segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

BODE EXPIATÓRIO

O bode de estimação” do Palácio do Planalto fixou residência  na sociedade desde 1996 que vem tolerando a “expiação do bode”, uma vez que a correção da tabela do  Imposto de Renda  vem sendo corrigida abaixo da inflação real. Recentemente por conveniência eleitoral, o "bode" saiu do Planalto e passou para o Congresso Nacional, que o devolveu para o Planalto. Com o veto presidencial, o "bode" foi novamente devolvido para o Congresso. Afinal, quem ficará com a “expiação do bode”?

Conta-se uma pequena história de um pequeno roceiro pai de 10 filhos menores, cuja família morava em um só cômodo de um barracão. Aquela situação caótica perturbadora, bem como a produção e a comercialização dos frutos de seu trabalho de roceiro estavam indo de mal a pior. O seu  estado emocional já estava atingindo o limiar do colapso..

O roceiro resolveu procurar o Padre da Igreja na cidade, em busca de consolação. O Padre tentou convencê-lo de que a situação dele era muito melhor do que a de outros paroquianos.

Não conseguindo convencê-lo. O Padre teve outra ideia e perguntou-lhe: Irmão! Você ainda tem aquele bode de estimação? Ele respondeu que sim. Daí o Padre aconselhou-lhe para colocar o bode fedorento dentro de casa. O roceiro protestou, mas sua fé foi mais forte.

Chegando em sua casa ele colocou o bode dentro  do cômodo que abrigava toda a família. No decorrer do tempo, as condições de sobrevivência passaram de pior para insuportável.
O roceiro recorreu novamente ao Padre e ele respondeu: se é assim, você tira o bode da casa e coloca-o no quintal. O alívio foi tão grande que o agricultor voltou ao Padre para lhe agradecer e ser perdoado pela a sua incompreensão de que realmente existem situações piores do que aquela que ele vivia antes.

Considero que a atual situação política-econômica-social que anda severamente comprometida e agravando a expiação do bode  na sociedade com mais impostos, assim como corrupção, escândalos políticos e outros. À propósito a bancada política da situação, já pretende criar um novo bode expiatório, ou seja Fernando Henrique Cardoso. Com que objetivo? Quantos "novos bodes expiatórios" surgirão para travar o andamento da CPI da Petrobrás?

O certo é que não foram os contribuintes que criaram "o bode expiatório", que,cada vez mais, está se tornando insuportável. Mas, a sabedoria popular já sabe quem criou essa praga para crescer e malvada de ruim para o Brasil.. 

CAIXA PRETA

23/022015

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

UMA QUESTÃO DE VIDA OU MORTE

Gostaria de repassar-lhes, literalmente, um artigo de autoria da Psicóloga Deborah Maria Michielini, publicado na revista CENÁRIO - Psicanálise e Cultura, edição 05/1996, do GREP - Grupo de Estudos Psicanalíticos de Belo Horizonte. O assunto é um pouco longo, mas vale a pena ler por se tratar de uma questão fundamental para quem se interessa em conhecer-se melhor. .

        DESEJO HUMANO 

 Quando as pessoas procuram por uma psicoterapia, é comum que se descubra por trás de seu sofrimento uma dificuldade em relação, a saber, sobre o próprio desejo: até onde agem de acordo com o seu desejo, e até onde o fazem de acordo com o desejo do outro?
 A angústia por não se saber mais a distância entre o próprio desejo e o desejo do outro é um dos pivôs na análise do sujeito, que anseia por seguir um caminho no qual não se encontre tão à mercê do outro.
         Mas onde se inicia esta história do desejo? Qual o seu papel na história do sujeito? E qual é, exatamente, o fator de angústia que essa questão desencadeia?

