Dependendo da estruturação do aparelho psíquico segue-se uma via simbólica ou anatômica para alívio dessa tensão. Pois, como disse Freud, “o aparelho psíquico não tolera o desprazer; tem de desviá-lo a todo o custo, e se a percepção da realidade acarreta desprazer, essa percepção – isto é, a verdade – deve ser sacrificada”. No entanto, para que se possa entender esse processo, a forma como as questões conflitivas ou de desprazer são processadas, faz-se necessário compreender um pouco da estrutura psíquica.
Existe, pois, uma espécie de lei inscrita em cada ser: é feito para a alegria e não para o sofrimento.
No plano afetivo, sua busca de amor e de troca de ternura e de alegria não tem fim. No plano cognitivo, uma curiosidade, muito frequentemente insaciável, fá-lo apreciar as alegrias da descoberta, assim como a euforia da criatividade literária e artística.
CAIXA PRETA Roberto Lanza
29/09/2016
quinta-feira, 29 de setembro de 2016
A INCOMPLETUDE HUMANA
A incompletude,
mesmo não constituída em assunto empolgante para conversas tanto populares
quanto eruditas, é, todavia, sentida, todos os dias, como experiência na
condição humana. Querendo ou não, sentem-se os humanos obrigados a lidar com
constatações que mostram, ao lado das suas grandes capacidades, um antagonismo
de extraordinária fragilidade, e que em todos os dias os interpela para
preencher a falta de algo, seja na mediação dos recursos técnicos, eletrônicos
e midiáticos, ou na procura de reagentes somáticos para diminuir dores, suprir
fomes, expectativas, ansiedades e tantos outros limites.
O termo
“incompletude” decorre do adjetivo derivado da palavra latina “incompletu”
que significa imperfeito, não acabado ou não completo. Assim, a palavra incompletude
é usada para expressar a característica muito peculiar e específica da
condição humana, que é a da constante necessidade de se completar com serviços,
obras, ações e valores que lhe deem significado. É nesta perspectiva
antropológica que vamos alargar uma das muitas dimensões da cultura humana e
que, por isto mesmo, nos distingue radicalmente da vida de outros seres neste
planeta.
Texto compilado de:
João Inácio
Kolling1
1 É professor
da Faculdade La Salle de Lucas do Rio Verde-MT, Mestre em Antropologia e Doutor
em Filosofia e Ciências da Educação. Endereço: joaoik@bol.com.br ou João@unilasallelucas.edu.br
CAIXA PRETA Roberto Lanza
29/09/2016
quarta-feira, 28 de setembro de 2016
UMA ILUSÃO COTIDIANA
No âmago do
ser humano há uma fonte que nutre a fantasia de que em algum lugar alguém está
nos esperando sem nem saber que a gente existe e, no entanto, pensando em nós
com se fôssemos “almas gêmeas”.
Na
realidade, o que esperamos deste encontro? As artes, as músicas, os mitos, as
lendas, etc. parecem que vêm atestando tal condição. Somos realmente peregrinos
na busca de algo intimamente relacionado com a plenitude, para nos sentirmos
completos e inteiros.
Infeliz
daquele que ignora os riscos e as possibilidades de encontrar pela vida alguém,
acreditando que haverá plenitude desse encontro. Haverá sim um encontro, mas
será de duas faltas. A sua e a do outro. Se não for percebido isso o perigo é
maior que da ilusão vem logo a desilusão..
Estar
inteiro é assumir-se como ser humano saudavelmente independente. Seja,
portanto, um ser inteiro antes de ser apenas a metade de um casal. Eu gosto de
dizer que casado é feito de dois inteiros e não de duas metades. Somente um ser
inteiro pode dizer que ama e é amado. Por que ser apenas metade se você é um
individuo e seu parceiro (a) também é outro?
