sexta-feira, 13 de agosto de 2021

REEDIÇÃO DE JANEIRO DE 2015

 

Eu sei quem eu sou. Passo a receita para quem se interessar.

           Sem possibilidade de precisão, mas possivelmente quando eu teria entre cinco e seis anos de idade, ocorreu-me um fato relevante na minha historia de vida, durante a colheita de jabuticabas num pomar pertencente à um fazendeiro nosso conhecido. 

Eu estava acompanhado de minha família, juntamente com outros familiares vizinhos e dentro do pomar tirei os sapatos para subir em um pé de jabuticaba. De pé em pé fui colhendo a fruta e, ao mesmo tempo, apalpando o mundo, mapeando no meu cérebro sabores e outros fenômenos indispensáveis pára a configuração da minha futura existência, semelhante a uma pequena peça de um mosaico. Contagiado pelo o Dom da vida, fui sendo invadido por uma sensação de euforia, de liberdade inerente à existência;          

Desprovido de percepção da realidade, fui me afastando do grupo de familiares, permanecendo bastante distraído por determinado tempo.

Quando acordei para a realidade, com o dia já escurecendo, eu me encontrava sozinho e fui tomado de muita aflição, gritei pela minha mãe, mas foi em vão. Desci do pé de jabuticaba apanhei os meus sapatos, mas não conseguia caminhar descalço naquele solo cheio gravetos perfurantes. Gritei por socorro novamente, mas foi em vão.

De repente, olhei para as fôrmas dos sapatos e simultaneamente a formas dos meus pés e o milagre aconteceu. Consegui articular o encaixe dos pés pela percepção da forma de cada pé com as fôrmas de cada sapato, encontrando a solução. Calcei os sapatos sem dificuldades, o que antes não sabia fazer. Sempre dependia de minha mãe para calçar os sapatos, por virgindade daquele ato, cuja descoberta fui tomado por uma espécie de euforia e de libertação, fato comprovado pela minha consciência, pois  nunca mais dependi de minha mãe para tal finalidade.

Acredito que tal evento foi um marco inicial para o penoso processo de inserção na civilização, pois não me lembro de outros eventos similares naquela idade. Certamente muitos outros eventos se manifestaram, mas estão arquivados na minha caixa- preta”, provavelmente de forma inconsciente.

Lembro-me muito pouco da minha pequena infância, mas sei, de forma sintomática, que não foi muito fácil o natural percurso de desvinculação dos laços afetivos familiares com o mundo externo no qual fui inserido.

Ingressei-me no Grupo Escolar aos sete anos de idade. Aos poucos fui aprendendo, também, como me preparar e vestir o uniforme, por iniciativa própria, mas dominado por uma angustia inominável. Que bom que eu aprendi a me preparar para o meu ingresso na civilização (afinal, não existe outro meio!), mas, há um risco. Vejamos o que disse o Grande Pensador Rubens Alves: Há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas”.

Por outro lado, considerava tudo uma obrigação sem sentido e desagradável. Tomei até antipatia do banho e do uniforme escolar. Sentia-me conduzido por algo misterioso e indesejado retirando-me do aconchego e da zona de conforto.

Disso eu nada entendia. Nem tampouco na escola primária, como por exemplo: a lógica da análise sintática da disciplina Língua Pátria. Aprendia no decoreba. Quando passei a entender matemática dentro da sua lógica formal (pois tinha facilidade), tudo melhorou para outras disciplinas. Interessante destacar que: quem resolve um problema de matemática está focado no processo, sem se preocupar com o resultado. Eis aí um paradigma para a importância da busca e da indagação. O processo é sempre recorrente a valores já conhecidos, tais como: tábuas aritméticas, princípios, axiomas, propriedades primitivas ou postulados e outros princípios e valores em alta escala.

Na minha história singular, gostaria de destacar outros pequenos tópicos que vivenciei no trajeto da minha infância para a adolescência, época onde as tradições culturais, pelo menos, eram mais autênticas e mais assertivas..

