domingo, 22 de agosto de 2021

UMA PRAGA VIRULENTA

             Os celulares passaram a ser uma virose na atualidade, apesar dos grandes beneficios que podem ser muito uteis, quando bem utilizados. No entanto, seus malefícios já se tornaram evidentes para uma grande massa da população. Eles são o máximo de expressão no mínimo de espessura. 

               Estar em contato com outro é banhar-se em significantes. É ver-se envolvido por seu cheiro, pelo som e silêncio de suas palavras, pelo toque especial de suas mãos, pelo brilho único de seus olhos. E tudo isso se registra, todos estes traços se gravam, ganhando do sujeito um adereço pessoal, incomunicável, o significado. Tem sido assim desde sempre, sempre que dois humanos se encontram. No entanto, quando dois se encontram separados, distantes, o signo pode também ser congelado, tornado portátil, e assim, transmitido para o outro distante. A experiência epistolar, desde que a escrita foi inventada, vem servindo a esse propósito

Vários séculos se passaram dessa forma; cartas viajando muitos dias, às vezes meses, até que o destinatário recebesse o papel repleto de pequenos sinais que falam do outro. Nada de sua imagem, de seu cheiro, do som de sua voz. Com o surgimento da telefonia, pelo menos, a voz do outro era ouvida.
A manipulação de celulares é com clarividência uma epidemia que vem se alastrando num descomunal sucesso. Nas agências de vendas e cadastramento de usuários de celulares, o idoso já não tem mais preferência.  
 Na atual sociedade de espetáculos já se instalou no falatório e nos relacionamentos virtuais a qualquer preço, tentando preencher o vazio sem fundo, ao mesmo tempo em que o usuário infla-se no inessencial.
 O predomínio da imagem e da comunicação virtual sobre a palavra não poderia ocorrer sem a explosão da técnica que passou a ocupar todos os recantos da vida cotidiana. 
 A devoção ao culto do imaginário, diante da televisão, do computador ou celular, torna o homem exilado da palavra, portanto da impossibilidade da simbolização que viabiliza o verdadeiro sentido de vida.
Isso é precisamente o narcisismo, a expressão a todo custo, o primado do ato de comunicação sobre a natureza do que é comunicado, a indiferença dos conteúdos, comunicação sem finalidade nem público, o destinador tornado o seu principal destinatário.
 A transparência total é a linguagem do pragmatismo virulento, linguagem única, exclusiva da era técnica, onde imagem é critério de verdade. Ela eliminou a possibilidade de existência do invisível. As palavras já não trazem mais a “carga e o poder de evocar”, novas possibilidades.
 Escutar exige esforço maior do que ver. Escuta-se por partes, que devem ser interpretadas à medida que são recebidas. A imagem aparece à vista como algo completo, que pouco exige do expectador. O que ocorre hoje, é que vivemos na era da exclusividade da imagem. A primeira consequência desse fato é o desaparecimento da linguagem como lugar da verdade.
 Na palavra diz-se possibilidade, o que ainda não é pode vir a ser. Ser da possibilidade, no encontro consigo mesmo. Sem as palavras os conflitos permanecem ocultos.
CAIXA PRETA Roberto Lanza
23/03/2015

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