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quinta-feira, 29 de setembro de 2016

O DESPRAZER

Dependendo da estruturação do aparelho psíquico segue-se uma via simbólica ou anatômica para alívio dessa tensão. Pois, como disse Freud, “o aparelho psíquico não tolera o desprazer; tem de desviá-lo a todo o custo, e se a percepção da realidade acarreta desprazer, essa percepção – isto é, a verdade – deve ser sacrificada”. No entanto, para que se possa entender esse processo, a forma como as questões conflitivas ou de desprazer são processadas, faz-se necessário compreender um pouco da estrutura psíquica.

Existe, pois, uma espécie de lei inscrita em cada ser: é feito para a alegria e não para o sofrimento.
No plano afetivo, sua busca de amor e de troca de ternura e de alegria não tem fim. No plano cognitivo, uma curiosidade, muito frequentemente insaciável, fá-lo apreciar as alegrias da descoberta, assim como a euforia da criatividade literária e artística.

CAIXA PRETA Roberto Lanza
29/09/2016

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

UMA ILUSÃO COTIDIANA


No âmago do ser humano há uma fonte que nutre a fantasia de que em algum lugar alguém está nos esperando sem nem saber que a gente existe e, no entanto, pensando em nós com se fôssemos “almas gêmeas”.
Na realidade, o que esperamos deste encontro? As artes, as músicas, os mitos, as lendas, etc. parecem que vêm atestando tal condição. Somos realmente peregrinos na busca de algo intimamente relacionado com a plenitude, para nos sentirmos completos e inteiros.
Infeliz daquele que ignora os riscos e as possibilidades de encontrar pela vida alguém, acreditando que haverá plenitude desse encontro. Haverá sim um encontro, mas será de duas faltas. A sua e a do outro. Se não for percebido isso o perigo é maior que da ilusão vem logo a desilusão..
Estar inteiro é assumir-se como ser humano saudavelmente independente. Seja, portanto, um ser inteiro antes de ser apenas a metade de um casal. Eu gosto de dizer que casado é feito de dois inteiros e não de duas metades. Somente um ser inteiro pode dizer que ama e é amado. Por que ser apenas metade se você é um individuo e seu parceiro (a) também é outro?
Afinal, querer satisfação plena todo mundo quer. Mas abrir mão de si pelo outro é impossível e pouco recomendável. O justo seria tentar ser fiel ao próprio desejo, mas deixando de ter certo cuidado com a forma de lidar com isso. Afinal orientar por uma ética mais solidária talvez seja a saída. Tentar levar as coisas de tal modo que, sendo fieis ao próprio desejo, não esqueçamos que o outro existe e que esta alteridade deve ser considerada. Isso é difícil, mas não impossível. Afinal, que graça teria se na vida fosse tudo muito fácil?
“É difícil ao homem enfrentar-se e encontrar-se a si mesmo. Ávido de exterioridade, sua avidez o conduz ao Vazio. E, fugindo ele de si mesmo encontra-se com a tortura da imensidão de coisas que se abrangem nos sentidos”. (Da Ordem 2,10,30).

E ainda:
“Por que se dispersa fora? Começou a entregar seu coração ao exterior e perdeu-se a si mesmo. Quando o homem, por amor a si mesmo, entrega seu coração às coisas de fora, perde-se na fluidez dessas coisas e, de certo modo, dissipa prodigamente suas forças. Esvazia-se de si. Despedaça-se”. (Sermões 96,2)
Como podemos entender tais pensamentos filosóficos?
“Ao Ego, será sempre impossível a plenitude! Como “filho legítimo” da Grande Separação, do surgimento do “eu separado”, do Adão (que vem do Sânscrito: adhi – aham – “primeiro eu”), sempre lhe faltara algo – pois ele sofre a perda da identidade com o todo, desde que se diferenciou dessa matriz primordial, ontológica, representada inicialmente no psiquismo individual pelo útero materno e, logo após, pela relação simbiótica e edipiana com a figura materna. E em busca desse Algo ele tece desde o nascimento uma teia de incontáveis desejos na esperança inconsciente de sustentar-se sobre o imenso vazio existencial, num desespero inaudível de busca de sobrevivência e auto justificativa para o devir dessa existência.
Ele (o ego) se esforça laboriosamente através da vigília e do sono para satisfazer a cada um dos seus desejos, ora justificando-os como instintos naturais e intransponíveis, ora vestindo-os em trajes mais nobres, como algum bem social  moral, cientifico ou até mesmo espiritual”.(Professor Afonso Celso L. Wanderley.)
Por outro lado, existe uma espécie de lei inscrita em cada ser: na qual ele é feito para a alegria e não para o sofrimento. Viver é uma miscelânea de sentimento, como dor, alegrias, tristezas, prazeres, euforia, amor, felicidade, sem parâmetros de balizamento. Nada disso é coletivo (é pessoal) e nem sequer transferível. Daí a felicidade tornar-se um episódio transitório e repetitivo.
Para grande maioria das pessoas, a vida é um processo de gozar o possível do corpo, reservando-se para a luz da fé as ocasiões de sofrimento inadiáveis. Nossa verdadeira natureza é a paz; a verdade; o amor; a felicidade;... São as crenças cegas que fazem nossa vida infeliz.
Neste sentido, vejamos o que diz o poeta Vicente de Carvalho (1866-1924) em seu Poema Velho Tema, no qual ele exprime essa arrigada condição humana: a incapacidade de sermos felizes por não valorizarmos o que a vida nos oferece.  
Só a leve esperança, em toda vida,
Disfarça a pena de viver, mais nada.
Nem é mais a existência, resumida.
Que uma grande esperança malograda
.
O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
È uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda vida

Essa felicidade que supomos,
Arvore milagrosa que sonhamos,
Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde estamos.