Algumas vezes, ficava observando os urubus plainando no céu sem precisar bater suas asas. A inveja me dominava e eu questionava de maneira egoística: por que eu não possuo este privilégio? Será castigo de Deus?

E mais, ainda: naquela época sempre ficava fascinado, quando visitava o alto das colinas ou das serras, observando o sol aparecer ou desaparecer na linha do horizonte, até onde os meus olhos alcançavam.

Acreditava, com a minha ingênua imaginação, que ali era o inicio ou o  fim, mesmo com uma incrível admiração e natural beleza, permanecia lá, alheio ao mundo e à deriva da minha imaginação, olhando o solo ressurgindo ao se afastando aos poucos, e encontrando com as aureolas solar matutinas e vespertinas Será que está começando um dia novo ou um velho dia de novo?. Faz sentido para a natureza humana!

Apesar do ciclo vicioso ou ciclo virtuoso condicionante à percepção de cada um de nós, eu buscava encontrar lógica para tais fenômenos, mas eu não possuía alcance suficiente para compreendê-los. De maneira superficial, conseguia perceber que o dia e a noite não podiam conviver juntos e que, por outro lado, a constituição de um lar necessitava de um pai e de uma mãe (indícios de polaridades para mim predominantes)..

Essa repetição cambiante, assim como outros fenômenos existenciais, algumas vezes novo dia, todo irradiante e iluminado parecia-me como o Dom da vida. Mas, outras vezes, tudo parecia o velho dia de novo, se repetindo. Essa inquietante estranheza, fruto da repetição, incomodava-me bastante. 

Acontece que a natureza sempre foi, é, e será assim de forma autônoma e sem tomar qualquer tipo de deliberação, constantemente em processo de evolução sem dar saltos, sempre indiferente à nossa opinião e contemplação. Afinal, por que nos rebelamos com tão indiferença da natureza?

O principio da não indiferença ou do manancial de diversidade de coisas. objetos e valores só existe para a humanidade.Tudo que é antrópico não é natural e é tributário da linguagem humana...

Assim, parecia-me que cada conhecimento adquirido induzia-me a acreditar que: 

“Quanto mais visibilidade, maior é a invisibilidade” (pensamento filosófico), em perfeita coerência com o que dizia o filósofo grego Sócrates: “Eu só sei que eu não sei”!

Torna-se oportuno, mais uma vez citar Rubens Alves::

“Há pessoas de visão perfeita que nada vêem... O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido [...] o que somos é o resultado de uma história que fizemos – e que poderíamos ter feito de maneira diferente.”... e se não poderíamos tê-la feito diferente, não podemos agora fazê-la?.

O tempo passou, eu cresci e entendi que o novo dia causava-me alegria enquanto que o velho dia de novo era uma repetição angustiante. Faz parte da vida.

Da mesma forma, o aumentar dos solos e o diminuir da intensidade da luz solar não era de verdade, pois tal fenômeno sumia para mim enquanto surgia para outros olhares que, em algum outro lugar, dividia comigo o ato mágico de navegar pela vida.

Tratava-se, portanto, na verdade, de tudo que eu via era pelo singular e puro fato de quem ainda não aprendera sobre certos limites.

Com o meu amadurecimento natural e pessoal, pude compreender que tudo se tratava de compartilhar com nossos semelhantes uma maneira sutil de ritualizar uma nova existência.

Trata-se de um fato de que temos sempre a opção de continuar achando que a finitude dos horizontes da percepção seguem o pressuposto da sentença do berço ao túmulo”. E ainda, quando chegada a hora, morrerão por si só.

Um importante conceito filosófico nos diz que: “nada nasce ou perece, tudo que existe é uma mistura e separação de coisas já existentes”.