Afinal,
querer satisfação plena todo mundo quer. Mas abrir mão de si pelo outro é
impossível e pouco recomendável. O justo seria tentar ser fiel ao próprio
desejo, mas deixando de ter certo cuidado com a forma de lidar com isso. Afinal
orientar por uma ética mais solidária talvez seja a saída. Tentar levar as
coisas de tal modo que, sendo fieis ao próprio desejo, não esqueçamos que o
outro existe e que esta alteridade deve ser considerada. Isso é difícil, mas
não impossível. Afinal, que graça teria se na vida fosse tudo muito fácil?
“É difícil ao homem enfrentar-se e encontrar-se a si mesmo. Ávido de
exterioridade, sua avidez o conduz ao Vazio. E, fugindo ele de si mesmo
encontra-se com a tortura da imensidão de coisas que se abrangem nos sentidos”.
(Da Ordem 2,10,30).
E ainda:
“Por que se dispersa fora? Começou a entregar seu coração ao exterior e
perdeu-se a si mesmo. Quando o homem, por amor a si mesmo, entrega seu coração
às coisas de fora, perde-se na fluidez dessas coisas e, de certo modo, dissipa
prodigamente suas forças. Esvazia-se de si. Despedaça-se”. (Sermões 96,2)
Como podemos entender tais pensamentos filosóficos?
“Ao Ego, será sempre impossível a plenitude! Como
“filho legítimo” da Grande Separação, do surgimento do “eu separado”, do Adão
(que vem do Sânscrito: adhi – aham – “primeiro eu”), sempre lhe faltara algo –
pois ele sofre a perda da identidade com o todo, desde que se diferenciou dessa
matriz primordial, ontológica, representada inicialmente no psiquismo
individual pelo útero materno e, logo após, pela relação simbiótica e edipiana
com a figura materna. E em busca desse Algo ele tece desde o nascimento uma
teia de incontáveis desejos na esperança inconsciente de sustentar-se sobre o
imenso vazio existencial, num desespero inaudível de busca de sobrevivência e
auto justificativa para o devir dessa existência.
Ele (o ego) se esforça laboriosamente através da
vigília e do sono para satisfazer a cada um dos seus desejos, ora
justificando-os como instintos naturais e intransponíveis, ora vestindo-os em
trajes mais nobres, como algum bem social moral, cientifico ou até mesmo
espiritual”.(Professor Afonso Celso L. Wanderley.)
Por outro
lado, existe uma espécie de lei inscrita em cada ser: na qual ele é feito para
a alegria e não para o sofrimento. Viver é uma miscelânea de sentimento, como
dor, alegrias, tristezas, prazeres, euforia, amor, felicidade, sem parâmetros
de balizamento. Nada disso é coletivo (é pessoal) e nem sequer transferível.
Daí a felicidade tornar-se um episódio transitório e repetitivo.
Para grande
maioria das pessoas, a vida é um processo de gozar o possível do corpo,
reservando-se para a luz da fé as ocasiões de sofrimento inadiáveis. Nossa verdadeira natureza é a paz; a verdade; o amor; a
felicidade;... São as crenças cegas que fazem nossa vida infeliz.
Neste
sentido, vejamos o que diz o poeta Vicente de Carvalho (1866-1924) em seu Poema
Velho Tema, no qual ele exprime essa arrigada condição humana: a incapacidade
de sermos felizes por não valorizarmos o que a vida nos oferece.
Só a leve
esperança, em toda vida,
Disfarça a
pena de viver, mais nada.
Nem é mais a
existência, resumida.
Que uma
grande esperança malograda
.
O eterno
sonho da alma desterrada,
Sonho que a
traz ansiosa e embevecida,
È uma hora
feliz, sempre adiada
E que não
chega nunca em toda vida
Essa
felicidade que supomos,
Arvore
milagrosa que sonhamos,
Toda arreada
de dourados pomos,
Existe, sim:
mas nós não a alcançamos
Porque está
sempre apenas onde a pomos
E nunca a
pomos onde estamos.
