quinta-feira, 13 de agosto de 2015

O LUGAR DO SER


Desenho de Roberto Lanza

Existem pessoas que percorrem o mundo Inteiro  na procura de si mesmo (André Luiz). 

O homem é um animal, consciente de si mesmo, que transcende toda outra forma de vida, mesmo estando na natureza, sendo obrigado a aceitar seus mandamentos e contingências. Ele transcende a natureza porque lhe falta a inconsciência que torna o animal uma parte uno com a natureza,  residência de o próprio SER.
Como na natureza tudo se repete sem qualquer deliberação, o homem se rebela e se defronta com o assustador conflito de ser prisioneiro da natureza e, no entanto, ser livre em seus pensamentos e, ao mesmo tempo, ser uma “curiosidade” da natureza, não estando cá e nem lá. A consciência de si mesmo tornou-o um estranho no mundo em que vive. Sendo um ser apartado da natureza, ele busca fora de si mesmo o resgate da sua própria essência. .   .
Dentro do enfoque antropológico, ao fazer uma ponderação  sobre constatações e sentimentos de uma grande massa delirante da população humana terrena, podemos extratar um profundo sentimento de incompletude. Desta forma, o ser humano é profundamente afetado pela sensação de incompletude. 
O desejo de livrar-se do desconforto provocado por tal extrato, sempre direcionado para o atraente campo da plenitude, pode tornar-se um estado mórbido, diante de uma tentativa de querer evadir-se da incompletude. 
Tal tentativa induz o indivíduo a buscar fora de si mesmo uma nova roupagem para sua alienação existencial, de forma egoística, na busca da almejada plenitude. Estamos constantemente em busca de uma nova versão de nós mesmos. Afinal, como podemos ter uma vida plena, criativa e dinâmica que desejamos?
Eu, pessoalmente, já fui acometido, inúmeras vezes, por uma sensação de existirem duas pessoas habitando dentro de mim, uma parte em oposição à outra. Pior ainda, mesmo em oposição,, uma parte permanecia procurando outra parte perdida para reconciliação. Mas, tal procura era sempre em vão.  Por essa razão, sempre procurei encontrar, dentro de mim mesmo, algo faltante. Nunca havia pensado que dentro de mim existiria outro de mim mesmo, ao qual eu era mais apegado sem o saber. 
Esse algo me parecia uma espécie de vazio que precisava ser preenchido pela pluralidade de bens e valores agregados no mundo exterior. Existia em mim um pressentimento de que era muito temerário pesquisar o desconhecido e, ao mesmo tempo, colocar em duvida o já sabido e ainda não conhecido.  
Enquanto mais procurava explicação para tal estranheza, mais ampliava a dimensão  do desconhecido. No entanto, sempre manifestava-se dentro de mim algo que eu buscava incessantemente, mas não encontrável. Algo que parecia não ter princípio e nem fim, semelhante ao "trem da esperança" que anda viajando sem estação de chegada. Permanecer na ignorância sempre era a solução. mais cômoda.   
A Filósofa Marilena Chauí, em Convite à Filosofia, revela-nos que: 
  • "Ignorar é não saber alguma coisa. A ignorância pode ser tão profunda que sequer a percebemos ou a sentimos, isto é, não sabemos que não sabemos, não sabemos que ignoramos. Em geral, o estado de ignorância se mantém em nós enquanto as crenças e opiniões que possuímos para viver e agir no mundo se conservam como eficazes e úteis, de modo que não temos nenhum motivo para duvidar delas, nenhum motivo para desconfiar delas e, consequentemente, achamos que sabemos tudo o que há para saber [...]. A incerteza é diferente da ignorância porque, na incerteza, descobrimos que somos ignorantes, que nossas crenças e opiniões parecem não dar conta da realidade, que há falhas naquilo em que acreditamos e que, durante muito tempo, nos serviu como referência para pensar e agir. Na incerteza não sabemos o que pensar, o que dizer ou o que fazer em certas situações ou diante de certas coisas, pessoas, fatos, etc. Temos dúvidas, ficamos cheios de perplexidade e somos tomados pela insegurança"..
Por outro lado, eu era dominado por um chamamento compulsivo para o escapismo ou quietismo para permanecer na zona de conforto sem nada querer arriscar na direção do desconhecido. Para tanto, era necessário negar a realidade, evitando o confronto com a minha própria verdade inconsciente que ,  por estrutura, sempre resistia à significação.
  • "Quando digo o que eu sou, de alguma forma, eu o faço para também dizer o que não sou. O não ser está no avesso do ser, assim como o tecido só é tecido porque há um avesso que o nega, não sendo outro, mas complementando-o. O que não sou também é uma forma de ser. Eu sou eu e meus avessos [..]. Eu procuro por mim tal qual o artesão procura sua arte escondida nos excessos da matéria bruta de seu mármore. [...].Que mundo é este que facilita os encontros e nos torna estranhos a nós mesmos”. (Padre Fábio de Melo) 
Realmente, eu nem sequer imaginava que existia dentro de mim uma instância inconsciente que sequestrava o meu SER e me colocava numa masmorra psicológica, cobrando-me um doloroso resgate. Como prisioneiro, eu era subordinado aos caprichos do sequestrador que comandava os meus sentimentos, as  minhas condutas, e o meu  modo autônomo de viver. Jamais poderia imaginar a supremacia dessa obscura autoridade, com tamanho poder de ingerência e de intrusão na minha condição existencial.Tudo me conduzia para uma intrigante estranheza. 