Felicidade, árvore frondosa de dourados pomos. Existe, sim, mas nós nunca a encontramos porque ela está sempre apenas onde nós a pomos, e nunca a pomos onde nós estamos.

CIXA PRETA - Roberto Lanza 
28/09/2016


O ENIGMA FUNDAMENTAL

    

Na nossa mais remota existência, como pequenos perversos e habitantes de um mundo de pensamentos imperfeitos e de vastas emoções, tramamos cometer dois terríveis crimes, que permaneceram registrados em nosso inconsciente, não porque eram importantes, mas são importantes porque permaneceram.
Tratam-se de desejos relacionados com o parricídio e com o incesto, cientificamente comprovados  pela práxis da clinica psicanalítica  e da ciência do inconsciente.
Essas experiências vividas inconscientemente pela criança, certamente não foram concretizada por impossibilidade de um frágil SER totalmente impotente. Por isso mesmo, não passaram de desejos de amor e ódio que devotamos aos nossos pais (não necessariamente aos pais biológicos), mas que determinam os nossos desígnios conscientes, bem como a força motriz que balizam os nossos destinos.
A nossa verdade, ou melhor, a verdade do desejo inconsciente é sempre um enigma a ser decifrado. No enigma, a verdade e o engano são complementares e não excludentes. A questão fundamental, na ótica da psicanálise, reside no fato de que somos dois sujeitos um dos quais nos é inteiramente desconhecido. Os nossos desígnios conscientes não são capazes de elucidar os enigmas presentes em nosso inconsciente, portador de uma forte carga afetiva muito poderosa e indelével, que norteiam os nossos destinos. 
Na clinica psicanalítica quem descobre os crimes é o próprio paciente, necessariamente pela relação transferencial com o analista. É fato que ninguém transforma ninguém, mas consegue transformar a si mesmo com a ajuda de outros, especialmente os profissionais da área da saúde mental..
Mas, trata-se de um processo longo e sinuoso na relação entre paciente e analista, denominada função transferencial,ao mesmo tempo em que revela a verdade do sujeito também a produz. Uma das propriedades de tal relação é a impressão de que o desejo do paciente é uma crença equivocada de que há um suposto saber do analista, não se tratando de algo já pronto e acabado, mas ela é, também, produtora do desejo.
Os especialistas da área consideram que só pode existir desejo do paciente a partir da clínica analítica e que não há desejo inconsciente antes do inicio da analise demandada pelo analisando. Isso pode patentear a condição humana de dependência de um Outro (Grande Outro) que garantiu a nossa sobrevivência e nos salvou do desamparo fundamental.
Nós, humanos, nascemos biologicamente incompletos e desprovidos dos instintos naturais, que guiam os outros animais. De início, nada dependeu de nós para depois tudo depender de nós.
Essa verdade fundamental que se manifesta no nosso cotidiano, não nos remete diretamente a ela, pois não se trata de uma verdade desvelada, mas dissimulada e distorcida. Trata-se, pois, de um enigma a ser decifrado. A teoria e prática da decifração constitui o objetivo da psicanálise. Claro que existem outras teorias e metodologias com tal objetivo.
Agora, cabe uma importante questão que deve ser formulada: por que nos sentimos culpados daquilo que não cometemos? E ainda mais: para esses crimes imaginários: por que a existência de tantas teorias e práticas voltadas para a decifração da nossa verdade inconsciente?
Interessante é que em nossa consciência não há traços desses desejos mencionados, mas seus efeitos perduram por toda vida. Por essa razão, o inconsciente é a nossa verdade, que funciona como indícios de algo desconhecido por nós mesmos.
No percurso de uma análise clínica não há receituário para a cura. É o próprio paciente que apresenta indicações equivocadas, daí as intervenções do analista na busca de desfazer as ambiguidades, não para eliminá-las, por ser impossível, mas no sentido de aliviar os sintomas e facilitar a continuidade do processo de cura do paciente. Interessante é que a ambiguidade está ligada à verdade do sujeito de forma necessária e não no sentido oposto. Somos nós que construímos e desatamos nós.
O caráter indicial de nossa historia oculta aponta para um passado arcaico e pelo que são em si mesmo. Essa persistência, por se manifestar mascarada pelos sintomas, não é devido a importância desses registros, mas possivelmente pela sua desimportância. Os fatos minúsculos é que são portadores dos desejos inconscientes e não os grandes acontecimentos de nossas vidas. Não devemos tentar simplificar as questões complexas e sim lidar com as complexidades de forma simples. Assim, o psicanalista opera como suspeito e não com boa fé.
Como a verdade resiste à significação, mas não cessa de insinuar sua emergência, o inconsciente teima em se ocultar e só se oferece dissimuladamente em nossos sonhos e nas lacunas do nosso discurso consciente. Um dos pontos fundamentais da verdade psicanalítica é que ela só pode ser obtida recorrentemente, a partir do lugar definido pela relação transferencial analista / analisando que a verdade do desejo pode emergir. O inconsciente não se oferece nitidamente à escuta do psicanalista, considerado um suposto saber, suspeitando que nosso relato seja um enigma a ser decifrado, mas que sabe também que na fala do paciente há uma verdade embutida com o proposito de ser dita.
A verdade do desejo inconsciente é sempre sexual, no entanto é uma cobiça interditada. São Paulo nos revela que as leis sagradas existem porque existe o pecado. A partir da Lei “não cobices” nos remete ao pecado.
Na clinica não temos de um lado o analista-investigador” decifrando a verdade paralelamente com o “paciente-culpado”oferecendo pistas falsas ao analista na tentativa de sanar os indícios do seu crime. Quem descobre o crime é o próprio paciente, desde que haja uma relação com o analista. Parece que se trata de uma condição necessária, segundo Freud. .
De nada adiantaria ao analista desvelar essa verdade já pronta, porque ela não é externa ao paciente, mas sim na relação que mantêm com o analista. Essa verdade não é algo externo com um dado que poderia ser encontrado, mas ela não cessa de se manifestar através dos sintomas e queixas do paciente. Expulsar para fora os conflitos inconscientes é uma das funções do ego.
No tratamento psicanalítico, a experiência dialógica levada até as suas ultimas consequências, nos alça de mundo subterrâneo de repetição paralisante de morte para a saída criativa da vida.
Para tanto, é importante que o paciente tenha coragem de se rever, respeitando um dos maiores preceitos da psicanalise que é: “a recusa em tamponar a brecha que existe entre o sujeito e a sua verdade”.
A verdade do desejo inconsciente só pode ser desvelada para viabilizar o desenvolvimento do sujeito humano através da linguagem. A psicanalise, como ciência do inconsciente, indica que somos seres de linguagem e é somente através dela que se viabiliza a verdade do desejo humano, dai o poder das palavras.
Texto extraído do livro A INTERPRETAÇÃO DOS SONHOS de autoria de Luiz Alfredo Garcia-Roza, Editora Jorge Zahar.
CAIXA PRETA - Roberto Lanza 
28/09/2016 