Felicidade,
árvore frondosa de dourados pomos. Existe, sim, mas nós nunca a encontramos
porque ela está sempre apenas onde nós a pomos, e nunca a pomos onde nós
estamos.
CIXA PRETA - Roberto Lanza
28/09/2016
O ENIGMA FUNDAMENTAL
Na nossa mais remota
existência, como pequenos perversos e habitantes de um mundo de pensamentos
imperfeitos e de vastas emoções, tramamos cometer dois terríveis crimes, que
permaneceram registrados em nosso inconsciente, não porque eram importantes,
mas são importantes porque permaneceram.
Tratam-se de desejos
relacionados com o parricídio e com o incesto, cientificamente comprovados pela práxis da clinica psicanalítica e da ciência do inconsciente.
Essas experiências vividas
inconscientemente pela criança, certamente não foram concretizada por
impossibilidade de um frágil SER
totalmente impotente. Por isso mesmo, não passaram de desejos de amor e ódio
que devotamos aos nossos pais (não necessariamente aos pais biológicos), mas
que determinam os nossos desígnios conscientes, bem como a força motriz que balizam
os nossos destinos.
A nossa verdade, ou melhor,
a verdade do desejo inconsciente é sempre um enigma a ser decifrado. No enigma,
a verdade e o engano são complementares e não excludentes. A questão
fundamental, na ótica da psicanálise, reside no fato de que somos dois sujeitos
um dos quais nos é inteiramente desconhecido. Os nossos desígnios conscientes
não são capazes de elucidar os enigmas presentes em nosso inconsciente, portador
de uma forte carga afetiva muito poderosa e indelével, que norteiam os nossos
destinos.
Na clinica psicanalítica quem
descobre os crimes é o próprio paciente, necessariamente pela relação
transferencial com o analista. É fato que ninguém transforma ninguém, mas consegue
transformar a si mesmo com a ajuda de outros, especialmente os profissionais da
área da saúde mental..
Mas, trata-se de um processo
longo e sinuoso na relação entre paciente e analista, denominada função transferencial,ao
mesmo tempo em que revela a verdade do sujeito também a produz. Uma das
propriedades de tal relação é a impressão de que o desejo do paciente é uma
crença equivocada de que há um suposto saber do analista, não se tratando de
algo já pronto e acabado, mas ela é, também, produtora do desejo.
Os especialistas da área
consideram que só pode existir desejo do paciente a partir da clínica analítica
e que não há desejo inconsciente antes do inicio da analise demandada pelo analisando.
Isso pode patentear a condição humana de dependência de um Outro (Grande Outro)
que garantiu a nossa sobrevivência e nos salvou do desamparo fundamental.
Nós, humanos, nascemos
biologicamente incompletos e desprovidos dos instintos naturais, que guiam os
outros animais. De início, nada dependeu de nós para depois tudo depender de
nós.
Essa verdade fundamental que
se manifesta no nosso cotidiano, não nos remete diretamente a ela, pois não se
trata de uma verdade desvelada, mas dissimulada e distorcida. Trata-se, pois,
de um enigma a ser decifrado. A teoria e prática da decifração constitui o
objetivo da psicanálise. Claro que existem outras teorias e metodologias com
tal objetivo.
Agora, cabe uma importante
questão que deve ser formulada: por que
nos sentimos culpados daquilo que não cometemos? E ainda mais: para esses
crimes imaginários: por que a existência
de tantas teorias e práticas voltadas para a decifração da nossa verdade
inconsciente?
Interessante é que em nossa
consciência não há traços desses desejos mencionados, mas seus efeitos perduram
por toda vida. Por essa razão, o inconsciente é a nossa verdade, que funciona
como indícios de algo desconhecido por nós mesmos.
No percurso de uma análise
clínica não há receituário para a cura. É o próprio paciente que apresenta
indicações equivocadas, daí as intervenções do analista na busca de desfazer as
ambiguidades, não para eliminá-las, por ser impossível, mas no sentido de
aliviar os sintomas e facilitar a continuidade do processo de cura do paciente.
