Freud durante suas pesquisas sobre a formação do aparelho psíquico, ele concluiu que o aparelho psíquico não é psíquico, ele é um
aparelho de linguagem. Ele não concebe um aparelho de linguagem como
constituído na relação com o mundo, mas como construído na relação com outro
aparelho de linguagem.
O aparelho de linguagem forma-se aos poucos,
elemento por elemento, na relação com o outro aparelho de linguagem, e é apenas
por referência a esse outro que ele funciona. É importante que se entenda esse
“outro” como sendo outro aparelho de linguagem e não como sendo o mundo. O
mundo, por si só, não é capaz de produzir um aparelho de linguagem e é, apenas, no
seio de uma pluralidade de aparelhos de linguagem que um novo aparelho de
linguagem poderá surgir.
É, portanto na relação com outro semelhante, enquanto
falante, que o aparelho de linguagem se forma, e não na relação enquanto objeto
do mundo. Mesmo o outro, enquanto objeto do mundo, só se constitui como objeto
a partir da linguagem, a qual cria o denominado "campo da realidade". Todos nós nascemos totalmente analfabetos.
Na realidade o mundo não tem cor, não tem cheiro, não tem sons e nem sequer sabores. São os nossos cinco sentidos que transformam as combinações químicas em sabores e cheiros, as vibrações sonoras em sons e ruídos e os espectros da luz o cenário físico do mundo exterior.
Portanto, não é a coisa que fornece a significação do objeto. Por exemplo: esse vinho é muito saboroso..Não se trata, pois, de uma auto-enunciação pela coisa. O que a
coisa fornece são elementos sensíveis, impressões, que somente adquirirão
unidade de objeto a partir da linguagem, mais especificamente da relação que
esses elementos mantêm com a representação-palavra. Sem essa articulação
representação-coisa e representação palavra não haverá apenas aparelho de
linguagem, como também não haverá aparelho psíquico. O animais se comunicam mediante uma linguagem apropriada fornecida plea natureza.
A
representação-objeto não é, uma representação icônica da coisa, não é semelhante
à coisa, mas apenas índice da coisa. Seu significado é dado pela
representação-palavra e não pela coisa. Isto quer dizer que as representações,
sejam elas representação-palavra ou representação-objeto, remetem-se umas às
outras de tal maneira que formam entre si uma trama ou uma rede de
articulações, de signos / signos que na função significante remetem a signos e
não a coisas.
É impossível,
portanto, imaginarmos o aparelho psíquico como algo que se esgota em si mesmo.
Não se trata de um aparelho já pronto que, em seguida, entra em relação com o
outro e com o mundo. O aparelho psíquico não é em-si, é para-si, e é
nessa relação ao outro que se constitui consciência de si.
A verdade porém é que
sua concepção do aparato psíquico encaixa-se perfeitamente com a tese
fundamental de Hegel de que o desejo do homem é o desejo do outro, ou, se
preferirmos, que o desejo humano é desejo de desejo. Essa dependência
fundamental do aparato psíquico para com a linguagem coloca uma questão: a do
próprio estatuto do aparelho psíquico. Assim o aparelho psíquico é um aparelho
simbólico e não um aparelho psicológico.
Por outro lado, não
há aparelho psíquico sem memória, não sendo entendida como uma faculdade ou uma
propriedade deste aparato, não é algo que surge depois do aparato já
constituído, mas algo que é formador do próprio aparato. Não é o aparelho
psíquico que é pré-condição para que se forme o aparato psíquico e sim a linguagem Sem a linguagem a pessoa desaparece e o mundo também.
As opiniões e desejos de outras pessoas fluem para dentro de nós através do discurso. Nesse sentido, podemos interpretar o enunciado de Lacan de que o inconsciente é o discurso do OUTRO (Grande outro - pais, família, parentes, instituições, Deus, religião, etc...) ou melhor dizendo: o inconsciente está repleto da fala de outras pessoas, das conversas de outras pessoas, e dos objetos, aspirações e fantasias de outras pessoas (na medida em que estes são expressos em palavras). Assim, vivemos num mundo bastante enigmático.
CAIXA PRETA Roberto Lanza
21/08/2015