Dependendo da estruturação do aparelho psíquico segue-se uma via simbólica ou anatômica para alívio dessa tensão. Pois, como disse Freud, “o aparelho psíquico não tolera o desprazer; tem de desviá-lo a todo o custo, e se a percepção da realidade acarreta desprazer, essa percepção – isto é, a verdade – deve ser sacrificada”. No entanto, para que se possa entender esse processo, a forma como as questões conflitivas ou de desprazer são processadas, faz-se necessário compreender um pouco da estrutura psíquica.
Existe, pois, uma espécie de lei inscrita em cada ser: é feito para a alegria e não para o sofrimento.
No plano afetivo, sua busca de amor e de troca de ternura e de alegria não tem fim. No plano cognitivo, uma curiosidade, muito frequentemente insaciável, fá-lo apreciar as alegrias da descoberta, assim como a euforia da criatividade literária e artística.
CAIXA PRETA Roberto Lanza
29/09/2016
Mostrando postagens com marcador Freud. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Freud. Mostrar todas as postagens
quinta-feira, 29 de setembro de 2016
quarta-feira, 28 de setembro de 2016
UMA ILUSÃO COTIDIANA
No âmago do
ser humano há uma fonte que nutre a fantasia de que em algum lugar alguém está
nos esperando sem nem saber que a gente existe e, no entanto, pensando em nós
com se fôssemos “almas gêmeas”.
Na
realidade, o que esperamos deste encontro? As artes, as músicas, os mitos, as
lendas, etc. parecem que vêm atestando tal condição. Somos realmente peregrinos
na busca de algo intimamente relacionado com a plenitude, para nos sentirmos
completos e inteiros.
Infeliz
daquele que ignora os riscos e as possibilidades de encontrar pela vida alguém,
acreditando que haverá plenitude desse encontro. Haverá sim um encontro, mas
será de duas faltas. A sua e a do outro. Se não for percebido isso o perigo é
maior que da ilusão vem logo a desilusão..
Estar
inteiro é assumir-se como ser humano saudavelmente independente. Seja,
portanto, um ser inteiro antes de ser apenas a metade de um casal. Eu gosto de
dizer que casado é feito de dois inteiros e não de duas metades. Somente um ser
inteiro pode dizer que ama e é amado. Por que ser apenas metade se você é um
individuo e seu parceiro (a) também é outro?
Afinal,
querer satisfação plena todo mundo quer. Mas abrir mão de si pelo outro é
impossível e pouco recomendável. O justo seria tentar ser fiel ao próprio
desejo, mas deixando de ter certo cuidado com a forma de lidar com isso. Afinal
orientar por uma ética mais solidária talvez seja a saída. Tentar levar as
coisas de tal modo que, sendo fieis ao próprio desejo, não esqueçamos que o
outro existe e que esta alteridade deve ser considerada. Isso é difícil, mas
não impossível. Afinal, que graça teria se na vida fosse tudo muito fácil?
“É difícil ao homem enfrentar-se e encontrar-se a si mesmo. Ávido de
exterioridade, sua avidez o conduz ao Vazio. E, fugindo ele de si mesmo
encontra-se com a tortura da imensidão de coisas que se abrangem nos sentidos”.
(Da Ordem 2,10,30).
E ainda:
“Por que se dispersa fora? Começou a entregar seu coração ao exterior e
perdeu-se a si mesmo. Quando o homem, por amor a si mesmo, entrega seu coração
às coisas de fora, perde-se na fluidez dessas coisas e, de certo modo, dissipa
prodigamente suas forças. Esvazia-se de si. Despedaça-se”. (Sermões 96,2)
Como podemos entender tais pensamentos filosóficos?
“Ao Ego, será sempre impossível a plenitude! Como
“filho legítimo” da Grande Separação, do surgimento do “eu separado”, do Adão
(que vem do Sânscrito: adhi – aham – “primeiro eu”), sempre lhe faltara algo –
pois ele sofre a perda da identidade com o todo, desde que se diferenciou dessa
matriz primordial, ontológica, representada inicialmente no psiquismo
individual pelo útero materno e, logo após, pela relação simbiótica e edipiana
com a figura materna. E em busca desse Algo ele tece desde o nascimento uma
teia de incontáveis desejos na esperança inconsciente de sustentar-se sobre o
imenso vazio existencial, num desespero inaudível de busca de sobrevivência e
auto justificativa para o devir dessa existência.