Interessante é que a ambiguidade está ligada à verdade do sujeito de forma necessária
e não no sentido oposto. Somos nós que construímos e desatamos nós.
O caráter indicial de nossa
historia oculta aponta para um passado arcaico e pelo que são em si mesmo. Essa
persistência, por se manifestar mascarada pelos sintomas, não é devido a importância
desses registros, mas possivelmente pela sua desimportância. Os fatos
minúsculos é que são portadores dos desejos inconscientes e não os grandes
acontecimentos de nossas vidas. Não devemos tentar simplificar as questões
complexas e sim lidar com as complexidades de forma simples. Assim, o
psicanalista opera como suspeito e não com boa fé.
Como a verdade resiste à
significação, mas não cessa de insinuar sua emergência, o inconsciente teima em
se ocultar e só se oferece dissimuladamente em nossos sonhos e nas lacunas do
nosso discurso consciente. Um dos pontos fundamentais da verdade psicanalítica
é que ela só pode ser obtida recorrentemente, a partir do lugar definido pela
relação transferencial analista / analisando que a verdade
do desejo pode emergir. O inconsciente não se oferece nitidamente à escuta do
psicanalista, considerado um suposto saber, suspeitando que nosso relato seja
um enigma a ser decifrado, mas que sabe também que na fala do paciente há uma
verdade embutida com o proposito de ser dita.
A verdade do desejo
inconsciente é sempre sexual, no entanto é uma cobiça interditada. São Paulo
nos revela que as leis sagradas existem porque existe o pecado. A partir da Lei
“não cobices” nos remete ao pecado.
Na clinica não temos de um
lado o “analista-investigador” decifrando a verdade paralelamente com o
“paciente-culpado”oferecendo
pistas falsas ao analista na tentativa de sanar os indícios do seu crime. Quem
descobre o crime é o próprio paciente, desde que haja uma relação com o
analista. Parece que se trata de uma condição necessária, segundo Freud. .
De nada adiantaria ao
analista desvelar essa verdade já pronta, porque ela não é externa ao paciente,
mas sim na relação que mantêm com o analista. Essa verdade não é algo externo
com um dado que poderia ser encontrado, mas ela não cessa de se manifestar
através dos sintomas e queixas do paciente. Expulsar para fora os conflitos
inconscientes é uma das funções do ego.
No tratamento psicanalítico,
a experiência dialógica levada até as suas ultimas consequências, nos alça de
mundo subterrâneo de repetição paralisante de morte para a saída criativa da
vida.
Para tanto, é importante que
o paciente tenha coragem de se rever, respeitando um dos maiores preceitos da
psicanalise que é: “a recusa em tamponar a brecha que existe entre o sujeito e a sua
verdade”.
A verdade do desejo inconsciente
só pode ser desvelada para viabilizar o desenvolvimento
do sujeito humano através da linguagem. A psicanalise, como ciência do
inconsciente, indica que somos seres de linguagem e é somente através dela que
se viabiliza a verdade do desejo humano, dai o poder das palavras.
Texto extraído do livro A INTERPRETAÇÃO DOS SONHOS de autoria de Luiz Alfredo Garcia-Roza, Editora Jorge Zahar.
CAIXA PRETA - Roberto Lanza
28/09/2016
Texto extraído do livro A INTERPRETAÇÃO DOS SONHOS de autoria de Luiz Alfredo Garcia-Roza, Editora Jorge Zahar.
CAIXA PRETA - Roberto Lanza
28/09/2016
segunda-feira, 11 de janeiro de 2016
O LUGAR QUE OCUPAMOS.
FOTO DA NASA
Quando estamos em repouso em nosso leito, estamos viajando, somente dentro da nossa galáxia (Via Láctea), mais de 900.000 km/h., assim dizem os cientistas da astronomia, incluindo-se translação do sol, translação da terra e rotação da terra somente.