Faz sentido matar dentro de nós. Questão de espaço.. É que não comportamos tudo. Não há espaço para tantos conhecimentos e sentimentos. E quando insistimos em manter vivos certos sentimentos através de respiração artificial, não há espaço para nascer nada de novo. Então temos que abrir o baú dentro de nós: mágoasdores – velhas ou novas moções empoeiradas, vícios humanos, escolhas erradas, ferimentos mantidos sangrando, decepções, conceitos obliterados, amores infelizes, imagens amareladas, relacionamentos passados, tristezas, amarguras, pessoas perdidas, etc.. É própria dor de existir que morde a vida e sopra a ferida da existência.

Há dentro do ser humano um sentimento profundo de perda de algo precioso e um forte vinculo que caracteriza uma união e, ao mesmo tempo, uma interdição como se a articulação existencial do um com o outro não existisse como separação.

No fundo uma anulação da identidade própria dotada de um complemento, bloqueando uma alteridade feliz e desejo de amor e de sexualidade.

Mas, na verdade, isso significa manter no nosso âmago tudo - até o lixo que arquivamos em nossa “caixa preta” cada vez mais abarrotada de arquivos que crescem e crescem engessando a nossa vida - que, na verdade, não passam de arquivos mortos. É isso! Ou então encaramos a fera e aprendemos a matá-la.

Mas, o que deverá morrer em mim hoje? Essa é a pergunta que a fera sugere para começar.

E eu, com a experiência vivencial observadora, permiti-me acrescentar: não basta escolher dentro de nós o que deve morrer e em seguida matar. É preciso enterrar. Assim, eu passei a ver o mundo de outra maneira e não foi o mundo que mudou, fui eu.

Acontece que os nossos desígnios conscientes não são capazes de elucidar os enigmas do nosso mundo subterrâneos cheios de vastas emoções e de pensamentos imperfeitos. Por capricho do destino do humano, condenado a ter consciência de si mesmo, é um ser subvertido pela verdade do desejo inconsciente e representado pela ordem simbólica. Somos “plugados “ demais às nossas tradições cultuais, principalmente, do nosso abençoado berço. 

E por aí vai... A lista é individual e cada um tem a sua. O que é comum a todos é a responsabilidade de, interiormente, exterminar, dar fim ao que é ruim para que algo novo e bom possa nascer.

É fácil?  Não mesmo! Matar internamente não é simples desejar, é mudança de atitude. No entanto, para mudar comportamentos de forma permanente, é necessário mudar primeiramente as concepções que os fundamentam. No entanto, Infelizmente, no ser humano “há um saber que convence, mas não converte”. 

Porque às vezes o que nos fez mal já está pra lá de morto, mas mantemos mumificado dentro de nós, para usarmos como referencial, para não esquecermos de que sofremos para não cairmos de novo nas mesmas armadilhas. Outro engano: nada é igual nunca. Dores embalsamadas não servem como exemplo, nem protegem, só paralisam.

Não há fórmula. Não há bulas. A única maneira de viver é permitir que a vida nasça e morra e de novo nasça, tantas vezes quanto forem necessárias. Portanto, para abrir os espaços é necessário fazermo-nos  perguntas. E uma vez identificado o que não é bom e não nos serve mais, devemos dar-lhe a morte. Em seguida enterremos nosso morto, choremos um pouco, e, cumprido o ritual, vistamo-nos com esmero para esperar. Afinal, viver é inventar a vida. Algo bom estará nascendo.

E olhando da janela da nossa “caixa preta” para o horizonte que parece ser o fim, mas é também o princípio, podemos considerar: “não somos nada, o que buscamos é tudo”. (Rubens Alves).