De acordo com Lacan, os seres  humanos não passam de meros epifenômenos nas sociedades em que pertencem, em razão de ser determinado por um processador  cerebral de informações recebidas dos órgãos sensoriais. de forma aleatória e autônoma..
Em contrapartida, as emoções tais como: angústia, ansiedade, nostalgia de escolhas perdidas, sentimentos de culpa, medos, frustrações, privações. etc. Enfim, perturbações e conflitos intrapsíquicos de toda ordem, que se manifestavam sob a forma de sintomas psicossomáticos, com intensidades e frequências variáveis,situacionais no tempo. 
No entanto, eram os sintomas que bancavam a minha aparente segurança existencial num contexto de normalidade, comum aos  meus relacionamentos familiares, profissionais e sociais. 
Tais sintomas, de acordo com a minha estruturação psíquica seguia-se pela via simbólica ou anatômica para alívio dessas tensões emocionais, pois, como disse Freud, “o aparelho psíquico não tolera o desprazer; tem de desviá-lo a todo o custo, e se a percepção da realidade acarreta desprazer, essa percepção – isto é, a verdade – deve ser sacrificada”. 
No entanto, para que se possa entender esse processo, a forma como as questões conflitivas de desprazer são processadas, faz-se necessário a busca do autoconhecimento, incluindo-se ajuda de profissionais da área da saúde mental. 
Quando, pela primeira vez há 20 anos, procurei um Psicólogo para tratamento psicanalítico, inicialmente, numa lógica matemática eu levava para cada sessão uma série de textos, argumentos escritos, desenhos mirabolantes, esquemas mágicos, explicações em cima e de outras explicações, aporias de definições, etc. O analista sempre me dizia: nada disso me interessa. Eu quero que você  traga-me, apenas, o seu inconsciente. Na verdade, eu já tinha noção  da existência do inconsciente,  como conteúdo mental e  anatômico, mas desconhecia que ele era a minha verdade.
A causa primeira de qualquer pessoa é a sua condição de filho, fruto do desejo de seus pais. Isso ele irá carregar para o resto de sua vida. De início, o filho é objeto de desejo dos pais. O desejo é necessariamente carência. A relação com o mundo é de escolhas e perdas de objetos, ou seja, relação objetal, o que significa que para se constituir como “eu”, a consciência precisa da alteridade com o que está fora e do exterior que está introjetado dentro de si, pela linguagem.  
De acordo com Lacan, o corpo é sobrescrito//superado pela linguagem. O corpo é subjugado; “a letra mata” o corpo. O vivente – nossa natureza animal – morre e a linguagem surge em seu lugar, revivendo-nos. As diferentes partes do corpo tomam sentidos determinados pela sociedade e pelas figuras paternas. A coisa real precisa  desaparecer para poder ser representada. Dai o escritura mental passa a representar o corpo e o mundo para cada indivíduo. O homem desprovido da linguagem desaparece e o mundo exterior também;
Segundo Freud, de início o homem só tem de homem o status de animal vivo. Como tal não passa de um ser de necessidades. Para conquistar a sua identidade, será preciso que se torne ser de desejo, isto é consciência desejante ou consciência de si.
Essa relação, apesar de imaginária, é necessária para que os desejos se inscrevam, melhor dizendo: o desejo dos pais e o próprio desejo do filho, pois não há possibilidade da existência da criança sem o olhar desejante da mãe. Mas a criança pode ver os olhos dela e, no entanto não consegue entender o seu olhar e nem sequer qual o seu desejo, o que se torna enigmático, uma vez que se trata de consciência de objeto, mas não é consciência de si mesma. Absorvida na contemplação do objeto, ela nele se perde e nele se aliena. Ela é, literalmente, uma consciência sem eu.
Como o desejo humano é não natural, ele só pode desejar outro desejo que também é não natural. O desejo humano é, pois desejo de outro desejo.
É o desejo que vai operar a oposição entre consciência-de-outra-coisa e consciência-de-si, entre o não eu e o eu. Só há eu no e pelo desejo. O desejo se revela sempre como meu desejo, enquanto o conhecimento revela o objeto, o desejo revela o eu.
Por isso mesmo o ser humano é indubitavelmente um ser de desejo que deseja o desejo do outro, mas sem ter o controle do outro desejo. Tudo isso torna o desejo do sujeito enigmático e sem controle. Querer satisfação plena todo mundo quer. Mas abrir mão de si pelo outro é impossível e pouco recomendável. O justo seria tentar ser fiel ao próprio desejo, mas tomando um certo cuidado com a forma de lidar com isso. Afinal orientar por uma ética mais solidária talvez seja a saída. Tentar levar as coisas de tal modo que, sendo fiéis ao próprio desejo, não esqueçamos de  que o outro existe e que esta alteridade deve ser considerada e respeitada. Isso é difícil, mas não impossível. Afinal, que graça teria se na vida fosse tudo muito fácil?
Finalizando, o que o sujeito do desejo inconsciente é levado a descobrir? Inicialmente, como diz Lacan, que “não existe outro bem a não ser o que pode servir para pagar o preço pelo acesso ao desejo”. (Dicionário Psicanalítico Larousse – Artes Médicas).