Cada indivíduo humano está em algum lugar no planeta, onde se pode identificar o lugar físico e especial no qual ele se situa. Mas a propriedade e o lugar que ele ocupa é muito diferente. Ninguém é dono de nada, O planeta terra pertence ao universo, mas lá existe o mundo antrópico criado pelo próprio homem, no qual habitamos
É fato que vivemos no Planeta Terra, mas a vida humana é sempre uma experiência mundana onde tudo está em ordem, já desembaraçado da condição de caos. Nós humanos estamos constantemente ordenando a realidade onde estamos inseridos.
Faça o que tem que ser feito, pois assim estamos recriando o mundo, em contrapartida estamos desfazendo o caos. Mas, simultaneamente, existem movimentos contrários. As forças destinadas à realidade para a ordem e a harmonização, há uma força contrária que tende à desorganização para se estabilizar no caos. É o mundo da negação.
No senso comum, imundo é aquilo que está sujo, impuro, enquanto que o mundo é aquilo que está limpo, asseado, polido, puro. Portanto, o imundo pertence à categoria de tudo o que está fora de ordem, desorganizados para retornarem à forma original.
Há o mundo das coisas e o mundo dos valores, ou seja, não é possível a existência humana sem que esta não busque seus significados.É assim que consertamos a vida.
CAIXA PRETA Roberto Lanza
11/01/2016
domingo, 15 de novembro de 2015
ENCONTROS E DESENCONTROS
No âmago do ser humano há uma fonte que nutre a fantasia de que em algum lugar
alguém está nos esperando sem nem saber que a gente existe e, no entanto,
pensando em nós com se fôssemos “almas gêmeas”.
Na
realidade, o que esperamos deste encontro? As artes, as músicas, os mitos, as
lendas, etc. parecem que vêm atestando tal condição. Somos realmente peregrinos
na busca de algo intimamente relacionado com a plenitude, para nos sentirmos
completos e inteiros.
Infeliz
daquele que ignora os riscos e as possibilidade de encontrar pela vida alguém,
acreditando que haverá plenitude desse encontro. Haverá sim um encontro, mas
será de duas faltas. A sua e a do outro. Se não for percebido isso o perigo é
maior que da ilusão e vem logo a desilusão..
Estar
inteiro é assumir-se como ser humano saudavelmente independente. Seja,
portanto, um ser inteiro antes de ser apenas a metade de um casal. Eu gosto de
dizer que casado é feito de dois inteiros e não de duas metades. Somente um ser
inteiro pode dizer que ama e é amado. Por que ser apenas metade se você é um
individuo e seu parceiro (a) também é outro?
Afinal,
querer satisfação plena todo mundo quer. Mas abrir mão de si pelo outro é
impossível e pouco recomendável. O justo seria tentar ser fiel ao próprio
desejo, mas deixando de ter certo cuidado com a forma de lidar com isso. Afinal
orientar por uma ética mais solidária talvez seja a saída. Tentar levar as
coisas de tal modo que, sendo fieis ao próprio desejo, não esqueçamos que o
outro existe e que esta alteridade deve ser considerada. Isso é difícil, mas
não impossível. Afinal, que graça teria se na vida fosse tudo muito fácil?
“É
difícil ao homem enfrentar-se e encontrar-se a si mesmo. Avido de exterioridade,
sua avidez o conduz ao Vazio. E, fugindo ele de si mesmo encontra-se com a
tortura da imensidão de coisas que se abrangem nos sentido”. (Da Ordem
2,10,30).
E
ainda:
“Por
que se dispersa fora? Começou a entregar seu coração ao exterior e perdeu-se a
si mesmo. Quando o homem, por amor a si mesmo, entrega seu coração às coisas de
fora, perde-se na fluidez dessas coisas e, de certo modo, dissipa prodigamente
suas forças. Esvazia-se de si. Despedaça-se”. (Sermões 96,2)
Como podemos
entender tais pensamentos filosóficos?
