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quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

AS APARÊNCIAS


A palavra “fenômeno” vem do grego phainein” que quer dizer mostrar-se. Mas, normalmente, entendemos por fenômeno aquilo que aparece e que se mostra quase sempre de modo incomum, extraordinariamente. Já o verbo phainestai” na voz ativa, significa vir à luz, tornar-se claridade, fazer aparecer. Mas, na forma reflexiva, indica uma ação que não é nem ativa e nem passiva, escondendo um modo de ser próprio da ação medieval: a dinâmica de tornar-se e ser “a si mesmo”. As palavras phainestai e phainein (fenômeno) têm origem de phos, que significa luz, incandescência. Portanto,  o verbo phainestai significa: luzir, ser incandescência da claridade, sendo neste sentido chamado em latim de evideri” , de onde vem a palavra “evidência”. Assim, é neste sentido de “é-vidência” (ser vidência) de mostrar-se presente, de aparecer, que devemos entender a palavra “fenômeno”. Fenômeno é, pois, o que assim se mostra a partir de si a si mesmo.
Aqui é necessário se precaver contra a tendência, em uso, de entender o fenômeno como “aparência” no sentido de exterioridade, isto é, “fachada” externa de algo que está oculto atrás. Assim, como a cor amarela dos olhos é sintoma de hepatite, por não mostrar diretamente a inflamação do fígado, não é fenômeno. Por exemplo: fumaça é sinal de fogo, mas não se apaga o fogo apagando a fumaça.
O modo de ser da “é-vidência” do fenômeno é diferente do da aparência. No fenômeno a coisa é ela mesma que se apresenta, digamos “pessoalmente”, na claridade do seu ser. Neste sentido, a claridade do luar não é sintoma da lua, mas a lua ela mesma no seu aparecer. Os gregos, no entanto, em vez de “fenômeno” diziam também “Ón”, particípio do verbo “einai” que significa ser. “Ón” significa, literalmente, em sendo. Em português, substantivado temos então “o ente”. O ente é o ser.
Os gregos, portanto, consideravam o ente a partir da dinâmica do vir à luz, do aparecer. Assim, fenômeno e ente dizem o mesmo. Tudo que podemos chamar de “entidade” podemos chamar de “fenômeno”, só que, no uso corrente, por “o ente” entendemos como “coisa”, como algo estático; ao passo que por “fenômeno” entendemos o momento dinâmico da ação de aparecer. Daí a conotação de extraordinário, do incomum, na palavra “fenômeno”, na sua acepção usual.
Se entendermos assim tanto o fenômeno como o ente em seus sentidos originários, como incandescência da claridade no ser,  então podemos dizer que cada ente, cada fenômeno tem seu próprio modo de mostrar-se na verdade do seu ser. Quando um fenômeno não é respeitado no mostrar-se todo próprio da verdade de seu ser, de uma posição alheia ao próprio ente, ao próprio fenômeno, o aparecer do fenômeno, a sua “mostração” se torna defasada, desfocada. Em vez de a “coisa” ela mesma se apresentar na sua verdade, em vez de se revelar, é colocada sob a mira ou enfoque de uma outra causa.
O fenômeno é o que, a modo de incandescência da claridade, se mostra a partir de si a si mesmo na verdade do ser, cuja “mostração” deve ser respeitada com precisão, se não quisermos permanecer na “aparência”. Então, o fenômeno como vir à luz do ente ele mesmo, nele mesmo no seu ser, decai para o estado deficiente de “aparência” no sentido de “falsificação”, de “ser aparente”, de “fachada”, não autêntico e verdadeiro.  A nossa identidade psicológica, ou ego, ou ser social está ligada à personalidade (do latim – “persona” = máscara) e não ao nosso verdadeiro ser, caracterizando um estado de estar em evidência, de idolatria e até mesmo de mendicância afetiva, em busca de afirmação e de reconhecimento do seu valor pessoal através dos outros. A pessoa não se ré-conhece. Prefere ser reconhecida pelos outros.
Torna-se indispensável para o crescimento pessoal e o resgate do ser ou do ente, abrindo a vida para a criação e para a alegria de viver. Caso contrário, a pessoa permanece na alienação de si para consigo mesma, assim a pessoa ao invés de se apropriar do ente ela se torna doente.
Freud já dizia: “O ser humano não morre porque está doente. ele adoece para morrer”

Bibliografia: Estevão Tavares Bettencourt – Crença, religiões, igrejas e seitas. Coletânea de artigos publicados na revista O Mensageiro de Santo Antonio.

CAIXA PRETA
08/01/2015


quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

A complacência excessiva



            O Senhor Buda disse:
                            “Ensinai-vos a não crer simplesmente porque ouviste, mas, porque, em vossa consciência, acreditais no que ouvistes; agi, então, de conformidade com aquilo em que credes, e copiosamente”.
Doutrina Secreta, III, 401.