CAIXA PRETA Roberto Lanza
13/08/2015




sexta-feira, 12 de junho de 2015

A FONTE SECOU.

Como a fonte secou, gostaria de saber como o Partido dos Trabalhadores vai resolver a situação real dos trabalhadores  e da população mais pobre, uma vez que a "marolinha virou onda".
Reduzir despesas é o mesmo que derrubar benesses e privilégios. Aumentar impostos é o mesmo que incentivar a sonegação, diante de um governo de gestão desacreditada.Em ambos os casos não haverá consenso. A população já está no limite de saturação;

CAIXA PRETA Roberto Lanza 
12/06/2015

PENSO! LOGO SOFRO?

Questão de foco: "Se você pensa que pode ou se você pensa que não pode, de qualquer maneira você está certo". (Henry Ford).

Então, aproveite bem o dia dos namorados!

CAIXA PRETA Roberto Lanza
12/06/2015

domingo, 17 de maio de 2015

ILUSÃO DE COMPLETUDE


Desenho de Roberto Lanza
ATÉ ONDE PODEMOS FICAR OU AVANÇAR? 





No Evangelho de Marcos 8.34-35 ele escreve o que Jesus Cristo disse: "E chamando a si a multidão, com os seus discípulos, disse-lhes: Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me" [...} Porque qualquer que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, mas, qualquer que perder a sua vida por amor de mim e do evangelho, esse a salvará.

Permanecer sobre a ponte é o lugar do "porto seguro";  das certezas, da procrastinação; da "esperança milagrosa" e do "espera - ser". Seguir para o outro lado da ponte é lançar-se para a vida, é arriscar-se nas alturas e nas incertezas: é ter coragem de se rever para defrontar com a sua própria verdade de SE  fundamentalmente desamparado. Nesse sentido, torna-se necessário lançar-se na angústia existencial.

Querer satisfação plena todo mundo quer. Mas abrir mão de si pelo outro é impossível e pouco recomendável. O justo seria tentar ser fiel ao próprio desejo, mas deixando entretanto de ter um certo cuidado com a forma de lidar com isso. Afinal orientar por uma ética mais solidária talvez seja a saída. Tentar levar as coisas de tal modo que, sendo fiéis ao próprio desejo, não esqueçamos que o outro existe e que esta alteridade deve ser considerada. Isso é difícil, mas não impossível. Afinal, que graça teria se na vida fosse tudo muito fácil?