Ele (o ego) se esforça laboriosamente através da
vigília e do sono para satisfazer a cada um dos seus desejos, ora
justificando-os como instintos naturais e intransponíveis, ora vestindo-os em
trajes mais nobres, como algum bem social moral, cientifico ou até mesmo
espiritual”.(Professor Afonso Celso L. Wanderley.)
Por outro
lado, existe uma espécie de lei inscrita em cada ser: na qual ele é feito para
a alegria e não para o sofrimento. Viver é uma miscelânea de sentimento, como
dor, alegrias, tristezas, prazeres, euforia, amor, felicidade, sem parâmetros
de balizamento. Nada disso é coletivo (é pessoal) e nem sequer transferível.
Daí a felicidade tornar-se um episódio transitório e repetitivo.
Para grande
maioria das pessoas, a vida é um processo de gozar o possível do corpo,
reservando-se para a luz da fé as ocasiões de sofrimento inadiáveis. Nossa verdadeira natureza é a paz; a verdade; o amor; a
felicidade;... São as crenças cegas que fazem nossa vida infeliz.
Neste
sentido, vejamos o que diz o poeta Vicente de Carvalho (1866-1924) em seu Poema
Velho Tema, no qual ele exprime essa arrigada condição humana: a incapacidade
de sermos felizes por não valorizarmos o que a vida nos oferece.
Só a leve
esperança, em toda vida,
Disfarça a
pena de viver, mais nada.
Nem é mais a
existência, resumida.
Que uma
grande esperança malograda
.
O eterno
sonho da alma desterrada,
Sonho que a
traz ansiosa e embevecida,
È uma hora
feliz, sempre adiada
E que não
chega nunca em toda vida
Essa
felicidade que supomos,
Arvore
milagrosa que sonhamos,
Toda arreada
de dourados pomos,
Existe, sim:
mas nós não a alcançamos
Porque está
sempre apenas onde a pomos
E nunca a
pomos onde estamos.
Felicidade,
árvore frondosa de dourados pomos. Existe, sim, mas nós nunca a encontramos
porque ela está sempre apenas onde nós a pomos, e nunca a pomos onde nós
estamos.
CIXA PRETA - Roberto Lanza
28/09/2016
O ENIGMA FUNDAMENTAL
Na nossa mais remota
existência, como pequenos perversos e habitantes de um mundo de pensamentos
imperfeitos e de vastas emoções, tramamos cometer dois terríveis crimes, que
permaneceram registrados em nosso inconsciente, não porque eram importantes,
mas são importantes porque permaneceram.
Tratam-se de desejos
relacionados com o parricídio e com o incesto, cientificamente comprovados pela práxis da clinica psicanalítica e da ciência do inconsciente.
Essas experiências vividas
inconscientemente pela criança, certamente não foram concretizada por
impossibilidade de um frágil SER
totalmente impotente. Por isso mesmo, não passaram de desejos de amor e ódio
que devotamos aos nossos pais (não necessariamente aos pais biológicos), mas
que determinam os nossos desígnios conscientes, bem como a força motriz que balizam
os nossos destinos.
A nossa verdade, ou melhor,
a verdade do desejo inconsciente é sempre um enigma a ser decifrado. No enigma,
a verdade e o engano são complementares e não excludentes. A questão
fundamental, na ótica da psicanálise, reside no fato de que somos dois sujeitos
um dos quais nos é inteiramente desconhecido. Os nossos desígnios conscientes
não são capazes de elucidar os enigmas presentes em nosso inconsciente, portador
de uma forte carga afetiva muito poderosa e indelével, que norteiam os nossos
destinos.
Na clinica psicanalítica quem
descobre os crimes é o próprio paciente, necessariamente pela relação
transferencial com o analista. É fato que ninguém transforma ninguém, mas consegue
transformar a si mesmo com a ajuda de outros, especialmente os profissionais da
área da saúde mental..
Mas, trata-se de um processo
longo e sinuoso na relação entre paciente e analista, denominada função transferencial,ao
mesmo tempo em que revela a verdade do sujeito também a produz. Uma das
propriedades de tal relação é a impressão de que o desejo do paciente é uma
crença equivocada de que há um suposto saber do analista, não se tratando de
algo já pronto e acabado, mas ela é, também, produtora do desejo.
Os especialistas da área
consideram que só pode existir desejo do paciente a partir da clínica analítica
e que não há desejo inconsciente antes do inicio da analise demandada pelo analisando.
Isso pode patentear a condição humana de dependência de um Outro (Grande Outro)
que garantiu a nossa sobrevivência e nos salvou do desamparo fundamental.
Nós, humanos, nascemos
biologicamente incompletos e desprovidos dos instintos naturais, que guiam os
outros animais. De início, nada dependeu de nós para depois tudo depender de
nós.