Também, a partir da reflexão de Nietzsche é possível pensar nas várias maneiras de exercermos a nossa liberdade, mesmo que para isso seja necessário nos perdermos. A grande sabedoria está no saber perder-se a si mesmo e em seguida buscar o caminho do reencontro consigo mesmo:  "Uma vez que se tenha encontrado a si mesmo é preciso saber, de tempo em tempo perder-se e depois reencontrar-se, pressuposto que se seja um pensador. A este, com efeito, é prejudicial estar sempre ligado a uma pessoa". Afinal, viver é inventar o dia por si só

Com base na reflexão acima, acrescento eu: o sentido proposto por Nietzsche para tal pessoa, não se trata de uma pessoa qualquer encontrável no mundo exterior, trata-se de um outro de mim mesmo ao qual sou mais apegado, mas que não me completa nunca. 

                                                                   

            Para concluir: 

“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas 

usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer 

os velhos caminhos, que nos levam sempre 

aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: 

e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado,

para sempre, à margem de nós mesmos.”

Fernando Pessoa

CAIXA PRETA - Roberto Lanza 

Janeiro de 2015

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

SUTILEZAS DA IMPERFEIÇÃO

 

SUTILEZAS DA IMPERFEIÇÃO

 

“Renda-se como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento”. (Clarice Lispector).

 

Mesmo diante do monumental desenvolvimento tecnológico, bem como da extraordinária evolução cientifica da física quântica, o mistério da vida não se trata de uma questão a resolver. Por outro lado, a exigência inata em buscar significados para a vida, sem generalização, tem induzido o homem a buscar a perfeição, sendo bastante pernicioso.

A principal característica da perfeição é o excesso que detesta medida, comprometendo a verdadeira condição humana que se trata de um ser de falta, limitado, vulnerável e indigente, em razão do nascimento prematuro e o consequente inacabamento biológico (neotenia). Ser incompleto e limitado é ser privado de alguma coisa. Limite é privação.

O limite não anuncia só a negação de algo, mas paradoxalmente anuncia aquilo que é. A realidade é ameaçada e ao mesmo tempo sustentada pelo limite. Afastar-se do limite é sair fora da realidade.

A consciência do limite é a maior intimidade que o homem pode alcançar consigo mesmo: recria o ser e não o recrimina. O homem se orienta para tudo aquilo que é. Resgata e sustenta o ser e restitui a confiança naquilo que é. Nasce a compaixão.

Essa frenética busca de significados para preencher o vazio existencial, nos impede de abraçar a nossa verdade inconsciente, colocando-nos fora das possibilidades de compreensão. A imperfeição, ao contrário e em sua origem, é apenas a experiência do limite.

A indigência é a razão da necessidade, que é o motivo essencial para o deslocamento rumo àquilo que satisfaz suas exigências para se manter vivo.

A vida no animal é proporcional a sua realidade limitada. É leve. O homem é insustentável, a indigência é pesada, pois ele sofre uma falta de ser e não de objetos, a qual é impreenchível e revela fonte de uma transcendência inesgotável, pois nunca atinge a sua medida. Trata-se de uma insatisfação persistente e entusiasmo sem limites.

O homem melhora e se promove a partir da indigência, pois o conteúdo da indigência é a própria transcendência. O homem não busca o possível, mas o impossível o que exige, para ser superado, outro tipo de lógica paradoxal: abraçar o que rejeita e que gostaria de ignorar. Assim, a busca da perfeição nos impede de abraçar o ser limitado em nós e nos outros e propõe sempre a melhor solução, que possui maior força – o que deveríamos ser e o que deveríamos fazer.  

Mais ainda, orienta a própria existência entre as coordenadas da culpa e do eu devo e se enche de exigências sucessivas que o tornam constantemente inadaptado.

O animal não apresenta expectativa, porque não conhece a possibilidade de solução. O homem quer dar solução a qualquer coisa, o que o coloca em expectativa constante.

O perfeccionista nunca está bem, porque sempre acha que não fez o melhor, o mais correto, o mais adequado, valoriza-se apenas pelos resultados de suas ações e não pelo fato de ser, provocando a síndrome do “exigir de mais de si mesmo”, contrapondo àquilo que é e o que deveria ser”, vivendo permanentemente a sensação de inadequação.