domingo, 15 de novembro de 2015

ENCONTROS E DESENCONTROS



No âmago do ser humano há uma fonte que nutre a fantasia de que em algum lugar alguém está nos esperando sem nem saber que a gente existe e, no entanto, pensando em nós com se fôssemos “almas gêmeas”.
Na realidade, o que esperamos deste encontro? As artes, as músicas, os mitos, as lendas, etc. parecem que vêm atestando tal condição. Somos realmente peregrinos na busca de algo intimamente relacionado com a plenitude, para nos sentirmos completos e inteiros.
Infeliz daquele que ignora os riscos e as possibilidade de encontrar pela vida alguém, acreditando que haverá plenitude desse encontro. Haverá sim um encontro, mas será de duas faltas. A sua e a do outro. Se não for percebido isso o perigo é maior que da ilusão e vem logo a desilusão..
Estar inteiro é assumir-se como ser humano saudavelmente independente. Seja, portanto, um ser inteiro antes de ser apenas a metade de um casal. Eu gosto de dizer que casado é feito de dois inteiros e não de duas metades. Somente um ser inteiro pode dizer que ama e é amado. Por que ser apenas metade se você é um individuo e seu parceiro (a) também é outro?
Afinal, querer satisfação plena todo mundo quer. Mas abrir mão de si pelo outro é impossível e pouco recomendável. O justo seria tentar ser fiel ao próprio desejo, mas deixando de ter certo cuidado com a forma de lidar com isso. Afinal orientar por uma ética mais solidária talvez seja a saída. Tentar levar as coisas de tal modo que, sendo fieis ao próprio desejo, não esqueçamos que o outro existe e que esta alteridade deve ser considerada. Isso é difícil, mas não impossível. Afinal, que graça teria se na vida fosse tudo muito fácil?
“É difícil ao homem enfrentar-se e encontrar-se a si mesmo. Avido de exterioridade, sua avidez o conduz ao Vazio. E, fugindo ele de si mesmo encontra-se com a tortura da imensidão de coisas que se abrangem nos sentido”. (Da Ordem 2,10,30).
E ainda:
“Por que se dispersa fora? Começou a entregar seu coração ao exterior e perdeu-se a si mesmo. Quando o homem, por amor a si mesmo, entrega seu coração às coisas de fora, perde-se na fluidez dessas coisas e, de certo modo, dissipa prodigamente suas forças. Esvazia-se de si. Despedaça-se”. (Sermões 96,2)
Como podemos entender tais pensamentos filosóficos?
“Ao Ego, será sempre impossível a plenitude! Como “filho legítimo” da Grande Separação, do surgimento do “eu separado”, do Adão (que vem do Sânscrito: adhi – aham – “primeiro eu”), sempre lhe faltara algo – pois ele sofre a perda da identidade com o todo, desde que se diferenciou dessa matriz primordial, ontológica, representada inicialmente no psiquismo individual pelo útero materno e, logo após, pela relação simbiótica e edipiana com a figura materna. E em busca desse Algo ele tece desde o nascimento uma teia de incontáveis desejos na esperança inconsciente de sustentar-se sobre o imenso vazio existencial, num desespero inaudível de busca de sobrevivência e auto justificativa para o devir dessa existência.
Ele (o ego) se esforça laboriosamente através da vigília e do sono para satisfazer a cada um dos seus desejos, ora justificando-os como instintos naturais e intransponíveis, ora vestindo-os em trajes mais nobres, como algum bem social  moral, cientifico ou até mesmo espiritual”.(Professor Afonso Celso L. Wanderley.)
Por outro lado, existe uma espécie de lei inscrita em cada ser: na qual ele é feito para a alegria e não para o sofrimento. Viver é uma miscelânea de sentimento, como dor, alegrias, tristezas, prazeres, euforia, amor, felicidade, sem parâmetros de balizamento. Nada disso é coletivo (é pessoal) e nem sequer transferível. Daí a felicidade tornar-se um episódio transitório e repetitivo.
Para grande maioria das pessoas, a vida é um processo de gozar o possível do corpo, reservando-se para a luz da fé as ocasiões de sofrimento inadiáveis. Nossa verdadeira natureza é a paz; a verdade; o amor; a felicidade;... São as crenças cegas que fazem nossa vida infeliz.
Neste sentido, vejamos o que diz o poeta Vicente de Carvalho (1866-1924) em seu Poema Velho Tema, no qual ele exprime essa arrigada condição humana: a incapacidade de sermos felizes por não valorizarmos o que a vida nos oferece.  