O início

Para Freud, a porta para a emergência do desejo se abre a partir da primeira experiência de satisfação do infans: após a primeira mamada, uma imagem perceptiva do objeto provedor do alimento (no caso o seio) permanece gravada na memória do recém-nascido. Quando da segunda emergência da necessidade, ainda incapaz de realizar uma ação específica que lhe resolva a tensão interna, o bebê investirá nessa imagem mnêmica (memória), alucinando o seio e a satisfação da necessidade. No reaparecimento da percepção, estabelece-se o desejo.

O que se pode pensar a partir daí é que o desejo surge de uma falta, apoiada numa experiência de satisfação. Fosse apenas uma necessidade nesse momento, um objeto alucinado não resolveria a questão. Trata-se de desejo porque se realiza através de uma fantasia.
Vemos que o desejo não é algo natural; afasta-se da necessidade, impondo-se por uma falta numa relação com o outro. E se por um lado ele busca um objeto, o faz diferentemente da necessidade, orientando-se por sinais que constitui o fantasma (“encenação imaginária em que o indivíduo está presente e que figura, de modo mais ou menos deformado na realização de um desejo”).
Numa referência à noção de desejo na filosofia de Hegel, Garcia Rosa (1988) vai dizer que o desejo, por ser não natural, e que só outro desejo teria essa característica. O desejo, portanto, seria desejo de desejo; desejo do desejo do outro, nas palavras de Lacan, também citado por Garcia Roza.
A relação é sempre com o outro...
A cria é indigente, incapaz de se bastar. Para que sobreviva, carece de um OUTRO Materno (Grande OUTRO). É ele que atende o seu apelo urgente, preenchendo lhe a falta.

Quão onipotente não é esse Outro...
A criança chora, a mãe tem para dar.
No seu dar, a compreensão de um apelo.
Na interpretação do apelo, a introdução na linguagem.
Na introdução da linguagem, a criação da demanda.
Na criação da demanda, a viabilização do desejo.

Mas... Quando a criança chora, quem saberá exatamente do que se trata? Pois digo que é só no imaginário (Registro do engodo e da identificação) que essa relação pode-se dar. Somente no imaginário materno corresponde ao lugar onipotente de saber do desejo do outro. Ao choro do infans, a mãe responde: “É de fome? É de frio? É de dor?”, porque assim espera que seja. A sua falta torna-se, então, a fala do filho, o seu desejo, o desejo do filho.
Neste momento, mãe e filho formam uma mônada, uma célula só, na fusão, o desejo confuso do bebê é espelhado no outro e só assim pode ser reconhecido e atendido. Uma sintonia perfeita (?) mãe-bebê, num mundo onde nada mais além parece existir. Cada um ocupa o lugar daquilo que completa o outro, preenchendo o vazio deixado pela falta original.
Essa relação, apesar de imaginária, é necessária para que os desejos se inscrevam, pois não há possibilidade da existência da criança sem o olhar desejante da mãe.
É no reconhecimento da cria enquanto FILHO, o qual carece do outro enquanto MÃE, que é possível a estruturação de um sujeito humano. É o olhar estruturante, se sobrepondo ao puro instinto materno (Elizabeth Badinter, em seu livro o Mito do Amor Materno mostra como o instinto materno não é algo que parte do ser humano, mas que se constrói durante a própria história da humanidade. Trata-se de um amor conquistado e não dado pela espécie, como no caso dos outros animais). Aquele que é FILHO, ele precisa ser investido libidinalmente, ou seja, ele demanda amor. Mas, a demanda só é de amor porque a mãe assim reconhece.                                                                                                                      Na falta desse olhar apaixonado, não se estrutura um homem cria-se apenas um ser biológico. A cria carece de um envoltório libidinal. Garcia Roza (1985), citando Lacan, diz que, tal como o pinto rompe a casca do ovo e perde, não somente a mãe, mas a membrana que o protegia, a criança também, na hora do parto, não perde a mãe, mas uma parte de si mesma. E diz ainda Lacan: “Rompendo a casca, faz-se o homem, mas também a omelete”, ou seja, se este ser que nasce não for investido por um envoltório erógeno imaginário, ele será só um ovo e se esparramará, movido pelo puro instinto, sem uma forma humana.
Os limites corporais que a mãe designa à criança impedem que ela sucumba a um Real cruento o qual não pode ser simbolizado totalmente. Penso o Real como um registro da ordem do inominável, no qual o sujeito encontraria saída para a vivência do desamparo. Como bem observou R. Spitz (1988) nos casos de crianças institucionalizadas, sem essa moldura libidinal, mesmo supridas todas as necessidades, essas crianças entravam num estado de marasmo, o qual denominou Síndrome do Hospitalismo. Do que elas careciam? Do desejo do outro, do olhar, do toque sedutor que erotiza e livra o ser humano do puro estado natural, animal, biólogo.
O desejo desse primeiro momento imaginário, entretanto, não reconhece ainda como tal. Aquela citação Lacaniana, “O desejo é desejo de desejo do outro”, indica que é numa relação especular, por oposição ao outro, que o sujeito saberá do seu desejo, ou seja, a partir do desejo do outro que se lhe impõe. O outro funciona como um espelho, que lhe devolve a própria imagem. A partir dessa relação espelhada, a criança não é mais só uma massa esparramada, como diz G. Gabas (1980), explicando a fórmula do momento narcísico no qual a criança se encontra:

 DESEJO / SUPORTE

A criança toma a si mesma como suporte, mas é uma estrutura mediata: o outro modela o seu desejo. G. Gabas explica que esse duplo narcísico exige do infans ser dois para ser único. Tem que ser ele mesmo e o objeto. Neste momento, o sujeito e o desejo ainda não existem como tais. Terá de haver uma clivagem para que se possa sair dessa relação onde o sujeito se alterna no outro se perdendo de si mesmo e do seu desejo. Tem-se que sair, pois tal como no mito de narciso, que se precipitou nas águas apaixonado pela própria imagem refletida, o destino do sujeito apaixonado pelo Outro de si mesmo é a morte. E essa díade só se poderá romper com a entrada de um terceiro elemento que intervém desviando os olhares da contemplação. Sem isso não se torna possível a saída da relação imaginária e a célula narcísica se fecha, abortando um SUJEITO QUE AINDA NÃO É sendo ele ainda um esboço do EU. E é pela via do Simbólico (´”O simbólico faz do homem um animal fundamentalmente regido, subvertido pela linguagem, o que determina as formas de seu vínculo social e suas escolhas sexuadas”) que a célula há de se abrir, seguindo a trilha da linguagem.
Esse simbólico, entretanto, não é algo que só agora aparecerá. Ele já está presente desde sempre, sendo que somente por este tempo é que a criança se dá conta dele. É que na célula narcísica há um furo, localizado na mãe e no seu desejo. Na falta, o prenúncio do simbólico. (Observação minha: Segundo Lacan a palavra mata a coisa e coloca em seu lugar o símbolo, criando o fantasma da ilusão de completude na sexualidade humana).
Vejamos: No idílio da completude que a relação imaginária oferecia, a falta insistia em se inscrever. Aquele filho do desejo nasceu de um ideal dos pais. Nascido de um ideal, ele será sempre o filho da desilusão, pois nunca corresponderá à expectativa nele projetada. Exatamente por isso, o universo da mãe não será preenchido só pelo filho, havendo algo mais que ela buscará alhures. A falta se inscreve, então, também para a criança, pois nem ela tem o outro a tempo e a hora de sua necessidade, como esse outro também não a tem como objeto exclusivo de desejo; o que é uma só coisa: Só se pode atender a tempo e a hora se não se tem mais nada a desejar.
Assim, a criança só tem sua demanda atendida parcialmente: em algum momento a mãe falha na interpretação de seu choro. É como se um ruído, de repente, penetrasse na sintonia perfeita das estações “Mãe-Bebê”, uma espécie de linha cruzada, uma interferência externa que prejudica a comunicação: Mesmo que um insista em ser ouvido, ou o outro insista em atender, uma terceira voz se sobrepõe, impedindo a compreensão. Com o ruído, algo se perde.
O seio alucinado daquele primeiro momento de emergência do desejo seria o representante desse algo perdido, um elo perdido, que para a criança é como um objeto que ela na verdade nunca teve, mas pensa ter perdido. Uma falta primordial, protótipo da angústia e da saudade 
É apresentado a seguir o poema "O eu profundo e os outros eus" , de Fernando Pessoa,  Rio de Janeiro, Editora Nova Fontreira.

Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
E quando o navio larga o cais
E se repara de repente que se abriu um espaço
Entre o cais e o navio,
Vem-me, não sei por que, uma angústia recente
Uma névoa de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira  janela onde a madrugada bate,
E me envolve como uma recordação duma outra pessoa
Que fosse misteriosamente minha.
                          
Essa “Pessoa misteriosamente minha” é na verdade o que Lacan chama de objeto causa do desejo: objeto que é uma falta, falta que não é do outro, mas do próprio ser. Falta a partir da qual emergirá o desejo. Desejo que, caracterizado pela “presença de uma ausência” é a “nostalgia do objeto perdido”, nas palavras de Garcia Roza (1988).
Uma ausência e uma perda instaurada definitivamente por aquele ruído que é o simbólico, ou seja, tanto a falta da mãe, a qual a impede de “ouvir” com perfeição o apelo da criança, quanto à interferência da voz do pai, efetivada justamente pela mãe que o busca para além do filho.
O pai funcionará como aquele que é a razão da exclusão do sujeito no desejo da mãe. (Tal como a MÃE é função de maternagem, PAI também deve ser entendido como função). Esse pai causará o desequilíbrio na homeostase da díade, o qual terá de ser inscrito para a criança, simbolizado. G. Gabas (1980) nos diz que, neste momento, o pai intervém no desejo incestuoso, e a sua morte é desejada. Mas o pai desejado morto é o pai do desejo da mãe, e o pai real; entretanto, o pai independe da cria para existir ou não no desejo da mãe, e o sujeito acaba tendo que se encontrar com dois pais: o pai real do desejo materno, e o pai morto do desejo do sujeito. Será a distância entre o dois que permitirá que o sujeito se inscreva no simbólico: o desejo do pai morto terá de ser recalcado, guardado no inconsciente, para que possa se inscrever sem que o sujeito tenha que realizá-lo no ato real. Assim, o pai funciona como uma Lei. Lei que se apóia no papel do pai, mas que também difere de sua pessoa. Essa lei é chamada, então, de NOME-DO-PAI: NOME porque não é a pessoa em si; PAI, porque é autoridade, lei que rompe com o absoluto do Outro da criança. A mãe, que era para a criança outro onipotente (OUTRO – Grande Outro), deixará de sê-lo, para se apresentar para a criança como um a quem falta. Este Grande Outro, a criança ainda buscará, mas em outro lugar. Em princípio neste pai, que de início pensa SER a lei, e depois nos objetos da cultura, quando percebe que também este pai é regido por uma ordem que lhe é alheia.
A articulação dessa Lei com o desejo é feita pela linguagem. Num primeiro momento de inserção na linguagem, Freud descreve o jogo de uma criança, o qual chamou de “Fort-Da”: Ela brincava com um carretel, que fazia aparecer e desaparecer, simbolizando a falta da mãe. Ao jogar, ela nomeava a ausência (Da) e presença (Fort) da mãe, tomando no simbólico o controle da ausência e presença do outro (ver conceito de frustração), o que aliviava a angústia do abandono. G. Roza explica:

A partir do momento no qual a criança formou o seu eu segundo a imagem do outro, ela vai, pelo ingresso na ordem simbólica, produzir uma transformação no objeto através da linguagem. O Fort-Da é a descrição que Freud nos oferece desse momento. O objeto é desnaturalizado e adquire a função de signo; em seguida ela passa para o plano da linguagem e a partir de então a palavra passa a ser mais importante que o objeto.