Essa verdade fundamental que
se manifesta no nosso cotidiano, não nos remete diretamente a ela, pois não se
trata de uma verdade desvelada, mas dissimulada e distorcida. Trata-se, pois,
de um enigma a ser decifrado. A teoria e prática da decifração constitui o
objetivo da psicanálise. Claro que existem outras teorias e metodologias com
tal objetivo.
Agora, cabe uma importante
questão que deve ser formulada: por que
nos sentimos culpados daquilo que não cometemos? E ainda mais: para esses
crimes imaginários: por que a existência
de tantas teorias e práticas voltadas para a decifração da nossa verdade
inconsciente?
Interessante é que em nossa
consciência não há traços desses desejos mencionados, mas seus efeitos perduram
por toda vida. Por essa razão, o inconsciente é a nossa verdade, que funciona
como indícios de algo desconhecido por nós mesmos.
No percurso de uma análise
clínica não há receituário para a cura. É o próprio paciente que apresenta
indicações equivocadas, daí as intervenções do analista na busca de desfazer as
ambiguidades, não para eliminá-las, por ser impossível, mas no sentido de
aliviar os sintomas e facilitar a continuidade do processo de cura do paciente.
Interessante é que a ambiguidade está ligada à verdade do sujeito de forma necessária
e não no sentido oposto. Somos nós que construímos e desatamos nós.
O caráter indicial de nossa
historia oculta aponta para um passado arcaico e pelo que são em si mesmo. Essa
persistência, por se manifestar mascarada pelos sintomas, não é devido a importância
desses registros, mas possivelmente pela sua desimportância. Os fatos
minúsculos é que são portadores dos desejos inconscientes e não os grandes
acontecimentos de nossas vidas. Não devemos tentar simplificar as questões
complexas e sim lidar com as complexidades de forma simples. Assim, o
psicanalista opera como suspeito e não com boa fé.
Como a verdade resiste à
significação, mas não cessa de insinuar sua emergência, o inconsciente teima em
se ocultar e só se oferece dissimuladamente em nossos sonhos e nas lacunas do
nosso discurso consciente. Um dos pontos fundamentais da verdade psicanalítica
é que ela só pode ser obtida recorrentemente, a partir do lugar definido pela
relação transferencial analista / analisando que a verdade
do desejo pode emergir. O inconsciente não se oferece nitidamente à escuta do
psicanalista, considerado um suposto saber, suspeitando que nosso relato seja
um enigma a ser decifrado, mas que sabe também que na fala do paciente há uma
verdade embutida com o proposito de ser dita.
A verdade do desejo
inconsciente é sempre sexual, no entanto é uma cobiça interditada. São Paulo
nos revela que as leis sagradas existem porque existe o pecado. A partir da Lei
“não cobices” nos remete ao pecado.
Na clinica não temos de um
lado o “analista-investigador” decifrando a verdade paralelamente com o
“paciente-culpado”oferecendo
pistas falsas ao analista na tentativa de sanar os indícios do seu crime. Quem
descobre o crime é o próprio paciente, desde que haja uma relação com o
analista. Parece que se trata de uma condição necessária, segundo Freud. .
De nada adiantaria ao
analista desvelar essa verdade já pronta, porque ela não é externa ao paciente,
mas sim na relação que mantêm com o analista. Essa verdade não é algo externo
com um dado que poderia ser encontrado, mas ela não cessa de se manifestar
através dos sintomas e queixas do paciente. Expulsar para fora os conflitos
inconscientes é uma das funções do ego.
No tratamento psicanalítico,
a experiência dialógica levada até as suas ultimas consequências, nos alça de
mundo subterrâneo de repetição paralisante de morte para a saída criativa da
vida.
Para tanto, é importante que
o paciente tenha coragem de se rever, respeitando um dos maiores preceitos da
psicanalise que é: “a recusa em tamponar a brecha que existe entre o sujeito e a sua
verdade”.
A verdade do desejo inconsciente
só pode ser desvelada para viabilizar o desenvolvimento
do sujeito humano através da linguagem. A psicanalise, como ciência do
inconsciente, indica que somos seres de linguagem e é somente através dela que
se viabiliza a verdade do desejo humano, dai o poder das palavras.
Texto extraído do livro A INTERPRETAÇÃO DOS SONHOS de autoria de Luiz Alfredo Garcia-Roza, Editora Jorge Zahar.