Só a leve esperança, em toda vida,
Disfarça a pena de viver, mais nada.
Nem é mais a existência, resumida.
Que uma grande esperança malograda
.
O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansioa e embevecida,
È uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda vida

Essa felicidade que supomos,
Arvore milagrosa que sonhamos,
Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde estamos.

Felicidade, árvore frondosa de dourados pomos. Existe, sim, mas nós nunca a encontramos porque ela está sempre apenas onde nós a pomos, e nunca a pomos onde nós estamos.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

OS BOICOTES DO EGO

Para nós chegarmos ao ser, “eu sou”, esse sou ganha autenticidade quando ele é energizado com um constante estar. O estar é a mola mestra, é a mola essencial, central para um legítimo ser. Nós temos que ter essa ótica bem definida, com identificação plena com os objetivos bem situados e bem selecionados, sempre reciclados e observados. Todas as vezes que nós queremos transformar o estar num ser, entramos em frustração.

É necessário aprender a sair da frente do espelho e ver o outro semelhante com os olhos da alma. Quem não “sabe dizer eu”,   nunca saberá dizer “você”. Infeliz daquele que não sabe que não sabe e nem sequer quer saber. Assim, ele nunca saberá se responsabilizar pela sua vida. Ora! Não se vive da vida, vive-se a vida. 

A visão do mundo com os olhos do ego é cheia de equívocos e um depósito de mal entendidos, uma vez que o ego  é uma criação do imaginário humano e não é senhor em sua própria casa, como disse Freud. Além disso, ele é um excelente especialista em boicotar a realidade com muita habilidade. 

O estar no mundo de cada um, é apenas uma forma de perceber a realidade de acordo com  sua realidade psíquica. Quantos engodos! Quantos equívocos!

        A fantasia é que é responsável pelo enquadramento da relação do sujeito com a realidade: sua janela para o mundo. É dela que o sujeito tira, ilusoriamente, a segurança do que fazer diante das situações que a vida se lhe apresenta. O sofrimento leva o sujeito a “pro – curar”  tratamento apropriado, visando tirá-lo da sua naturalidade inconsciente e da sua  artificialidade consciente, para a assertividade existencial, o que exige um percurso longo e sinuoso.

CAIXA PRETA Roberto Lanza
01/09/2015

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

APARELHO PSIQUICO


Freud durante suas pesquisas sobre a formação do aparelho psíquico, ele concluiu que o aparelho psíquico não é psíquico, ele é um aparelho de linguagem. Ele  não concebe um aparelho de linguagem como constituído na relação com o mundo, mas como construído na relação com outro aparelho de linguagem.

O aparelho de linguagem forma-se aos poucos, elemento por elemento, na relação com o outro aparelho de linguagem
, e é apenas por referência a esse outro que ele funciona. É importante que se entenda esse “outro” como sendo outro aparelho de linguagem e não como sendo o mundo. O mundo, por si só, não é capaz de produzir um aparelho de linguagem e é, apenas, no seio de uma pluralidade de aparelhos de linguagem que um novo aparelho de linguagem poderá surgir.

É, portanto na relação com outro semelhante, enquanto falante, que o aparelho de linguagem se forma, e não na relação enquanto objeto do mundo. Mesmo o outro, enquanto objeto do mundo, só se constitui como objeto a partir da linguagem, a qual cria o denominado "campo da realidade". Todos
nós nascemos totalmente analfabetos. 

Na realidade o mundo não tem cor, não tem cheiro, não tem sons e nem sequer sabores. São os nossos cinco sentidos que transformam as combinações químicas em sabores e cheiros, as vibrações sonoras em sons e ruídos e os espectros da luz o cenário físico do mundo exterior.