Amarga realidade é a de quem fecha os olhos para os riscos e as possibilidades de encontrar pela vida alguém, acreditando que haverá plenitude desse encontro. Haverá sim um encontro, mas será de duas faltas. A sua e a do outro. E se não se pode ver isso, o perigo é maior porque da ilusão vem logo a desilusão, lógico. Eis aí o horizonte da incompletude. 

A vida é a arte das escolhas, dos sonhos, dos desafios e da ação. Em toda perda há um ganho. Em todo ganho há uma perda. Quem escolhe o que perder, perderá o que não escolheu. Não apague a sua estrela para ficar se exibindo para ser notado pelo brilho do olhar dos outros.

Se a pessoa se sente “escolhida” (veja COMPLACÊNCIA EXCESSIVA neste Blog) permanece insatisfeita, por não ter feito a escolha que desejaria, ficando engessada na sua capacidade de dizer “não” para aquela posição existencial.  Como a vida é uma metáfora de quem você aparenta que é, a negação da sua verdade  inconsciente se manifesta sob a forma de decepção e de insatisfação através dos sintomas. Assim, a pessoa permanece no cativeiro sequestrada por si mesma. Acontece que o sequestrador (o outro de si mesmo) cobra o resgate (na natureza ninguém fica impune por não querer ser a si mesmo) colocando a pessoa angustiada e frustrada, que vai crescendo cada vez mais como uma bola de neve, em razão do desconhecimento crônico de si mesma. .É ai que reside a alienação existencial.

Pior ainda, a pessoa fica na expectativa de uma solução mágica, gerando ansiedade e frequentemente imobilizada diante dos desafios da vida cotidiana, em razão do estado de assujeitamento a quase tudo, por ignorar a sua própria verdade e o próprio ser. Nunca fique na “esperança milagrosa” de que o mundo vai mudar para melhorar a sua vida. O outro lado da ponte é lugar onde se localiza o vazio existencial, o qual cabe a cada um preenchê-lo mediante a contabilização das suas realizações pessoais. Ninguém nasce com receituário e bula para orientar o seu destino. Conquistar o seu estar no mundo é tarefa penosa de cada um.

O que todo mundo precisa é do resgate do próprio SER mediante a libertação das amarras de sua alienação existencial na linguagem e, inconscientemente, nos fortes laços afetivos indestrutíveis e profundamente enraizados que mapearam a sua realidade psíquica..Somos "plugados" demais ao nosso romance familiar vivenciados na pequena infância.

Vejamos a seguinte poesia:

Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
E quando o navio larga do cais
E se repara de repente que se abriu um espaço
Entre o cais e o navio,
Vem-me, não sei por que, uma angústia recente.
Uma névoa de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira janela onde a madrugada bate,
E me envolve como uma recordação duma outra pessoa
Que fosse misteriosamente minha.

PESSOA, Fernando. Ode MARÍTIMA. O eu profundo e os outros eus. Rio de Janeiro; Nova Fronteira.
  
Essa pessoa misteriosamente minha é na verdade uma falta primordial, protótipo da angústia e da saudade: falta que não é do outro, mas do próprio ser, segundo o Psicanalista Lacan. Quer você entenda quer não,  o ser humano é estruturalmente um SER de falta de presença constante. Enquanto viver sempre estará faltando-lhe alguma coisa. Somos seres recorrentes à nossa originalidade. 

Como falta e desejo são coexistentes, no lugar da falta surge o desejo. Desejo que, é caracterizado por uma "presença de uma ausência”; é a “nostalgia de algo perdido”, segundo Lacan.


Aqui cabe a seguinte citação: O desejo é a própria essência do homem, ou seja, o esforço pelo qual o homem se esforça por perseverar no seu ser". (Baruch Spinoza).

“Esse algo ou objeto perdido” quer dizer, segundo Lacan: Outro (Grande outro primordial). Primeiro objeto de amor da criança, ou seja – quem exerceu a função materna (geralmente a mãe biológica). No entanto, quem tem tudo a tempo e a hora nada tem a desejar. Se esse elo não for rompido nada faltará ao sujeito e em contrapartida não haverá desejo. A falta é uma condição essencial para o surgimento do desejo. Caso contrário, seremos  um ser desprovido de motivação para viver

Eis que o desejo torna-se a grande aventura humana! Mas, para vivermos na civilização torna-se necessário suportar a sua insatisfação (sublimação), como o preço que ele próprio se impõe. É o preço que se paga por uma realização possível. Da onipotência da satisfação, o sujeito passa para a possibilidade da realização.(Ver artigo publicado neste Blog denominado “UMA QUESTÃO DE VIDA OU MORTE”).