CAIXA PRETA - Roberto Lanza
28/09/2016
Texto extraído do livro A INTERPRETAÇÃO DOS SONHOS de autoria de Luiz Alfredo Garcia-Roza, Editora Jorge Zahar.
CAIXA PRETA - Roberto Lanza
28/09/2016
domingo, 15 de novembro de 2015
ENCONTROS E DESENCONTROS
No âmago do ser humano há uma fonte que nutre a fantasia de que em algum lugar
alguém está nos esperando sem nem saber que a gente existe e, no entanto,
pensando em nós com se fôssemos “almas gêmeas”.
Na
realidade, o que esperamos deste encontro? As artes, as músicas, os mitos, as
lendas, etc. parecem que vêm atestando tal condição. Somos realmente peregrinos
na busca de algo intimamente relacionado com a plenitude, para nos sentirmos
completos e inteiros.
Infeliz
daquele que ignora os riscos e as possibilidade de encontrar pela vida alguém,
acreditando que haverá plenitude desse encontro. Haverá sim um encontro, mas
será de duas faltas. A sua e a do outro. Se não for percebido isso o perigo é
maior que da ilusão e vem logo a desilusão..
Estar
inteiro é assumir-se como ser humano saudavelmente independente. Seja,
portanto, um ser inteiro antes de ser apenas a metade de um casal. Eu gosto de
dizer que casado é feito de dois inteiros e não de duas metades. Somente um ser
inteiro pode dizer que ama e é amado. Por que ser apenas metade se você é um
individuo e seu parceiro (a) também é outro?
Afinal,
querer satisfação plena todo mundo quer. Mas abrir mão de si pelo outro é
impossível e pouco recomendável. O justo seria tentar ser fiel ao próprio
desejo, mas deixando de ter certo cuidado com a forma de lidar com isso. Afinal
orientar por uma ética mais solidária talvez seja a saída. Tentar levar as
coisas de tal modo que, sendo fieis ao próprio desejo, não esqueçamos que o
outro existe e que esta alteridade deve ser considerada. Isso é difícil, mas
não impossível. Afinal, que graça teria se na vida fosse tudo muito fácil?
“É
difícil ao homem enfrentar-se e encontrar-se a si mesmo. Avido de exterioridade,
sua avidez o conduz ao Vazio. E, fugindo ele de si mesmo encontra-se com a
tortura da imensidão de coisas que se abrangem nos sentido”. (Da Ordem
2,10,30).
E
ainda:
“Por
que se dispersa fora? Começou a entregar seu coração ao exterior e perdeu-se a
si mesmo. Quando o homem, por amor a si mesmo, entrega seu coração às coisas de
fora, perde-se na fluidez dessas coisas e, de certo modo, dissipa prodigamente
suas forças. Esvazia-se de si. Despedaça-se”. (Sermões 96,2)
Como podemos
entender tais pensamentos filosóficos?
“Ao Ego, será sempre impossível a plenitude! Como “filho
legítimo” da Grande Separação, do surgimento do “eu separado”, do Adão (que vem
do Sânscrito: adhi – aham – “primeiro eu”), sempre lhe faltara algo – pois ele
sofre a perda da identidade com o todo, desde que se diferenciou dessa matriz
primordial, ontológica, representada inicialmente no psiquismo individual pelo
útero materno e, logo após, pela relação simbiótica e edipiana com a figura
materna. E em busca desse Algo ele tece desde o nascimento uma teia de
incontáveis desejos na esperança inconsciente de sustentar-se sobre o imenso
vazio existencial, num desespero inaudível de busca de sobrevivência e auto
justificativa para o devir dessa existência.
Ele (o ego) se esforça laboriosamente através da vigília e
do sono para satisfazer a cada um dos seus desejos, ora justificando-os como
instintos naturais e intransponíveis, ora vestindo-os em trajes mais nobres,
como algum bem social moral, cientifico
ou até mesmo espiritual”.(Professor Afonso Celso L. Wanderley.)
Por
outro lado, existe uma espécie de lei inscrita em cada ser: na qual ele é feito
para a alegria e não para o sofrimento. Viver é uma miscelânea de sentimento, como dor, alegrias, tristezas,
prazeres, euforia, amor, felicidade, sem parâmetros de balizamento. Nada disso
é coletivo (é pessoal) e nem sequer transferível. Daí a felicidade tornar-se um episódio transitório e repetitivo.
Para
grande maioria das pessoas, a vida é um processo de gozar o possível do corpo,
reservando-se para a luz da fé as ocasiões de sofrimento inadiáveis. Nossa verdadeira natureza é a
paz; a verdade; o amor; a felicidade;... São as crenças cegas que fazem nossa
vida infeliz.