Portanto, não é a coisa que fornece a significação do objeto. Por exemplo: esse vinho é muito saboroso..Não se trata, pois, de uma auto-enunciação pela coisa. O que a coisa fornece são elementos sensíveis, impressões, que somente adquirirão unidade de objeto a partir da linguagem, mais especificamente da relação que esses elementos mantêm com a representação-palavra. Sem essa articulação representação-coisa e representação palavra não haverá apenas aparelho de linguagem, como também não haverá aparelho psíquico. O animais se comunicam mediante uma linguagem apropriada fornecida plea natureza.

A representação-objeto não é, uma representação icônica da coisa, não é semelhante à coisa, mas apenas
índice da coisa. Seu significado é dado pela representação-palavra e não pela coisa. Isto quer dizer que as representações, sejam elas representação-palavra ou representação-objeto, remetem-se umas às outras de tal maneira que formam entre si uma trama ou uma rede de articulações, de signos / signos que na função significante remetem a signos e não a coisas.

É impossível, portanto, imaginarmos o aparelho psíquico como algo que se esgota em si mesmo. Não se trata de um aparelho já pronto que, em seguida, entra em relação com o outro e com o mundo. O aparelho psíquico não é em-si, é para-si, e é nessa relação ao outro que se constitui consciência de si.

A verdade porém é que sua concepção do aparato psíquico encaixa-se perfeitamente com a tese fundamental de Hegel de que o desejo do homem é o desejo do outro, ou, se preferirmos, que o desejo humano é desejo de desejo. Essa dependência fundamental do aparato psíquico para com a linguagem coloca uma questão: a do próprio estatuto do aparelho psíquico. Assim o aparelho psíquico é um aparelho simbólico e não um aparelho psicológico.

Por outro lado, não há aparelho psíquico sem memória, não sendo entendida como uma faculdade ou uma propriedade deste aparato, não é algo que surge depois do aparato já constituído, mas algo que é formador do próprio aparato. Não é o aparelho psíquico que é pré-condição para que se forme o aparato psíquico e sim a linguagem Sem a linguagem a pessoa desaparece e o mundo também.

As opiniões e desejos de outras pessoas fluem para dentro de nós através do discurso. Nesse sentido, podemos interpretar o enunciado de Lacan de que o inconsciente é o 
discurso do OUTRO (Grande outro - pais, família, parentes, instituições, Deus, religião, etc...) ou melhor dizendo: inconsciente está repleto da fala de outras pessoas, das conversas de outras pessoas, e dos objetos, aspirações e fantasias de outras pessoas (na medida em que estes são expressos em palavras). Assim, vivemos num mundo bastante enigmático

CAIXA PRETA Roberto Lanza
21/08/2015

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

O LUGAR DO SER


Desenho de Roberto Lanza

Existem pessoas que percorrem o mundo Inteiro  na procura de si mesmo (André Luiz). 