“Ao Ego, será sempre impossível a plenitude! Como “filho
legítimo” da Grande Separação, do surgimento do “eu separado”, do Adão (que vem
do Sânscrito: adhi – aham – “primeiro eu”), sempre lhe faltara algo – pois ele
sofre a perda da identidade com o todo, desde que se diferenciou dessa matriz
primordial, ontológica, representada inicialmente no psiquismo individual pelo
útero materno e, logo após, pela relação simbiótica e edipiana com a figura
materna. E em busca desse Algo ele tece desde o nascimento uma teia de
incontáveis desejos na esperança inconsciente de sustentar-se sobre o imenso
vazio existencial, num desespero inaudível de busca de sobrevivência e auto
justificativa para o devir dessa existência.
Ele (o ego) se esforça laboriosamente através da vigília e
do sono para satisfazer a cada um dos seus desejos, ora justificando-os como
instintos naturais e intransponíveis, ora vestindo-os em trajes mais nobres,
como algum bem social moral, cientifico
ou até mesmo espiritual”.(Professor Afonso Celso L. Wanderley.)
Por
outro lado, existe uma espécie de lei inscrita em cada ser: na qual ele é feito
para a alegria e não para o sofrimento. Viver é uma miscelânea de sentimento, como dor, alegrias, tristezas,
prazeres, euforia, amor, felicidade, sem parâmetros de balizamento. Nada disso
é coletivo (é pessoal) e nem sequer transferível. Daí a felicidade tornar-se um episódio transitório e repetitivo.
Para
grande maioria das pessoas, a vida é um processo de gozar o possível do corpo,
reservando-se para a luz da fé as ocasiões de sofrimento inadiáveis. Nossa verdadeira natureza é a
paz; a verdade; o amor; a felicidade;... São as crenças cegas que fazem nossa
vida infeliz.
Neste
sentido, vejamos o que diz o poeta Vicente de Carvalho (1866-1924) em seu Poema
Velho Tema, no qual ele exprime essa arrigada condição humana: a incapacidade
de sermos felizes por não valorizarmos o que a vida nos oferece.
Só a
leve esperança, em toda vida,
Disfarça
a pena de viver, mais nada.
Nem é
mais a existência, resumida.
Que
uma grande esperança malograda
.
O
eterno sonho da alma desterrada,
Sonho
que a traz ansioa e embevecida,
È uma
hora feliz, sempre adiada
E que
não chega nunca em toda vida
Essa
felicidade que supomos,
Arvore
milagrosa que sonhamos,
Toda
arreada de dourados pomos,
Existe,
sim: mas nós não a alcançamos
Porque
está sempre apenas onde a pomos
E
nunca a pomos onde estamos.
Felicidade,
árvore frondosa de dourados pomos. Existe, sim, mas nós nunca a encontramos
porque ela está sempre apenas onde nós a pomos, e nunca a pomos onde nós
estamos.
VIVÊNCIAS EXPERENCIAIS
Eu
tenho motivos bastante sugestivos para que este texto chegue até você. A razão
é muito simples: Eu vivi, mais ou menos durante 60 anos, imerso numa espécie de
“aquário”, no qual o “peixe é o ultimo a perceber a existência da
água”.
Trata-se
de uma metáfora de vida, própria da
maioria dos seres humanos, os quais vivem na civilização a que pertencem num
desconhecimento crônico do próprio Ser e, pior ainda, numa crescente
despossessão de si mesmo.
É
verdade sim, pelas minhas revelações vivenciais. Tal constatação é real e não
muito diferente da dos meus semelhantes que fazem parte da minha história
singular.