Neste
sentido, vejamos o que diz o poeta Vicente de Carvalho (1866-1924) em seu Poema
Velho Tema, no qual ele exprime essa arrigada condição humana: a incapacidade
de sermos felizes por não valorizarmos o que a vida nos oferece.
Só a
leve esperança, em toda vida,
Disfarça
a pena de viver, mais nada.
Nem é
mais a existência, resumida.
Que
uma grande esperança malograda
.
O
eterno sonho da alma desterrada,
Sonho
que a traz ansioa e embevecida,
È uma
hora feliz, sempre adiada
E que
não chega nunca em toda vida
Essa
felicidade que supomos,
Arvore
milagrosa que sonhamos,
Toda
arreada de dourados pomos,
Existe,
sim: mas nós não a alcançamos
Porque
está sempre apenas onde a pomos
E
nunca a pomos onde estamos.
Felicidade,
árvore frondosa de dourados pomos. Existe, sim, mas nós nunca a encontramos
porque ela está sempre apenas onde nós a pomos, e nunca a pomos onde nós
estamos.
segunda-feira, 31 de agosto de 2015
OS BOICOTES DO EGO
Para
nós chegarmos ao ser, “eu sou”, esse sou ganha autenticidade quando ele
é energizado com um constante estar. O estar é a mola mestra, é a mola
essencial, central para um legítimo ser. Nós temos que ter essa ótica bem
definida, com identificação plena com os objetivos bem situados e bem selecionados,
sempre reciclados e observados. Todas as vezes que nós queremos transformar o
estar num ser, entramos em frustração.
É
necessário aprender a sair da frente do espelho e ver o outro
semelhante com os olhos da alma. Quem não “sabe dizer eu”, nunca saberá dizer “você”. Infeliz daquele
que não sabe que não sabe e nem
sequer quer saber. Assim, ele nunca saberá se responsabilizar pela sua
vida. Ora! Não se vive da vida, vive-se a vida.
A
visão do mundo com os olhos do ego é cheia de equívocos e um depósito de mal
entendidos, uma vez que o ego é uma
criação do imaginário humano e não é senhor em sua própria casa, como disse
Freud. Além disso, ele é um excelente especialista em boicotar a realidade com
muita habilidade.
O estar
no mundo de cada um, é apenas uma forma de perceber a realidade de acordo
com sua realidade psíquica. Quantos
engodos! Quantos equívocos!
A
fantasia é que é responsável pelo enquadramento da relação do sujeito com a
realidade: sua janela para o mundo. É dela que o sujeito tira, ilusoriamente, a
segurança do que fazer diante das situações que a vida se lhe apresenta. O sofrimento leva o sujeito a “pro –
curar” tratamento apropriado,
visando tirá-lo da sua naturalidade inconsciente e da sua artificialidade consciente, para a
assertividade existencial, o que exige um percurso longo e sinuoso.
CAIXA PRETA Roberto Lanza
01/09/2015
sexta-feira, 21 de agosto de 2015
APARELHO PSIQUICO
Freud durante suas pesquisas sobre a formação do aparelho psíquico, ele concluiu que o aparelho psíquico não é psíquico, ele é um aparelho de linguagem. Ele não concebe um aparelho de linguagem como constituído na relação com o mundo, mas como construído na relação com outro aparelho de linguagem.
O aparelho de linguagem forma-se aos poucos, elemento por elemento, na relação com o outro aparelho de linguagem, e é apenas por referência a esse outro que ele funciona. É importante que se entenda esse “outro” como sendo outro aparelho de linguagem e não como sendo o mundo. O mundo, por si só, não é capaz de produzir um aparelho de linguagem e é, apenas, no seio de uma pluralidade de aparelhos de linguagem que um novo aparelho de linguagem poderá surgir.
É, portanto na relação com outro semelhante, enquanto falante, que o aparelho de linguagem se forma, e não na relação enquanto objeto do mundo. Mesmo o outro, enquanto objeto do mundo, só se constitui como objeto a partir da linguagem, a qual cria o denominado "campo da realidade". Todos nós nascemos totalmente analfabetos.
Na realidade o mundo não tem cor, não tem cheiro, não tem sons e nem sequer sabores. São os nossos cinco sentidos que transformam as combinações químicas em sabores e cheiros, as vibrações sonoras em sons e ruídos e os espectros da luz o cenário físico do mundo exterior.