O homem é um animal, consciente de si mesmo, que transcende toda outra forma de vida, mesmo estando na natureza, sendo obrigado a aceitar seus mandamentos e contingências. Ele transcende a natureza porque lhe falta a inconsciência que torna o animal uma parte uno com a natureza,  residência de o próprio SER.
Como na natureza tudo se repete sem qualquer deliberação, o homem se rebela e se defronta com o assustador conflito de ser prisioneiro da natureza e, no entanto, ser livre em seus pensamentos e, ao mesmo tempo, ser uma “curiosidade” da natureza, não estando cá e nem lá. A consciência de si mesmo tornou-o um estranho no mundo em que vive. Sendo um ser apartado da natureza, ele busca fora de si mesmo o resgate da sua própria essência. .   .
Dentro do enfoque antropológico, ao fazer uma ponderação  sobre constatações e sentimentos de uma grande massa delirante da população humana terrena, podemos extratar um profundo sentimento de incompletude. Desta forma, o ser humano é profundamente afetado pela sensação de incompletude. 
O desejo de livrar-se do desconforto provocado por tal extrato, sempre direcionado para o atraente campo da plenitude, pode tornar-se um estado mórbido, diante de uma tentativa de querer evadir-se da incompletude. 
Tal tentativa induz o indivíduo a buscar fora de si mesmo uma nova roupagem para sua alienação existencial, de forma egoística, na busca da almejada plenitude. Estamos constantemente em busca de uma nova versão de nós mesmos. Afinal, como podemos ter uma vida plena, criativa e dinâmica que desejamos?
Eu, pessoalmente, já fui acometido, inúmeras vezes, por uma sensação de existirem duas pessoas habitando dentro de mim, uma parte em oposição à outra. Pior ainda, mesmo em oposição,, uma parte permanecia procurando outra parte perdida para reconciliação. Mas, tal procura era sempre em vão.  Por essa razão, sempre procurei encontrar, dentro de mim mesmo, algo faltante. Nunca havia pensado que dentro de mim existiria outro de mim mesmo, ao qual eu era mais apegado sem o saber. 
Esse algo me parecia uma espécie de vazio que precisava ser preenchido pela pluralidade de bens e valores agregados no mundo exterior. Existia em mim um pressentimento de que era muito temerário pesquisar o desconhecido e, ao mesmo tempo, colocar em duvida o já sabido e ainda não conhecido.  
Enquanto mais procurava explicação para tal estranheza, mais ampliava a dimensão  do desconhecido. No entanto, sempre manifestava-se dentro de mim algo que eu buscava incessantemente, mas não encontrável. Algo que parecia não ter princípio e nem fim, semelhante ao "trem da esperança" que anda viajando sem estação de chegada. Permanecer na ignorância sempre era a solução. mais cômoda.   
A Filósofa Marilena Chauí, em Convite à Filosofia, revela-nos que: 
  • "Ignorar é não saber alguma coisa. A ignorância pode ser tão profunda que sequer a percebemos ou a sentimos, isto é, não sabemos que não sabemos, não sabemos que ignoramos. Em geral, o estado de ignorância se mantém em nós enquanto as crenças e opiniões que possuímos para viver e agir no mundo se conservam como eficazes e úteis, de modo que não temos nenhum motivo para duvidar delas, nenhum motivo para desconfiar delas e, consequentemente, achamos que sabemos tudo o que há para saber [...]. A incerteza é diferente da ignorância porque, na incerteza, descobrimos que somos ignorantes, que nossas crenças e opiniões parecem não dar conta da realidade, que há falhas naquilo em que acreditamos e que, durante muito tempo, nos serviu como referência para pensar e agir. Na incerteza não sabemos o que pensar, o que dizer ou o que fazer em certas situações ou diante de certas coisas, pessoas, fatos, etc. Temos dúvidas, ficamos cheios de perplexidade e somos tomados pela insegurança"..
Por outro lado, eu era dominado por um chamamento compulsivo para o escapismo ou quietismo para permanecer na zona de conforto sem nada querer arriscar na direção do desconhecido. Para tanto, era necessário negar a realidade, evitando o confronto com a minha própria verdade inconsciente que ,  por estrutura, sempre resistia à significação.
  • "Quando digo o que eu sou, de alguma forma, eu o faço para também dizer o que não sou. O não ser está no avesso do ser, assim como o tecido só é tecido porque há um avesso que o nega, não sendo outro, mas complementando-o. O que não sou também é uma forma de ser. Eu sou eu e meus avessos [..]. Eu procuro por mim tal qual o artesão procura sua arte escondida nos excessos da matéria bruta de seu mármore. [...].Que mundo é este que facilita os encontros e nos torna estranhos a nós mesmos”. (Padre Fábio de Melo) 
Realmente, eu nem sequer imaginava que existia dentro de mim uma instância inconsciente que sequestrava o meu SER e me colocava numa masmorra psicológica, cobrando-me um doloroso resgate. Como prisioneiro, eu era subordinado aos caprichos do sequestrador que comandava os meus sentimentos, as  minhas condutas, e o meu  modo autônomo de viver. Jamais poderia imaginar a supremacia dessa obscura autoridade, com tamanho poder de ingerência e de intrusão na minha condição existencial.Tudo me conduzia para uma intrigante estranheza. 
De acordo com Lacan, os seres  humanos não passam de meros epifenômenos nas sociedades em que pertencem, em razão de ser determinado por um processador  cerebral de informações recebidas dos órgãos sensoriais. de forma aleatória e autônoma..
Em contrapartida, as emoções tais como: angústia, ansiedade, nostalgia de escolhas perdidas, sentimentos de culpa, medos, frustrações, privações. etc. Enfim, perturbações e conflitos intrapsíquicos de toda ordem, que se manifestavam sob a forma de sintomas psicossomáticos, com intensidades e frequências variáveis,situacionais no tempo. 
No entanto, eram os sintomas que bancavam a minha aparente segurança existencial num contexto de normalidade, comum aos  meus relacionamentos familiares, profissionais e sociais. 
Tais sintomas, de acordo com a minha estruturação psíquica seguia-se pela via simbólica ou anatômica para alívio dessas tensões emocionais, pois, como disse Freud, “o aparelho psíquico não tolera o desprazer; tem de desviá-lo a todo o custo, e se a percepção da realidade acarreta desprazer, essa percepção – isto é, a verdade – deve ser sacrificada”. 
No entanto, para que se possa entender esse processo, a forma como as questões conflitivas de desprazer são processadas, faz-se necessário a busca do autoconhecimento, incluindo-se ajuda de profissionais da área da saúde mental. 
Quando, pela primeira vez há 20 anos, procurei um Psicólogo para tratamento psicanalítico, inicialmente, numa lógica matemática eu levava para cada sessão uma série de textos, argumentos escritos, desenhos mirabolantes, esquemas mágicos, explicações em cima e de outras explicações, aporias de definições, etc. O analista sempre me dizia: nada disso me interessa. Eu quero que você  traga-me, apenas, o seu inconsciente. Na verdade, eu já tinha noção  da existência do inconsciente,  como conteúdo mental e  anatômico, mas desconhecia que ele era a minha verdade.
A causa primeira de qualquer pessoa é a sua condição de filho, fruto do desejo de seus pais. Isso ele irá carregar para o resto de sua vida. De início, o filho é objeto de desejo dos pais. O desejo é necessariamente carência. A relação com o mundo é de escolhas e perdas de objetos, ou seja, relação objetal, o que significa que para se constituir como “eu”, a consciência precisa da alteridade com o que está fora e do exterior que está introjetado dentro de si, pela linguagem.  
De acordo com Lacan, o corpo é sobrescrito//superado pela linguagem. O corpo é subjugado; “a letra mata” o corpo. O vivente – nossa natureza animal – morre e a linguagem surge em seu lugar, revivendo-nos. As diferentes partes do corpo tomam sentidos determinados pela sociedade e pelas figuras paternas. A coisa real precisa  desaparecer para poder ser representada. Dai o escritura mental passa a representar o corpo e o mundo para cada indivíduo. O homem desprovido da linguagem desaparece e o mundo exterior também;
Segundo Freud, de início o homem só tem de homem o status de animal vivo. Como tal não passa de um ser de necessidades. Para conquistar a sua identidade, será preciso que se torne ser de desejo, isto é consciência desejante ou consciência de si.
Essa relação, apesar de imaginária, é necessária para que os desejos se inscrevam, melhor dizendo: o desejo dos pais e o próprio desejo do filho, pois não há possibilidade da existência da criança sem o olhar desejante da mãe. Mas a criança pode ver os olhos dela e, no entanto não consegue entender o seu olhar e nem sequer qual o seu desejo, o que se torna enigmático, uma vez que se trata de consciência de objeto, mas não é consciência de si mesma. Absorvida na contemplação do objeto, ela nele se perde e nele se aliena. Ela é, literalmente, uma consciência sem eu.
Como o desejo humano é não natural, ele só pode desejar outro desejo que também é não natural. O desejo humano é, pois desejo de outro desejo.
É o desejo que vai operar a oposição entre consciência-de-outra-coisa e consciência-de-si, entre o não eu e o eu. Só há eu no e pelo desejo. O desejo se revela sempre como meu desejo, enquanto o conhecimento revela o objeto, o desejo revela o eu.
Por isso mesmo o ser humano é indubitavelmente um ser de desejo que deseja o desejo do outro, mas sem ter o controle do outro desejo. Tudo isso torna o desejo do sujeito enigmático e sem controle. Querer satisfação plena todo mundo quer. Mas abrir mão de si pelo outro é impossível e pouco recomendável. O justo seria tentar ser fiel ao próprio desejo, mas tomando um certo cuidado com a forma de lidar com isso. Afinal orientar por uma ética mais solidária talvez seja a saída. Tentar levar as coisas de tal modo que, sendo fiéis ao próprio desejo, não esqueçamos de  que o outro existe e que esta alteridade deve ser considerada e respeitada. Isso é difícil, mas não impossível. Afinal, que graça teria se na vida fosse tudo muito fácil?
Finalizando, o que o sujeito do desejo inconsciente é levado a descobrir? Inicialmente, como diz Lacan, que “não existe outro bem a não ser o que pode servir para pagar o preço pelo acesso ao desejo”. (Dicionário Psicanalítico Larousse – Artes Médicas).