Na busca do elo perdido, o homem se aventura a relacionar-se. Tudo que encontra, porém, é a incerteza, a falta de garantias. De nada adiante reeditar o Grande Outro, pois ele não pode oferecer o Bem Supremo. Entregar-se a esse Outro é o que ele tenta fazer, sustentando ainda a ilusão de que se tudo lhe der, correspondendo ao que imagina ser esperado dele, do Outro tudo terá. Ou seja, sendo ele tudo o que o Outro espera só para ele o Outro existirá também. Não é preciso ter horror da falta e nem da obscura autoridade do Outro, porque o Outro doa amor e não requer prova de amor do filho, Mas ele permanece na condição de que ele é que é o agente responsável para garantir tal reciprocidade, que não passa de uma fantasia. para suprir o desejo do Outro..Tal suposição torna-o o objeto que complementa o Outro. 

Pura repetição infantil, em que o sujeito ansiava pelo puro reconhecimento de seu desejo, para ser o objeto único de desejo do Outro. 

Mas quem não quer ser reconhecido? Entretanto, será apenas no suporte da insatisfação que certo reconhecimento será possível ao desejo e ao sujeito: Se antes via apenas o Outro, e, portanto a si mesmo, agora deve ver o outro, aquele que desvia os olhares do Outro e dele mesmo, fazendo-se conhecedor de uma falta que não se completa nunca. Ao abrir Mão do reconhecimento absoluto, o sujeito ingressa numa outra via: a da possibilidade de existir, pois de modo diverso, o reconhecimento de um implicaria na morte do outro.

Assim, o ser humano é um ser dividido numa busca constante da sua outra metade supostamente perdida. Pura ilusão! Não há possibilidade de sobrevivência sem o todo, sem o uno. Conviver com a dualidade é uma condição de vida ou morte.Eu sou eu mesmo e nada me falta.O que existe na realidade é a Fantasia da Separatividade

CAIXA PRETA Roberto Lanza
17/05/2015

  

segunda-feira, 4 de maio de 2015

NOSTALGIA DA VARIEDADE PERDIDA.

Pela nossa estruturação psíquica, somos condenados a sermos livres para escolher o que queremos e, ao mesmo tempo, condenados à recorrentes. O que significa isto? Vejamos o que disse Freud:
            “Sempre comi quando tive fome. Vivi solidão confortavelmente. 
E, duas ou três vezes na vida, encontrei uma pessoa que quase me compreendeu”. 
Oh  tragédia da “vida aos bocados”, que nos condena à recorrente!”.

Um simples exemplo de recorrência na vida cotidiana, de todas as pessoas. A todo momento ,existe uma imensidão de pessoas fazendo compras em estabelecimentos comerciais. Qualquer pessoa para efetivar a compra de mercadorias, diante do caixa, a aritmética tem que estar presente, como um grau de recurso absoluto. No campo jurídico, o ato lícito também tem que estar presente. É muito comum na área jurídica falar-se em recursos, numa espécie de jogo "perde/ganha", "tentativas/erros", dependente das instâncias jurídicas. Na nossa mente também existem instâncias psíquicas que são ambíguas e contraditórias, dependentes das crenças/valores de cada pessoa. 

No campo afetivo tudo é mais complexo e atuante de forma imperiosa e autônoma, sem nosso conhecimento. Estamos sempre recorrendo às nossas experiencias vivenciais do passado. Diante dos estímulos externos, as nossas reações são condicionadas pela a nossa história de vida pessoal e principalmente pelo nosso sistema de crenças/ valores.

Segundo Freud: "O adulto nada mais é do que o filho da criança que foi [...] O nosso passado está sempre atualizado no presente. Há sempre uma retroalimentação permanente". O que significa dizer porque somos condenados à recorrente. 