Tornar-se humano é um gesto de aceitação de si. Para tornarmos humanos, a indigência reclama indulgência. A consciência do limite é um treino para perceber a realidade na perspectiva do limite, como também da compaixão.

Finalizando:

“É difícil ao homem enfrentar-se e encontrar-se a si mesmo. Ávido de exterioridade, sua avidez o conduz ao Vazio. E, ele fugindo de si mesmo encontra-se com a tortura da imensidão de coisas que se abrangem nos sentidos”. (Da Ordem 2,10,30).


CAIXA PRETA - Roberto Lanza

11/08/2021


 

UM FATO CURIOSO

 

UM FATO CURIOSO...

 

Sem possibilidade de precisão, possivelmente, quando eu teria em torno de cinco anos de idade, ocorreu-me um fato relevante na minha história singular, durante a colheita de jabuticabas num pomar pertencente a um fazendeiro nosso conhecido, com mais de uma dezena de pés da referida fruta. 

 

O sol estava radiande e no interior do jaboticabal eu me sentia inserido numa chuva de raios solareles que atravessavam as folhas, ornmentando todo o ambiente e ainda estrelava o chão.  O cenário era maravilhoso e invadia-me criando um estado de alma diferenciado do cotidiano.

 

Eu estava acompanhado de minha família, juntamente com outros familiares vizinhos e dentro do pomar tirei os sapatos para subir nos pés de jabuticaba. De pé em pé fui colhendo a fruta e, ao mesmo tempo, mapeando no meu cérebro de sabores e outros fenômenos naturais. Eu nem sequer percebia onde realmente estava. Tratava-se de percepção pura da natureza onde eu me sentia parte integrante dela.

 

Contagiado pelo o Dom da vida, fui sendo invadido por uma sensação de euforia e de liberdade inerente à existência de algo belo que me contagiava interiormente. Assim, persistindo na minha distração, fui me afastando do grupo de familiares. O tempo foi passando suavemente quando de repente notei que a minha família já não se encontrava mais naquele ambiente. Na verdade, já se encotravam no interior da Sede da Fazenda.

 

Quando me deparei com o momento real, com o dia já anuciando o entardecer,  eu me encontrava sozinho e fui tomado de muita aflição. Gritei pela minha mãe, mas foi em vão. Desci do pé de jabuticaba corri atrás dos meus sapatos, mas não conseguia caminhar descalço naquele solo cheio de gravetos perfurantes. Gritei por socorro novamente, mas foi em vão. A aflição invadia-me cada vez mais causando um profundo sentimento de desamparo. Foi uma experiencia inesquecível mas, extremamente útil para a minha vida.  

 

Cuidadosamente encontrei os meus sapatos e sentado no chão surgiu-me um insight. Desolado, olhei para as fôrmas dos sapatos e simultaneamente a formas dos meus pés e algo iluminou minha mente. Consegui articular o encaixe dos pés pela percepção da forma de cada pé com as fôrmas de cada sapato, encontrando a solução e o alivio foi imediato. Posso supor que ocorreu, por ananlogia, algo semelhante a uma operação simples de regra de três (matemática). É oportuno ressaltar que, de matemática eu nada entendia, pois a idade mínima exigida para se iniciar o curso primário, na época, era de 7 anos.

Calcei os sapatos sem dificuldades, o que antes não sabia fazer. Sempre dependia de minha mãe para calçar os sapatos, por virgindade daquele ato, cuja novidade ficou consolidada na minha consciência, pois nunca mais dependi de minha mãe para tal finalidade, Assim como outras atividades relacionadas com higiene, vestuário, cama, etc.

O que me surpreendeu foi que realmente , por mais simples que seja, que tal fato tenha sido um ato libertador para o penoso processo de inserção na civilização, pois não me lembro de outros eventos similares anteriores àquela idade. Certamente muitos outros eventos já teriam acontecidos, mas não daquela forma de compreensão.