E citando Lacan:

A palavra é essa roda de moinho por onde incessantemente o desejo humano se mediatiza, entrando no sistema de linguagem.

Mas, quando é só da falta da mãe que se trata, a linguagem é apenas uma oposição de significantes (Fort x Da). É no momento da entrada do PAI, e com o recalque do desejo de morte dele, que o sujeito ingressará na ordem simbólica definitivamente.
O gozo incestuoso (Gozo Incestuoso com o Grande Outro: é incestuoso porque é com o Grande Outro e é gozo porque é desejo de união absoluta, desejo do bem supremo, mítico e impossível de se realizar) será interdito e no lugar do desejo aparecerá o símbolo.
O que este recalque provoca é uma clivagem do sujeito. A partir daí ele será dois: um consciente, o EU e um Inconsciente, o SUJEITO. O desejo pertencerá a essa ordem inconsciente, pois sendo absoluto e incestuoso, é proibido ao sujeito consciente. A esse inconsciente o sujeito é submisso, sendo regido pelo seu desejo sem que o saiba. Garcia Rosa fala disso muito bem, contando a história do escravo que levava gravado no seu couro cabeludo uma mensagem, a qual desconhecia e que anunciava a própria morte. Tal como o escravo, o EU desconhece os desejos do sujeito, os quais determinam o seu destino.
Com a clivagem da subjetividade, o desejo inconsciente falará na voz do Outro, alheio àquele EU consciente. O Outro será o lugar do código, por cuja voz o desejo proibido poderá ser veiculado. Porém, fará isso atropelando a voz cotidiana do EU (Freud mostra como os atos falhos, os sintomas e os sonhos são as verdadeiras manifestações do desejo inconsciente, os quais, ao serem expressos na forma da linguagem, encontram sua realização). De modo que, a palavra diária, que serve para tamponar a falta e ocultar o desejo proibido, servirá ao mesmo tempo para fazê-lo aparecer.
Por não ser TODA, a palavra falha no seu intento tamponador. E quando falha, o SUJEITO fala, o DESEJO fala. Mas ao falar, fica para sempre insatisfeito. Por quê? Porque é linguagem, e se a palavra fala o desejo, ele fala também a falta. J. D. Nasio explica bem isso:

O desejo nunca será satisfeito, pela simples razão de que falamos. E, enquanto falamos, enquanto estivermos imersos no mundo simbólico, enquanto pertencermos a esse universo em que tudo assume mil e um sentidos, jamais chegaremos à plena satisfação do desejo, porque, daqui até a satisfação plena, estende-se um campo infinito, constituído de mil e um labirintos. Já que falo, basta que, no caminho de meu desejo, eu enuncie uma palavra ou execute um ato, inclusive o mais autêntico, para esbarrar imediatamente numa multidão de equívocos, na origem de todos os males entendidos possíveis. Uma vez dita a palavra, ou executado o ato, o caminho para a satisfação torna a se abrir. Aproximamo-nos do objetivo, praticamos um ato na vida, e um outro caminho volta a se abrir.

