeitos menos danosos como, por exemplo, sair nu pelas ruas da cidade, apesar da coerção ser menos violenta, não deixa de existir.

 O comportamento humano está definitivamente inscrito na cultura que o gerou. Desta forma, seu modo de agir e de pensar é dotado de um poder imperativo e coercitivo, quer ele queira quer não. Os atributos da singularidade de cada um fazem com que o indivíduo adote comportamentos peculiares com tendências compulsivas de repetição, em sintonia com a cultura que o gerou, incluindo-se os princípios éticos e a força do caráter introjetado.          Esses atributos impõem ao indivíduo uma conduta que pode ser adaptativa por aceitação ou rejeição, forçando-o a respeitá-los ou transgredi-los, constituindo-se atos lícitos ou ilícitos em coerência com os ditames dos costumes e dos padrões aceitos pela sociedade. A cidadania exercida pelo indivíduo está inserida na consciência pública num contexto de liberdade ou de submissão, cabendo a cada um decidir o que mais lhe convém, de conformidade com o seu livre arbítrio. Mas, qualquer que seja a sua conduta, a vigilância da consciência social coletiva pertinente, não deixa de existir. 

       Assim, o homem desnaturou-se e colocou a sua identidade na linguagem tornando-se um eterno insatisfeito, sempre em busca de sua reintegração existencial.. 


CAIXA PRETA Roberto Lanza
02/05/2015