Lembro-me muito pouco da minha pequena infância, mas sei, de forma sintomática, que não foi muito fácil o natural percurso de desvinculação dos laços afetivos familiares com o mundo externo no qual fui inserido.

Ingressei-me no grupo escolar aos sete anos de idade, como condição regulamentada. Aos poucos fui aprendendo, também, como me preparar e vestir o uniforme, por iniciativa própria, mas dominado por uma angustia inominável. Que bom que eu aprendi a me preparar para o meu ingresso na civilização, mas, há um risco. Afinal, não existia outo meio. Vejamos o que disse o Grande Pensador Rubens Alves: “Há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas”

Frequentar a escola para mim era tudo uma obrigação sem sentido e desagradável. Tomei até antipatia do banho e do uniforme escolar. Sentia-me invadido por algo misterioso e indesejável, retirando-me do aconchego e da zona de conforto.

Disso, eu nada entendia. Nem tampouco na escola primária, como por exemplo: a lógica da análise sintática da disciplina Língua Pátria, aprendia no decoreba. Mas, quando a situação era de pánico (provas) eu me lembrava e revivenciava aquele importante insight. Assim, passei a entender matemática dentro da sua lógica formal (pois tinha facilidade), tudo melhorou para outras disciplinas. Faz sentido para a natureza humana? Talvez sim!.


CAIXA PRETA - Roberto Lanza

11/08/2021

sábado, 15 de agosto de 2020

OS BOICCOTES DO EGO

          Para nós chegarmos ao ser, “eu sou”, esse sou ganha autenticidade quando ele é energizado com um constante estar. O estar é a mola mestra, é a mola essencial, central para um legítimo ser. Nós temos que ter essa ótica bem definida, com identificação plena com os objetivos bem situados e bem selecionados, sempre reciclados e observados. Todas as vezes que nós queremos transformar o estar num ser, entramos em frustração.

É necessário aprender a sair da frente do espelho e ver o outro semelhante com os olhos da alma. Quem não “sabe dizer eu”,   nunca saberá dizer “você”. Infeliz daquele que não sabe que não sabe e nem sequer quer saber. Assim, ele nunca saberá se responsabilizar pela sua vida. Ora! Não se vive da vida, vive-se a vida. 

A visão do mundo com os olhos do ego é cheia de equívocos e um depósito de mal entendidos, uma vez que o ego  é uma criação do imaginário humano e não é senhor em sua própria casa, como disse Freud. Além disso, ele é um excelente especialista em boicotar a realidade com muita habilidade. 

O estar no mundo de cada um, é apenas uma forma de perceber a realidade de acordo com  sua realidade psíquica. Quantos engodos! Quantos equívocos!

          A fantasia é que é responsável pelo enquadramento da relação do sujeito com a realidade: sua janela para o mundo. É dela que o sujeito tira, ilusoriamente, a segurança do que fazer diante das situações que a vida se lhe apresenta. O sofrimento leva o sujeito a “pro – curar”  tratamento apropriado, visando tirá-lo da sua naturalidade inconsciente e da sua  artificialidade consciente, para a assertividade existencial, o que exige um percurso longo e sinuoso.