Somos também seres livres para realizar nossas escolhas. Toda escolha implica numa perda, porque aquilo que foi escolhido pode ser uma recusa ou perda daquilo que não foi escolhido. Fazer uma escolha é uma tomada de decisão (de-cisão), o que quer dizer que toda escolha implica numa cisão.Assim disse um Filósofo: " O diabo é que entre 100 escolhas só posso fazer uma e as outras 99 ficam me perturbando". Neste sentido, há uma espécie de sensação de vazio semelhante à uma "nostalgia de variedade perdida". 

CAIXA PRETA Roberto Lanza
04/052015


domingo, 3 de maio de 2015

NÃO HÁ COMPLETUDE. EXISTE PARTILHA.

“Para viver à dois, antes, é necessário ser um.”
Fernando Pessoa

Segundo Aristófanes, dramaturgo grego (c.447 a.C. – c.385 a.C.), antigamente éramos seres andróginos e completos e fomos separados em duas pessoas, por Zeus em um de seus ataques de ira. Desde o dia em que fomos partidos em dois, procuramos a nossa “outra metade”.

Infelizmente, muitas pessoas ainda hoje veem num relacionamento a promessa de se tornarem “completas”. Nada mais equivocado do que esta ideia.

Não precisamos do outro para sermos completos, porque já somos completos. Trazemos dentro de nós tudo o que precisamos para viver. O outro deveria vir para COMPLEMENTAR e não para COMPLETAR. Deveríamos nos ver como seres inteiros buscando outros seres inteiros para juntos sermos melhores e mais fortes.

Enquanto tivermos esta ideia de metade, sempre procuraremos fora de nós as respostas que estão dentro de nós, sempre viveremos nos apoiando, nos escorando nos outros, dependendo de opiniões e manifestações de afeto e nunca conseguiremos estar verdadeiramente conosco pois sempre teremos um buraco dentro de nós e, os momentos que estivermos sós, terão gosto de vazio, de solidão.


Precisamos aprender a nos dar amor, atenção, cuidado, respeito, admiração, etc., pois se não fizermos isso, ficaremos esperando que o outro adivinhe, por iluminação divina, o que queremos e o que precisamos. Estaremos sempre cobrando das pessoas que estão conosco mais do que elas podem dar e estaremos sempre “quebrando a cara”, sempre nos decepcionando, até o dia em que passaremos a dizer que “não temos sorte no amor”.


Sorte ou Azar não existem dentro de um relacionamento. Existe maturidade afetiva, inteligência emocional, auto-estima e bom senso. É isto que vai fazer um relacionamento dar certo ou não.


Vale ressaltar, quando digo “dar certo”, eu não estou falando de um relacionamento que dure toda a vida (mesmo porque às vezes as pessoas arrastam um relacionamento que já acabou pela vida toda!) e sim de uma relação que valha a pena viver, independente de seu tempo de duração.


Transcrição do artigo original de: Dora Guiseline – 2006-2010. www.revolucione.com.br.   


CAIXA PRETA Roberto Lanza

03/05/2015

sábado, 2 de maio de 2015

NATUREZA E CULTURA


Ao nascer, o homem só tem de homem o status de animal vivo. Como tal, não passa de um ser de necessidades. Para conquistar sua identidade, será preciso que se torne ser de desejo, isto é, consciência desejante ou consciência de si (Freud).

Esse desejo provém da falha, da impossibilidade de que o outro o entenda plenamente ou mesmo que atenda totalmente sua demanda de amor inesgotável, portanto, impossível de ser atendida (retorno ao estado originário).

Na verdade, o "desejo humano, por não ser natural, é fundamente estruturado como desejo de desejo do outro" (Lacan). Assim, o que o sujeito deseja é possuir o desejo do outro o que é impossível, já que desejar é atestar que se está em falta, que é uma condição própria de todo ser humano. Falta, porque ele se julga incompleto.

A ilusão de completude é uma fantasia que nos leva a crer que possuímos o desejo do outro, mas na realidade, quer queiramos ou não, o desejo do outro sempre nos escapa, em função da singularidade de cada indivíduo. Eu consigo ver os olhos do outro semelhante, mas jamais consigo entender o seu olhar, bem cono o seu desejo e qual o seu julgamento sobre mim. Em razão disso, quando dois humanos se encontram há sempre uma interpelação e uma necessidade de reconhecimento recíproco, para a autenticação de cada  existência, Coisas são coisas e pessoas são pessoas. Estamos sempre inseridos numa espécie de "aquário". Segundo Freud, as relações humanas não se dão de ser para ser, mas sim  de ser de falta para ser de falta.