Mas, Nasio também diz:

          Onde o desejo não alcança seu objetivo, isto é, onde o desejo fracassa, surge uma criação positiva, coloca-se um ato criador. Eis que o desejo torna-se a grande aventura humana! Suportar a sua insatisfação é o preço que ele próprio se impõe. Suportar a sua insatisfação é o preço que se paga por uma realização possível.
Da onipotência da satisfação, o sujeito passa para a possibilidade da realização.
Na busca do elo perdido, o homem se aventura a relacionar-se. Tudo que encontra, porém, é a incerteza, a falta de garantias. De nada adiante reeditar o Grande Outro, pois ele não pode oferecer o Bem Supremo. Entregar-se a esse Outro é o que ele tenta fazer, sustentando ainda a ilusão de que se tudo lhe der, correspondendo ao que imagina ser esperado dele, do Outro tudo terá. Ou seja, sendo ele tudo o que o Outro espera, só para ele o Outro existirá também.
Pura repetição infantil, em que o sujeito ansiava pelo puro reconhecimento de seu desejo.
Mas quem não quer ser reconhecido? Entretanto, será apenas no suporte da insatisfação que certo reconhecimento será possível ao desejo e ao sujeito: se antes via apenas o Outro, e, portanto a si mesmo, agora deve ver o outro, aquele que desvia os olhares do Outro e dele mesmo, fazendo-se conhecedor de uma falta que não se completa nunca. Ao abrir Mão do reconhecimento absoluto, o sujeito ingressa numa outra via: a da possibilidade de existir, pois de modo diverso, o reconhecimento de um implicaria a morte do outro. Agora não. Desfaz-se a equação:

ONIPOTÊNCIA (OUTRO) / IMPOTÊNCIA (EU)

E constrói-se a fórmula:

IMPOSSIBILIDADE / POSSIBILIDADE

           De ambas as partes serem reconhecidas. É a viabilização de certa realização, de certo reconhecimento, não exclusivo, não todo, não sempre, mas nem por isso fadado ao nunca.
Essa aventura: no encontro com o outro (semelhante) o encontro dos olhares. Olhares que ora se apaixonam, ora se desiludem. Olhares de desejo, mas olhares de falta.
E é assim que, aventurando-se na falta, o sujeito parte em busca de algo além. E para além, é o mundo que se descortina, são os horizontes que se ampliam, é a vida que se abre para a criação.

CAIXA PRETA Roberto Lanza
17/02/2015

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Porta fechada (mas pior: a chave por dentro).

A frase poética "porta fechada (mas pior: a chave por dentro) é uma forma bem compacta  de expressar o núcleo da liberdade e da sua ausência.

O contraponto "mas pior" o que significa? Que diante da adversidade, renunciamos a enfrentá-la, fazemo-nos cúmplices dela e é isso o pior, que é a renuncia à liberdade por resignação ou impotência em enfrentá-la, portanto subjetiva. Já porta fechada é um fato ou um dado vivenciado como informação.externa de causa desconhecida. 

A reflexão acima, em determinados casos, nos possibilita clarear um pouco o que significa no Poder Legislativo: pauta trancada, reformas porvir, engavetamento de Projetos de Leis, arquivamento de processos, bancada da maioria, etc. 

Bancada pode ser representação política como também uma barreira (banco de areia), segundo o dicionário Aurélio. Assim, pode ser o verdadeiro espírito de servir à sociedade, assim como exercer o cerceamento para manter privilégios e manutenção do poder.

Felizmente, o atual presidente da Câmara dos Deputados o Exmo. Sr. Deputado Eduardo Cunha vem abrindo as portas trancadas do Congresso, que são as chaves para resgatar a dignidade do "Gigante pela própria Natureza". 

Temos um exemplo recente: a aprovação do orçamento impositivo repassando o cerceamento, até então, vigente no Congresso,  para a caneta da Presidência da República.

Seja bem-vindo Deputado Eduardo Cunha.

CAIXA PRETA
14/022015   

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

OSSO DURO DE ROER

As recentes críticas originadas do Palácio do Planalto e do Congresso Nacional contestando o posicionamento do Senador Aécio Neves, como se ele, ainda, esteja fazendo campanha no palanque eleitoral e, sobretudo, inconformado com a sua derrota, repousam num tremendo engano.