CAIXA PRETA Roberto Lanza
15/08/2020

segunda-feira, 27 de abril de 2020

para quem anda acomodado

PARA QUEM ANDA ACOMODADO



Criatividade

Segundo a filosofia de Jung: “O homem só se torna um ser integrado quando... consciente e inconsciente aprenderem a conviver em paz e completando-se um ao outro”.
Sendo assim , o inconsciente é criativo. É nesse sentido que tomamos o inconsciente como fator importante para a criatividade, que nada mais é do que um processo, individual ou grupal, de natureza mental e emocional, num dado contexto cultural, em que se procura ver de maneira nova uma dada situação.
Isto significa que, ao criar, rompemos com os velhos padrões e propomos um novo modelo de abordagem da realidade. Mas, para ser criativo, não basta inovar. É preciso que a idéia proposta seja relevante: isto é, ela tem de ser uma proposta válida a uma dada situação.
 No entanto, quanto mais familiar é o objeto, mais difícil é vê-lo dentro de novo contexto.
As barreiras à criatividade normalmente podem ser estruturais (de ordem psicológica, cultural ou ambiental) e processuais (ligadas à linguagem, rigidez funcional e hábitos).
As barreiras psicológicas inibem nossa capacidade conceitual e impedem a comunicação. São alimentadas pela nossa preferência pelo predizível e o ordenado e pela nossa inabilidade para com o desconhecido e o ambíguo; também pela nossa orientação para a realização e o sucesso rápido e pela nossa intolerância para a incubação e o desenvolvimento de idéias; pela valorização do que é (sensação) em detrimento do que poderia ser (intuição); e, finalmente, pelo nosso medo de fracassar.
Fomos criados para dar as respostas certas e, raramente, a criatividade é recompensada. Evitamos correr riscos que podem nos levar a enganos, ao prejuízo e ao ridículo. Como temos uma alta necessidade de sermos aceitos, daí todos os tipos de censura que recebemos desde a infância. Internalizada transforma-se em autocensura.
É extremamente difícil descrever fisionomias que somos perfeitamente capazes de reconhecer. As testemunhas revelam total incapacidade para fazer uma descrição verbal de um delinquente  visto anteriormente, mas indicam  com precisão a imagem do indivíduo ou mesmo a sua fotografia.
Daí a importância da intuição e da criatividade para poder dar à simbolização a sua capacidade de evocar e de enunciar a verdade, principalmente sobre a observação dos fenômenos recorrentes na natureza, para posteriormente descrevê-los.
Vejamos o que publicou o Jornal Folha de São Paulo de 26/03/1998:
           “O que faz a gente ser grande é não perder o futuro de vista. É chegar a uma porta, fincar a bandeira da conquista, nesse mesmo instante começar a buscar outros portos. É criar desafios, calcular riscos, avançando sempre. Porque a grande aventura é viver. E a vida, assim como as ondas, tem jeito diferente de se repetir, de prometer descobertas e abrigar todos os tipos de sonhos e embarcações. O que faz a gente ser grande é ser como o mar; incansável na sua procura pela onda perfeita, até descobrir que a perfeição está na própria busca”.

CAIXA PRETA


06/01/2015

sábado, 25 de abril de 2020

PESCARIA - UM PARADÓXO



Se o peixe é o último a perceber a existencia da água, o pescador, no momento e  diferentemente, vivencia dois universos diferentes: um conhecido e o outro desconhecido experimentando uma espécie de aconchego e de integração existencial..    

A DONA DA HISTÓRIA: “Tudo o que existe no mundo existe para minha história acontecer. As ruas, os lugares por onde eu passo, são apenas cenários da minha história. E os lugares por onde eu ainda não passei não existem ainda, ou então existem, mas nada nesses lugares se movimenta, e em cada um desses lugares tudo está parado no tempo, em determinado momento do futuro, à espera de que minha história chegue até eles. E os lugares aonde eu nunca irei nunca existirão. E as pessoas que nunca passaram por minha vida nunca nascerão”. Publicado em Folha de São Paulo de 22/03/98

Por outro lado, o ser humano busca incessantemente dominar a natureza para um melhor controle do futuro visando assegurar a sua ilusória imortalidade. Mas trata-se de um projeto absurdo querer dominar a natureza se o próprio homem é também natureza. Afinal, quem dominaria o homem? O real conhecido não abrange a incerteza do futuro.

Muito extranho o que acontece numa pescaria. Ao mesmo tempo em que o pescador, na sua vida cotidiana, vivencia (inconsciente) o temor do desconhecido, na pescaria ele é fascinantemente atraído pelo desconhecido. Por isso, pescar em açudes onde os peixes já são conhecidos, de fácil escolha e captura, não há qualquer desafio colocando o homem num desconhecimento crônico de si mesmo.