Desse modo, o sujeito está desde sua origem referida ao outro, que pela via da palavra, único meio de intercâmbio, presentifica a cultura.


Lidar com a questão da natureza e da  cultura é muito antagônico e paradoxal: 
"Não há possibilidade de sobrevivência sem o todo, sem o uno. Conviver com a dualidade é uma condição de vida ou morte. Se a mente se caracteriza por ser dual, por separar, dividir, confrontar, julgar, destacar, essa mesma mente jamais poderá apreender a realidade se esta for molar, global, una ou se pelo menos for ´´não-dual``. Sendo a mente dual , e sendo a dialética  um processo puramente mental e que consiste em analisar ou procurar apreender a realidade através da mente, a própria dialética  está condenada, pela natureza do instrumento mental que escolheu, a oscilar constantemente entre um homogêneo e um heterogêneo, impossíveis de absolutizar pelo fato de o próprio instrumento, autor desta oposição, ser, ele mesmo, feito de energia" (Pierre Weill)

         Há na sociedade um grupo determinado de fenômenos com caracteres nítidos que se distinguem daqueles estudados pelas outras ciências da natureza. O que quer dizer que se todos os fatos fossem sociais, a Sociologia não teria objeto próprio e seu domínio confundiria com o da Biologia e da Psicologia.

Quando o homem nasce é lançado fora de uma situação que era definida, tão definida como os seus instintos, para uma situação indefinida, incerta e exposta. Somente há certeza com relação ao passado – e, quanto ao futuro, apenas com relação à morte. O homem é dotado de razão: é a vida consciente de si mesma: tem consciência de si mesmo como entidade separada, a consciência do seu curto período de vida, do fato de haver nascido sem ser por vontade própria e de ter de morrer contra sua vontade. Somos condenados  a "sermos dois para sermos um só".

O mundo simbólico já pré-existe antes do nascimento de qualquer ser humano, dotados de padrões de comportamentos, sistema financeiro, mundo jurídico, religião, estabelecimentos de ensino e conhecimentos de ordem empírica, científica, filosófica, teológica, etc., bem como de uma infinidade de outros condicionamentos. Esse mundo simbólico também denominado “O cosmo humano” rege a sua conduta e, sobretudo a sua submissão e a sua subversão. 

Ao ter que se adaptar nesse chamado “cosmo humano” produto do mundo exterior, dentro de um contexto aleatório e impositivo e formando uma espécie de “computador singular”,  a maneira de agir e de pensar do homem torna-o uma consciência diferenciada das demais consciências individuais. É preciso entender que a subjetividade, sendo uma condição de singularidade de cada um, não permite comunhão de idéias e tudo mais, somos obrigados a acatar as diferenças e suportá-las mesmo.

Se não me submeto às convenções e tradições culturais existentes violando as leis do direito, a consciência pública, pela vigilância que exerce sobre os cidadãos e pelas penas que tem legitimadas ao seu dispor, reprime todo ato que a ofende, até mesmo aqueles de efeitos menos danosos como, por exemplo, sair nu pelas ruas da cidade, apesar da coerção ser menos violenta, não deixa de existir.

 O comportamento humano está definitivamente inscrito na cultura que o gerou. Desta forma, seu modo de agir e de pensar é dotado de um poder imperativo e coercitivo, quer ele queira quer não. Os atributos da singularidade de cada um fazem com que o indivíduo adote comportamentos peculiares com tendências compulsivas de repetição, em sintonia com a cultura que o gerou, incluindo-se os princípios éticos e a força do caráter introjetado.          Esses atributos impõem ao indivíduo uma conduta que pode ser adaptativa por aceitação ou rejeição, forçando-o a respeitá-los ou transgredi-los, constituindo-se atos lícitos ou ilícitos em coerência com os ditames dos costumes e dos padrões aceitos pela sociedade. A cidadania exercida pelo indivíduo está inserida na consciência pública num contexto de liberdade ou de submissão, cabendo a cada um decidir o que mais lhe convém, de conformidade com o seu livre arbítrio. Mas, qualquer que seja a sua conduta, a vigilância da consciência social coletiva pertinente, não deixa de existir. 

       Assim, o homem desnaturou-se e colocou a sua identidade na linguagem tornando-se um eterno insatisfeito, sempre em busca de sua reintegração existencial.. 


CAIXA PRETA Roberto Lanza
02/05/2015