Se a eleição fosse realizada hoje, diante da repercussão do denominado “estelionato eleitoral” frequentemente divulgado pela imprensa em geral, quem duvidaria de um novo resultado?

O palanque da Exma. Presidente Dilma, denominado “Novo Brasil”, desmoronou-se  por falsas verdades, enquanto que o atual palanque do Senador Aécio Neves encontra-se fortemente estruturado. Essa metamorfose vem gradativamente  nos habilitando, mesmo que de forma ainda ofuscada, a vislumbrar o lado sombrio da realidade, que precisa de saneamento urgente.

Varrer a escada de baixo para cima é “osso duro de roer”. Mas, o aumento crescente de adeptos ao fenômeno da transformação de delituoso para delator, os degraus da escada vão se conformando no contexto da verdade..

CAIXA PRETA

06/02/2015

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

HORIZONTE DA INCOMPLETUDE

Pintura de ROBERTO LANZA 

Será que há alguém que se julga um ser completo, acabado e pleno?  Então ele já pode morrer em paz! Seu lugar está no final da ponte acima na expectativa de uma "esperança milagrosa".. Todos querem o céu, mas ninguém quer morrer e nem sequer plantar o jardim para colher flores. 

Pelo senso comum:
“Beco sem saída só existe para quem não aprendeu a olhar para dentro de si mesmo”.
“De nada adianta quebrar a parede com a cabeça e sair na cela do vizinho. A saída será sempre pelo teto”.

A ilusão de completude é fator determinante para sermos um peregrino em busca do nosso complemento, uma vez que somos seres de falta. Segundo a Psicanálise, a falta é estrutural e constante em nossa vida psíquica. Isto significa que portamos certa medida de ausência de algo que atesta a nossa condição de imensa procura por algo não encontrável. Todos buscam incessantemente na vida uma realidade que os possa completar.

Acontece que o que o homem busca não é encontrável, porque não existe no mundo real, pois se trata de uma falta do próprio ser. O agravamento está exatamente no fato de se buscar a completude em fontes erradas no mundo exterior, num contingente abundante de prazeres, posses, dinheiro, amores, etc. Tudo isso tornará a nossa incompletude cada vez maior, dentro de um ciclo vicioso, cada vez mais frustrante.

As ilusões sequestram a nossa realidade e a coloca fora de nós mesmos. Segundo a Filosofa Marilene Chauí: “vivemos a esperança milagrosa de felicidade. Da felicidade que existe, sim, mas que não alcançamos porque nunca a pomos onde nós estamos, embora esteja sempre apenas onde a pomos”.
CAIXA PRETA
29/01/2015



segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

SOFRIMENTO E PAZ


As características peculiares da espécie humana são tributárias da ordem simbólica, constituinte da cultura, na qual o homem se encontra radicalmente inserido. Da mesma forma que o peixe é o último a perceber a existência da água o homem, de modo geral, é alienado na linguagem, num desconhecimento crônico de si mesmo.

A sombra do sofrimento é pão que nunca falta na mesa do humano, exatamente porque ele não sabe quem ele é.
Tanto o corpo como o mapa mental de cada indivíduo (um-dividido) é escrito pela linguagem. Como disse Lacan: “a letra mata a coisa e coloca em seu lugar o símbolo”. Assim, a anatomia do corpo, da mente, da diversidade de coisas e de fenômenos do mundo exterior, ao serem nomeados, transforma-se em conhecimentos e escrituras.

Somos, portanto, seres históricos e simbólicos. De acordo com os linguistas, a função da linguagem é reproduzir a realidade, sendo que o termo reprodução deve ser entendido, literalmente, como produzir novamente. Assim sendo: a cada fala as coisas e os acontecimentos são recriados pela linguagem. Como não há pensamento e nem objetos do mundo sem a linguagem, tudo parece ser criado ou recriado num contexto de temporalidade.