Portanto, não é a coisa que fornece a significação do objeto. Por exemplo: esse vinho é muito saboroso..Não se trata, pois, de uma auto-enunciação pela coisa. O que a coisa fornece são elementos sensíveis, impressões, que somente adquirirão unidade de objeto a partir da linguagem, mais especificamente da relação que esses elementos mantêm com a representação-palavra. Sem essa articulação representação-coisa e representação palavra não haverá apenas aparelho de linguagem, como também não haverá aparelho psíquico. O animais se comunicam mediante uma linguagem apropriada fornecida plea natureza.
A representação-objeto não é, uma representação icônica da coisa, não é semelhante à coisa, mas apenas índice da coisa. Seu significado é dado pela representação-palavra e não pela coisa. Isto quer dizer que as representações, sejam elas representação-palavra ou representação-objeto, remetem-se umas às outras de tal maneira que formam entre si uma trama ou uma rede de articulações, de signos / signos que na função significante remetem a signos e não a coisas.
É impossível, portanto, imaginarmos o aparelho psíquico como algo que se esgota em si mesmo. Não se trata de um aparelho já pronto que, em seguida, entra em relação com o outro e com o mundo. O aparelho psíquico não é em-si, é para-si, e é nessa relação ao outro que se constitui consciência de si.
A verdade porém é que sua concepção do aparato psíquico encaixa-se perfeitamente com a tese fundamental de Hegel de que o desejo do homem é o desejo do outro, ou, se preferirmos, que o desejo humano é desejo de desejo. Essa dependência fundamental do aparato psíquico para com a linguagem coloca uma questão: a do próprio estatuto do aparelho psíquico. Assim o aparelho psíquico é um aparelho simbólico e não um aparelho psicológico.
Por outro lado, não há aparelho psíquico sem memória, não sendo entendida como uma faculdade ou uma propriedade deste aparato, não é algo que surge depois do aparato já constituído, mas algo que é formador do próprio aparato. Não é o aparelho psíquico que é pré-condição para que se forme o aparato psíquico e sim a linguagem Sem a linguagem a pessoa desaparece e o mundo também.
As opiniões e desejos de outras pessoas fluem para dentro de nós através do discurso. Nesse sentido, podemos interpretar o enunciado de Lacan de que o inconsciente é o discurso do OUTRO (Grande outro - pais, família, parentes, instituições, Deus, religião, etc...) ou melhor dizendo: o inconsciente está repleto da fala de outras pessoas, das conversas de outras pessoas, e dos objetos, aspirações e fantasias de outras pessoas (na medida em que estes são expressos em palavras). Assim, vivemos num mundo bastante enigmático.
CAIXA PRETA Roberto Lanza
21/08/2015
quinta-feira, 13 de agosto de 2015
O LUGAR DO SER
Existem pessoas que percorrem o mundo Inteiro na procura de si mesmo (André Luiz).
O homem é um animal, consciente
de si mesmo, que transcende toda outra forma de vida, mesmo estando na natureza,
sendo obrigado a aceitar seus mandamentos e contingências. Ele transcende a
natureza porque lhe falta a inconsciência que torna o animal uma parte uno com a natureza, residência de o próprio SER.
Como na natureza tudo
se repete sem qualquer deliberação, o homem se rebela e se defronta com o
assustador conflito de ser prisioneiro da natureza e, no entanto, ser livre em
seus pensamentos e, ao mesmo tempo, ser uma “curiosidade” da natureza, não estando cá e nem lá. A consciência de
si mesmo tornou-o um estranho no mundo em que vive. Sendo um ser apartado da
natureza, ele busca fora de si mesmo o resgate da sua própria essência. . .
Dentro do enfoque antropológico, ao fazer uma ponderação sobre constatações e sentimentos de
uma grande massa delirante da população humana terrena, podemos extratar um
profundo sentimento de incompletude. Desta forma, o ser humano é profundamente
afetado pela sensação de incompletude.
O desejo de livrar-se
do desconforto provocado por tal extrato, sempre direcionado para o atraente
campo da plenitude, pode tornar-se um estado mórbido, diante de uma tentativa
de querer evadir-se da incompletude.
Tal tentativa induz o
indivíduo a buscar fora de si mesmo uma nova roupagem para sua alienação existencial, de forma
egoística, na busca da almejada plenitude. Estamos constantemente em busca de
uma nova versão de nós mesmos. Afinal, como podemos ter uma vida plena,
criativa e dinâmica que desejamos?
Eu, pessoalmente,
já fui acometido, inúmeras vezes, por uma sensação de existirem duas pessoas habitando dentro de mim, uma parte em oposição à outra.