Nós seres humanos, temos o hábito de viver uma expectativa de algo misterioso relacionada com um devir. Isto é um sinal de que nada está indo bem conosco. Estamos sempre insatisfeitos, sempre faltando algo que geralmente nos atormenta, deixando-nos desassossegados. Temos ainda, em nosso âmago, uma sensação de que existe algo vivenciado, semelhante a um paraíso perdido. Temos ainda a sensação de que existirem duas pessoas habitando dentro de nós, com propósitos contrários. 
Somos criaturas em perfeita harmonia com a natureza. Cada um de nós traz consigo o material necessário para a realização pessoal. É tolice viver anulando nossas capacidades para valorizarmos as qualidades dos outros. Ninguém é melhor que ninguém, mas às vezes insistimos em acreditar nisso.
 Num mundo onde as imagens ditam os valores das pessoas, corremos o risco de esquecer nosso real valor por não sermos enquadrados nos padrões impostos como ideais. Frequentemente somos assombrados por uma mentalidade baixa que quer nos obrigar a aplaudir as qualidades dos outros e esquecer-se das nossas. Talvez seja por isso que vivem desacreditados da vida: perderam a identidade por querer ser aquilo que não é.
Há um pensamento popular que diz: “Eduque uma criança para ser feliz e não para vencer na vida. Pois assim, ela aprenderá a viver na busca de valores e da verdade, e não na busca de custos para as aquisições culturais, sociais, afetivas e patrimoniais”. Neste último caso, ela se sente excluída do mundo, confundindo coisas com valores e ainda sem referenciais para escolher suas próprias preferências.
É do conhecimento comum, que existem crianças muito amadas e muito protegidas pelos pais e, por outro lado, outras crianças muito maltratadas pelos pais. Na realidade existem diversas modalidades de criação paras as crianças, mas qualquer que seja a modalidade de criação assim influenciará no destino do futuro adulto. Freud dizia: “O adulto nada mais é do que o filho da criança que foi”,
Segundo prega a filosofia, quando crianças, estamos sujeitos à duas decepções:
"A de que os seres, as coisas, os mundos maravilhosos não existem de verdade e a de que os adultos podem dizer falsidades e nos enganar. Essa dupla decepção pode acarretar dois resultados opostos: ou a criança se recusa a sair do mundo imaginário e sofre com a realidade como alguma coisa ruim e hostil a ela; ou, dolorosamente, aceita a distinção, mas também se torna muito atenta e desconfiada diante da palavra dos adultos. Nesse segundo caso, a criança também se coloca na disposição da busca da verdade". (Marilena Chaui. Convite à Filosofia, Unidade 3, Capítulo 1).
Por isso, para mudar comportamentos das pessoas, de forma eficaz e duradoura, primeiramente é preciso mudar as concepções que os fundamentam. Particularmente, para aquelas crianças que, infelizmente, foram “adestradas” para agradar a mãe e aos outros, os fundamentos que determinam suas atitudes e comportamentos são direcionados a depender, durante a existência inteira, das coisas externas, dos outros, em quem, certamente, fundamentara a própria autoestima. Tudo isso em razão de terem que reprimir parcialmente ou negar sua verdadeira natureza, Também, quando adultas, vão continuar a procurar a própria identidade, a realização pessoal, empenhando-se em ser boas a qualquer custo, em ter sucesso, em agradar os outros, para manter boa autoimagem. Tem valor só em função dos outros.
Quando se encontram em situações negativas, perdem todo tipo de força interior. Ao invés de enfrentarem a vida como um desafio, elas sentem-se impotentes, desesperam-se.
Além disso, para essas pessoas, o passado, os sucessos alcançados, a existência inteira vivida, tudo desaparece automaticamente diante do impasse que estão vivendo. Mas, se tiverem talento, podem tornar-se artistas, porque conseguem expressar melhor a própria natureza numa atividade criativa, fantasiosa, melhor que em sua relação com os outros seres humanos.As personalidades complacentes geralmente são: 
Ø    A vida não vai além de um acontecimento infeliz, de fracasso, de um erro;
Ø    Sentem-se só no meio dos outros e estranha a si mesma e aos outros:
Ø    Subestima a si mesma do sucesso, mas valoriza muito os outros;
Ø  Não acreditam que têm individualidade própria;
Ø   Temem provocar sua ira e ofendê-los
Ø  De algum modo, a agressividade foi reprimida da criança;
Essa patologia causa nas pessoas uma condição de serem sempre muito conciliadoras e afetuosas com os outros porque temem contradizê-los.
Geralmente são dotadas de atributos masoquistas de complacência para com os outros. Segundo especialistas da área, à repressão da agressividade, que amealhou na pequena infância em função das suas relações com as figuras materna e paterna. Talvez tenha sido rejeitada ou recusada, mesmo de forma aparente ou por comportamentos de indiferença dos pais, sendo obrigada a obedecer a leis contrárias à sua natureza. Assim, ela cresce odiando a si mesma em razão de ser tolhida a sua própria personalidade.
Em geral, essas pessoas não conseguem enfrentar os outros, não se fazem valer. Essas pessoas sentem necessidade de solidão. Temem os seres humanos. Vivem em autodestruição.
Isso vai criar nelas uma forte fraqueza em relação a eventuais fracassos, traições, inimizades e rejeições. Esses fatos negativos provocam em todas elas à depressão, a ansiedade, a angústia, porém temporariamente. 
No tocante às pessoas complacentes, contudo, caem em estado de depressão profunda, grave por adotarem uma solução regressiva em busca da cura. Essas pessoas geralmente sofrem da Síndrome do Fracasso, identificando-se até com o fracasso de filhos e dos outros. 
Tais pessoas têm como lema: "Eu existo, logo sofro". Vivem a dor de existir em estado puro, conforme atesta a psicanálise. Dor esta que morde a vida e sopra a ferida da existência. 

"Tolerar a vida continua a ser, afinal de contas, o primeiro dever de todos os seres vivos". (FREUD).

CAIXA PRETA Roberto Lanza


Bibliografia: Diversos Pensadores e Psicanalistas famosos, especialmente o Psicanalista Valério Albisetti, em seu livro O VALOR DA SOLIDÃO, Editora Paullus, edição de 1998.