A capacidade que o homem possui de estabelecer uma relação entre o real e o signo, este último deve ser entendido como um representante do real, conhecido como significação, o mundo passa a ter significado. Tudo aquilo que é, por natureza, indiferente para todos os outros seres vivos, torna-se significativo para a humanidade.

Vejamos o que diz o apólogo chinês:

Disse um amigo ao outro, sobre a ponte:
“Olha como os peixes estão alegres no rio”.

O outro replicou:
“Como é que tu, que não és peixe,
sabes que os peixes estão alegres no rio?”

O primeiro respondeu:
“Por minha alegria em cima da ponte”.  

CAIXA PRETA
26/01/2015
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domingo, 25 de janeiro de 2015

JUVENILIZAÇÃO


Gostaria de induzir ao leitor deste Blog, que se interessar, uma reflexão sobre determinados fenômenos que se manifestam frequentemente na nossa vida cotidiana e, no entanto, não os percebemos com clarividência, a ponto de sermos capazes de discernimento da realidade e de fazemos escolhas assertivas..  

Trata-se do prolongamento do nosso período juvenil, que amplia a nossa capacidade de aprendizagem e a nossa capacidade lúdica, conhecido cientificamente como juvenilização ou neotenia.

"Neotenia é o processo evolutivo do qual resulta, nos seres humanos, uma capacidade de aprendizagem que se prolonga por toda a vida. Traduz uma falta de acabamento que prolonga o período de infância e de adolescência e permite o desenvolvimento da inteligência. Exprime também uma enorme flexibilidade do nosso patrimônio genético, que nos torna abertos às influências culturais e ambientais. À letra, neotenia significa manter a juventude".
(EDGAR MORIN, autor do livro O Paradigma Perdido)

Além do livre arbítrio possuímos também o denominado
Fator de Espontaneidade (FE) que é a capacidade do indivíduo de dar respostas adequadas a situações novas ou respostas adequadas a situações antigas. Quando o fator FE está bem desenvolvido, o indivíduo apresenta maior número de respostas adaptativas e criativas. Criar coisas o estimula. Essa criação tende a ser organizada e fichada. Assim são importantes os atos criadores e a espontaneidade.

Ambos os conceitos acima estão intimamente relacionados de forma necessária. É uma relação interessante de se analisar: a espécie humana, que desenvolveu a segunda natureza dentro de um cenário imaginário tão real  e capaz de manipulá-la com muita habilidade e artifícios. Isso muito contribuiu  para o prolongando do seu período juvenil. Mas, e a maturidade? E o racional? Ai a solução para este dilema da humanidade “é mais uma vez o bom-senso”.

E aí está a chave da sobrevivência humana: quem sabe lidar com esta capacidade de aprendizagem expandida, consegue se adaptar MAIS fácil a todos os processos sociais. Isso acontece, porque se mantém a criatividade juvenil, junto com a ousadia, a falta de medo, a leveza, a leviandade e a capacidade de lidar com o novo.

Consequentemente você pode se perguntar: mas o medo não é algo importante? Afinal, experienciar esta sensação de alerta é dar valor a cada minuto da vida e considerar MUITO todas as lições do cotidiano.

É saber agradecer por cada novo dia, por cada momento novo e por cada novo sonho”. Pois bem, esta é uma pergunta bem interessante! A ousadia, a leveza e a leviandade, própria da juvenilização, implicam necessariamente na quebra da barreira do distanciamento.

Com isso, toda sociedade deve assim encontrar o limite entre o medo e a ousadia. É ter sensibilidade de ouvir os próprios limites e fazer aquilo que se julga o melhor. Nunca esquecendo, é claro de que: Quanto mais juvenilização, menos medo. E, quanto mais medo, mais timidez, menos coragem e menos criatividade”.
(MARTHA MEDEIROS
~Escritora, Poetiza, Jornalista – Jornal Zero Hora de Porto Alegre/RS).

CAIXA PRETA

25/01/2015