Pior ainda, mesmo em oposição,, uma parte permanecia procurando outra parte perdida para
reconciliação. Mas, tal procura era sempre em vão. Por essa razão, sempre procurei encontrar,
dentro de mim mesmo, algo faltante. Nunca havia pensado que dentro de mim
existiria outro de mim mesmo, ao qual eu era mais apegado sem o saber.
Esse algo me
parecia uma espécie de vazio que precisava ser preenchido pela pluralidade de
bens e valores agregados no mundo exterior. Existia em mim um
pressentimento de que era muito temerário pesquisar o desconhecido e, ao mesmo
tempo, colocar em duvida o já sabido e ainda não conhecido.
Enquanto mais
procurava explicação para tal estranheza, mais ampliava a dimensão do
desconhecido. No entanto, sempre manifestava-se dentro de mim algo que eu
buscava incessantemente, mas não encontrável. Algo que parecia não ter princípio
e nem fim, semelhante ao "trem da esperança" que anda viajando sem estação de chegada. Permanecer na
ignorância sempre era a solução. mais cômoda.
A Filósofa Marilena Chauí, em Convite à Filosofia, revela-nos que:
A Filósofa Marilena Chauí, em Convite à Filosofia, revela-nos que:
- "Ignorar é não saber alguma coisa. A ignorância pode ser tão profunda que sequer a percebemos ou a sentimos, isto é, não sabemos que não sabemos, não sabemos que ignoramos. Em geral, o estado de ignorância se mantém em nós enquanto as crenças e opiniões que possuímos para viver e agir no mundo se conservam como eficazes e úteis, de modo que não temos nenhum motivo para duvidar delas, nenhum motivo para desconfiar delas e, consequentemente, achamos que sabemos tudo o que há para saber [...]. A incerteza é diferente da ignorância porque, na incerteza, descobrimos que somos ignorantes, que nossas crenças e opiniões parecem não dar conta da realidade, que há falhas naquilo em que acreditamos e que, durante muito tempo, nos serviu como referência para pensar e agir. Na incerteza não sabemos o que pensar, o que dizer ou o que fazer em certas situações ou diante de certas coisas, pessoas, fatos, etc. Temos dúvidas, ficamos cheios de perplexidade e somos tomados pela insegurança"..
Por outro
lado, eu era dominado por um chamamento compulsivo para o escapismo ou
quietismo para permanecer na zona de conforto sem nada querer arriscar na
direção do desconhecido. Para tanto, era necessário negar a realidade, evitando
o confronto com a minha própria verdade inconsciente que , por estrutura, sempre resistia à significação.
- "Quando digo o que eu sou, de alguma forma, eu o faço para também dizer o que não sou. O não ser está no avesso do ser, assim como o tecido só é tecido porque há um avesso que o nega, não sendo outro, mas complementando-o. O que não sou também é uma forma de ser. Eu sou eu e meus avessos [..]. Eu procuro por mim tal qual o artesão procura sua arte escondida nos excessos da matéria bruta de seu mármore. [...].Que mundo é este que facilita os encontros e nos torna estranhos a nós mesmos”. (Padre Fábio de Melo)
Realmente,
eu nem sequer imaginava que existia dentro de mim uma instância inconsciente
que sequestrava o meu SER e me
colocava numa masmorra psicológica, cobrando-me um doloroso resgate. Como
prisioneiro, eu era subordinado aos caprichos do sequestrador que comandava os meus sentimentos, as minhas condutas, e o meu modo autônomo de
viver. Jamais poderia imaginar a supremacia dessa obscura autoridade, com
tamanho poder de ingerência e de intrusão na minha condição existencial.Tudo me conduzia para uma intrigante estranheza.
De acordo
com Lacan, os seres humanos não passam de
meros epifenômenos nas sociedades em que pertencem, em razão de ser determinado por um processador cerebral de
informações recebidas dos órgãos sensoriais. de forma aleatória e autônoma..
Em
contrapartida, as emoções tais como: angústia, ansiedade, nostalgia de escolhas
perdidas, sentimentos de culpa, medos, frustrações, privações. etc. Enfim,
perturbações e conflitos intrapsíquicos de toda ordem, que se manifestavam sob
a forma de sintomas psicossomáticos, com intensidades e frequências variáveis,situacionais no tempo.
No entanto, eram
os sintomas que bancavam a minha aparente segurança existencial num contexto de
normalidade, comum aos meus relacionamentos familiares, profissionais e
sociais.