CAIXA PRETA Roberto Lanza
13/08/2015




domingo, 17 de maio de 2015

ILUSÃO DE COMPLETUDE


Desenho de Roberto Lanza
ATÉ ONDE PODEMOS FICAR OU AVANÇAR? 





No Evangelho de Marcos 8.34-35 ele escreve o que Jesus Cristo disse: "E chamando a si a multidão, com os seus discípulos, disse-lhes: Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me" [...} Porque qualquer que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, mas, qualquer que perder a sua vida por amor de mim e do evangelho, esse a salvará.

Permanecer sobre a ponte é o lugar do "porto seguro";  das certezas, da procrastinação; da "esperança milagrosa" e do "espera - ser". Seguir para o outro lado da ponte é lançar-se para a vida, é arriscar-se nas alturas e nas incertezas: é ter coragem de se rever para defrontar com a sua própria verdade de SE  fundamentalmente desamparado. Nesse sentido, torna-se necessário lançar-se na angústia existencial.

Querer satisfação plena todo mundo quer. Mas abrir mão de si pelo outro é impossível e pouco recomendável. O justo seria tentar ser fiel ao próprio desejo, mas deixando entretanto de ter um certo cuidado com a forma de lidar com isso. Afinal orientar por uma ética mais solidária talvez seja a saída. Tentar levar as coisas de tal modo que, sendo fiéis ao próprio desejo, não esqueçamos que o outro existe e que esta alteridade deve ser considerada. Isso é difícil, mas não impossível. Afinal, que graça teria se na vida fosse tudo muito fácil?

Amarga realidade é a de quem fecha os olhos para os riscos e as possibilidades de encontrar pela vida alguém, acreditando que haverá plenitude desse encontro. Haverá sim um encontro, mas será de duas faltas. A sua e a do outro. E se não se pode ver isso, o perigo é maior porque da ilusão vem logo a desilusão, lógico. Eis aí o horizonte da incompletude. 

A vida é a arte das escolhas, dos sonhos, dos desafios e da ação. Em toda perda há um ganho. Em todo ganho há uma perda. Quem escolhe o que perder, perderá o que não escolheu. Não apague a sua estrela para ficar se exibindo para ser notado pelo brilho do olhar dos outros.

Se a pessoa se sente “escolhida” (veja COMPLACÊNCIA EXCESSIVA neste Blog) permanece insatisfeita, por não ter feito a escolha que desejaria, ficando engessada na sua capacidade de dizer “não” para aquela posição existencial.  Como a vida é uma metáfora de quem você aparenta que é, a negação da sua verdade  inconsciente se manifesta sob a forma de decepção e de insatisfação através dos sintomas. Assim, a pessoa permanece no cativeiro sequestrada por si mesma. Acontece que o sequestrador (o outro de si mesmo) cobra o resgate (na natureza ninguém fica impune por não querer ser a si mesmo) colocando a pessoa angustiada e frustrada, que vai crescendo cada vez mais como uma bola de neve, em razão do desconhecimento crônico de si mesma. .É ai que reside a alienação existencial.