Quando,
pela primeira vez há mais de 20 anos, procurei um Psicólogo para tratamento
psicanalítico, a cada sessão eu elaborava uma série de textos escritos,
explicações e mais explicações, esquemas e desenhos mirabolantes, aporias de
definições e outros argumentos, a fim de orientar o psicanalista. Ele
simplesmente me dizia: nada disso
me interessa!. Eu quero
apenas que você me traga o seu inconsciente. Na época, eu nem sequer imaginava o
que significava o verdadeiro inconsciente, bem como o seu poder de influência.
Gradativamente
fui compreendendo que tudo que eu tramava eram simplesmente boicotes do meu
ego, como mecanismo de defesa para encobrir a minha verdade inconsciente. Tudo
para mim era muito enigmático e doloroso.
Ninguém
escapa de ter que enfrentar uma verdade inconsciente traumática, insuportável para o eu
(Ego) consciente e ter que aprender a conviver com ela. Jung dizia: “o homem somente encontrará a paz quando
consciente e inconsciente aprenderem a conviver em harmonia”.
O
inconsciente não é algo que se oferece de forma benevolente, pelo contrario. é
algo que teima em se ocultar. Os desígnios
conscientes não são capazes de elucidar os enigmas presentes no inconsciente,
que se manifestam dissimuladamente nos sonhos, nos atos falhos e nas lacunas do
discurso consciente.
No
século passado, Freud desenvolveu a ideia de três humilhações sucessivas
sofridas pelo homem. A primeira privou-nos do lugar central do Universo, quando
Copérnico demonstrou que a Terra gira ao redor do Sol. Em seguida Darwin
demonstrou que somos descendentes dos primatas, em razão da evolução cega,
desalojando-nos do lugar de honra entre os seres vivos. Finalmente, Freud
descobriu a predominância do inconsciente em processos psíquicos, atestando que
“o eu não é senhor em sua própria casa”
Isso
acontece porque a verdade do sujeito acha-se aprisionada numa velha palavra,
palavra essa que sugere o não ser a si mesmo (alienação).
Pelo fato da consciência do homem estar desperta, a
ciência define o homem como o observador,
ou seja: a capacidade de observar
a si mesmo. Portanto, é um ser de
potencialidades desprovido de “bola de cristal”.
Nos reinos inferiores ao homem, é dada à forma material
a capacidade de evoluir; no reino humano, pelo contrário, é a consciência que
cresce, se desenvolve e se expande, revelando-se aos poucos com crescente
capacidade de reflexão, de observação e de percepção consciente.
Se for aceito o que foi dito, aos poucos será
percebida que a verdadeira natureza do ser humano está oculta profundamente
dentro dele. Ela é como uma semente que deve se abrir, germinar e crescer por
meio das experiências da vida mundana.
Um dos maiores preceitos da psicanálise é a recusa em
tamponar a brecha que existe entre o sujeito e a sua verdade. Daí, um poderoso
fomento para o desenvolvimento do senso crítico.
O resgate do ser de qualquer paciente,
necessariamente, terá que passar por um longo e sinuoso percurso para o
processo de ressignificação do verdadeiro sentido da vida, descortinando novos
horizontes e abrindo a vida para a criação. Certamente, não será uma tarefa fácil; pelo
contrário, frequentemente se mostrarão difíceis e dolorosas.
Podemos sugerir que o verdadeiro objetivo da vida
humana é a evolução da consciência, que no homem se individualiza e se torna
“consciência de si”. Por meio do autoconhecimento, o homem descobre sua
verdadeira natureza e sua origem divina.
È oportuno descrever a seguinte citação:
“Declara-se
que o homem é uma criatura que está em busca constante de si mesmo – uma
criatura que, em todos os momentos de sua existência, deve examinar e
escrutinar as condições da sua existência. Nesse escrutínio, nessa atitude
crítica para com a vida humana, consiste o real valor da vida humana” (CASSIRER, Emst. Ensaio sobre o Homem: introdução a uma filosofia da
cultura humana. São Paulo: Martins Fontes, 1994, p. 17)
CAIXA PRETA Roberto Lanza
15/11/2015
Assinar:
Postagens (Atom)