Tais
sintomas, de acordo com a minha estruturação psíquica seguia-se pela via
simbólica ou anatômica para alívio dessas tensões emocionais, pois, como disse
Freud, “o aparelho psíquico não tolera o
desprazer; tem de desviá-lo a todo o custo, e se a percepção da realidade
acarreta desprazer, essa percepção – isto é, a verdade – deve ser
sacrificada”.
No entanto,
para que se possa entender esse processo, a forma como as questões conflitivas
de desprazer são processadas, faz-se necessário a busca do autoconhecimento,
incluindo-se ajuda de profissionais da área da saúde mental.
Quando, pela
primeira vez há 20 anos, procurei um Psicólogo para tratamento psicanalítico, inicialmente, numa lógica matemática eu
levava para cada sessão uma série de textos, argumentos escritos, desenhos
mirabolantes, esquemas mágicos, explicações em cima e de outras explicações,
aporias de definições, etc. O analista sempre me dizia: nada disso me
interessa. Eu quero que você traga-me,
apenas, o seu inconsciente. Na verdade, eu já tinha noção da existência do inconsciente, como conteúdo mental e anatômico, mas desconhecia que ele era a minha verdade.
A causa
primeira de qualquer pessoa é a sua condição de filho, fruto do desejo de
seus pais. Isso ele irá carregar para o resto de sua vida. De início, o filho é
objeto de desejo dos pais. O desejo é necessariamente carência.
A relação com o mundo é de escolhas e perdas de objetos, ou seja, relação
objetal, o que significa que para se constituir como “eu”, a consciência
precisa da alteridade com o que está fora e do exterior que está introjetado dentro de si, pela linguagem.
De acordo
com Lacan, o corpo é sobrescrito//superado pela linguagem. O corpo é subjugado; “a
letra mata” o corpo. O vivente – nossa natureza animal – morre e a linguagem
surge em seu lugar, revivendo-nos. As diferentes partes do corpo tomam sentidos
determinados pela sociedade e pelas figuras paternas. A coisa real precisa desaparecer para poder ser representada. Dai o escritura mental passa a representar o corpo e o mundo para cada indivíduo. O homem desprovido da linguagem desaparece e o mundo exterior também;
Segundo
Freud, de início o homem só tem de homem o status de animal vivo. Como tal não passa de um ser de
necessidades. Para conquistar a sua identidade, será preciso que se torne ser de desejo, isto é consciência desejante ou
consciência de si.
Essa
relação, apesar de imaginária, é necessária para que os desejos se inscrevam, melhor dizendo: o desejo dos pais e o próprio desejo do filho, pois não há possibilidade da existência da criança sem o olhar desejante da
mãe. Mas a criança pode ver os olhos dela e, no entanto não consegue entender o seu
olhar e nem sequer qual o seu desejo, o que se torna enigmático, uma vez que se
trata de consciência de objeto, mas não é consciência de si mesma. Absorvida na
contemplação do objeto, ela nele se perde e nele se aliena. Ela é,
literalmente, uma consciência sem eu.
Como o
desejo humano é não natural, ele só pode desejar outro desejo que também é não
natural. O desejo humano é, pois desejo de outro desejo.
É o desejo
que vai operar a oposição entre consciência-de-outra-coisa e consciência-de-si,
entre o não eu e o eu.
Só há eu no e pelo desejo. O desejo se revela sempre como meu desejo, enquanto
o conhecimento revela o objeto, o desejo revela o eu.
Por isso
mesmo o ser humano é indubitavelmente um ser
de desejo que deseja o desejo do outro, mas sem ter o controle do outro desejo. Tudo isso torna o desejo do sujeito enigmático e sem controle. Querer satisfação plena todo mundo quer. Mas abrir mão de
si pelo outro é impossível e pouco recomendável. O justo seria tentar ser fiel
ao próprio desejo, mas tomando um certo cuidado com a forma de lidar com isso.
Afinal orientar por uma ética mais solidária talvez seja a saída. Tentar levar
as coisas de tal modo que, sendo fiéis ao próprio desejo, não esqueçamos de
que o outro existe e que esta alteridade deve ser considerada e respeitada. Isso é
difícil, mas não impossível. Afinal, que graça teria se na vida fosse tudo
muito fácil?
Finalizando,
o que o sujeito do desejo inconsciente é levado a descobrir? Inicialmente, como
diz Lacan, que “não existe outro bem a não
ser o que pode servir para pagar o preço pelo acesso ao desejo”. (Dicionário
Psicanalítico Larousse – Artes Médicas).
CAIXA PRETA Roberto Lanza
13/08/2015
domingo, 17 de maio de 2015
ILUSÃO DE COMPLETUDE
Assinar:
Postagens (Atom)