Pior ainda, a pessoa fica na expectativa de uma solução mágica, gerando ansiedade e frequentemente imobilizada diante dos desafios da vida cotidiana, em razão do estado de assujeitamento a quase tudo, por ignorar a sua própria verdade e o próprio ser. Nunca fique na “esperança milagrosa” de que o mundo vai mudar para melhorar a sua vida. O outro lado da ponte é lugar onde se localiza o vazio existencial, o qual cabe a cada um preenchê-lo mediante a contabilização das suas realizações pessoais. Ninguém nasce com receituário e bula para orientar o seu destino. Conquistar o seu estar no mundo é tarefa penosa de cada um.

O que todo mundo precisa é do resgate do próprio SER mediante a libertação das amarras de sua alienação existencial na linguagem e, inconscientemente, nos fortes laços afetivos indestrutíveis e profundamente enraizados que mapearam a sua realidade psíquica..Somos "plugados" demais ao nosso romance familiar vivenciados na pequena infância.

Vejamos a seguinte poesia:

Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
E quando o navio larga do cais
E se repara de repente que se abriu um espaço
Entre o cais e o navio,
Vem-me, não sei por que, uma angústia recente.
Uma névoa de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira janela onde a madrugada bate,
E me envolve como uma recordação duma outra pessoa
Que fosse misteriosamente minha.

PESSOA, Fernando. Ode MARÍTIMA. O eu profundo e os outros eus. Rio de Janeiro; Nova Fronteira.
  
Essa pessoa misteriosamente minha é na verdade uma falta primordial, protótipo da angústia e da saudade: falta que não é do outro, mas do próprio ser, segundo o Psicanalista Lacan. Quer você entenda quer não,  o ser humano é estruturalmente um SER de falta de presença constante. Enquanto viver sempre estará faltando-lhe alguma coisa. Somos seres recorrentes à nossa originalidade. 

Como falta e desejo são coexistentes, no lugar da falta surge o desejo. Desejo que, é caracterizado por uma "presença de uma ausência”; é a “nostalgia de algo perdido”, segundo Lacan.


Aqui cabe a seguinte citação: O desejo é a própria essência do homem, ou seja, o esforço pelo qual o homem se esforça por perseverar no seu ser". (Baruch Spinoza).

“Esse algo ou objeto perdido” quer dizer, segundo Lacan: Outro (Grande outro primordial). Primeiro objeto de amor da criança, ou seja – quem exerceu a função materna (geralmente a mãe biológica). No entanto, quem tem tudo a tempo e a hora nada tem a desejar. Se esse elo não for rompido nada faltará ao sujeito e em contrapartida não haverá desejo. A falta é uma condição essencial para o surgimento do desejo. Caso contrário, seremos  um ser desprovido de motivação para viver

Eis que o desejo torna-se a grande aventura humana! Mas, para vivermos na civilização torna-se necessário suportar a sua insatisfação (sublimação), como o preço que ele próprio se impõe. É o preço que se paga por uma realização possível. Da onipotência da satisfação, o sujeito passa para a possibilidade da realização.(Ver artigo publicado neste Blog denominado “UMA QUESTÃO DE VIDA OU MORTE”).

Na busca do elo perdido, o homem se aventura a relacionar-se. Tudo que encontra, porém, é a incerteza, a falta de garantias. De nada adiante reeditar o Grande Outro, pois ele não pode oferecer o Bem Supremo. Entregar-se a esse Outro é o que ele tenta fazer, sustentando ainda a ilusão de que se tudo lhe der, correspondendo ao que imagina ser esperado dele, do Outro tudo terá. Ou seja, sendo ele tudo o que o Outro espera só para ele o Outro existirá também. Não é preciso ter horror da falta e nem da obscura autoridade do Outro, porque o Outro doa amor e não requer prova de amor do filho, Mas ele permanece na condição de que ele é que é o agente responsável para garantir tal reciprocidade, que não passa de uma fantasia. para suprir o desejo do Outro..Tal suposição torna-o o objeto que complementa o Outro. 

Pura repetição infantil, em que o sujeito ansiava pelo puro reconhecimento de seu desejo, para ser o objeto único de desejo do Outro. 

Mas quem não quer ser reconhecido? Entretanto, será apenas no suporte da insatisfação que certo reconhecimento será possível ao desejo e ao sujeito: Se antes via apenas o Outro, e, portanto a si mesmo, agora deve ver o outro, aquele que desvia os olhares do Outro e dele mesmo, fazendo-se conhecedor de uma falta que não se completa nunca. Ao abrir Mão do reconhecimento absoluto, o sujeito ingressa numa outra via: a da possibilidade de existir, pois de modo diverso, o reconhecimento de um implicaria na morte do outro.

Assim, o ser humano é um ser dividido numa busca constante da sua outra metade supostamente perdida. Pura ilusão! Não há possibilidade de sobrevivência sem o todo, sem o uno. Conviver com a dualidade é uma condição de vida ou morte.Eu sou eu mesmo e nada me falta.O que existe na realidade é a Fantasia da Separatividade

CAIXA PRETA Roberto Lanza
17/05/2015