Interessante, também, é que um grupo de pescadores heterogêneos de diferentes origens, profissões e de diversas classes sociais se identifica e comunga com os mesmos propósitos, que nada mais são do que cada um encontrando-se com si mesmo, fazendo do grupo uma comum-unidade.

Para mim, não há dúvida de que a água é a matriz da vida e o cidadão personagem é a matriz dos fantasmas, das discriminações e dos preconceitos.

CAIXA PRETA Roberto Lanza
25/04/2020

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

A LÓGICA DO PT

A LÓGICA DO PT ESTÁ PERDIDA NO MIOLO DA MATA


O atual cenário político parece-me perverso. Está em consonância com o lado sombrio da realidade, ou seja: o mal! Como pode um país ser governado por representante que nada mais é do que a sombra do Lula?  Há uma tentativa nesse sentido, mas, apesar da reconhecida popularidade de LULA, já é passado, devendo  ser idolatrado como "Museu".  

"O Brasil não pode errar de novo". É uma verdade que se aplica muito bem ao  PT


A ideologia do PT (Partido dos Trabalhadores) parece que anda extrapolando os limites da realidade. Não existe na lógica do Pensamento Humano uma terceira opção baseada no princípio do terceiro excluído. Melhor dizendo: Tal princípio afirma que um enunciado ou é verdadeiro ou é falso, não havendo um terceiro valor. Ou seja, não há proposições "meio" certas e nem "meio" erradas. Mas, é certo que  a "FICHA SUJA" continua prevalecendo.

A direção do PT cansou de anunciar a candidatura do Ex-presidente Lula para o pleito eleitoral de 2018 de qualquer maneira, sendo vetada pelo STE pela Lei da FICHA LIMPA.  A idolatria de Lula só é representada por pesquisas eleitorais, cujos parâmetros são fundamentados em amostragens estatísticas reformuláveis, relativamente confiáveis, sem garantias e impermanência. 

Em relação ao futuro, ninguém tem certeza de nada. A segurança está em cada um cuidando de sua própria existência. Mas, a exagerada cobiça eleitoral apoiada na sombra de Lula, mesmo já sendo interdita pela FICHA SUJA, não faltam apoiadores que querem se eleger pela sombra do Lula. Infelizmente, faz parte da natureza humana, que sempre há  um saber que convence, mas não converte.

Por que Lula não dispensa seus Advogados, embora seja um direito legítimo? Eis ai a questão: porque, na verdade, no cumprimento dos seus deveres, eles continuam ofertando  uma ilusória esperança  fundamentada na decadente "Ideologia Lulista". Por outro lado, os efeitos produzidos pelo julgamento do STF, apesar de favorecer Lula, desencadeou um processo de desvelamento da verdade e do desejo real do sofrido povo brasileiro.

A avidez de poder também tem limites, uma vez que "a mamadeira já secou". Seria bom que seus seguidores pensassem nisso. Está na hora de cada um cuidar da sua própria existência, dentro dos limites de seus próprios valores e não piorando o "Mundo Presumido" daqueles engajados na ideologia "Lulista", uma vez que existem caminhos mais éticos para a conquista do poder.  


Afinal, o Ser Humano é naturalmente ÉTICO. A Ideologia, FORA DA ÉTICA,  o povo brasileiro já não suporta mais e nem conviver com as  evidências de Políticos com "FICHA SUJA", mesmo sendo uma minoria no Congresso Nacional.

O BRASIL é um "Gigante por Natureza" e não merece mais conviver com uma retomada do PODER de governo com tendência de retrocesso. 
                                           "Tudo me é lícito. Mas, nem tudo me convém" (Paulo de Tarso).



CAIXA PRETA - Roberto Lanza
11/11/2019.